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“Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis.” (Daniel 2,21)
O domingo eleitoral trouxe razões concretas para que brasileiros olhem para o futuro com renovada esperança. Não porque todos os problemas tenham desaparecido, nem porque uma eleição seja capaz de regenerar uma nação. Mas porque as urnas mostraram que mais de 56 milhões de brasileiros desejam uma mudança de rumo.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, levando a eleição para o segundo turno. Com a apuração concluída, a diferença era superior a 2 milhões de votos. Ao mesmo tempo, candidatos identificados com a direita e o conservadorismo conquistaram importantes vitórias para o Senado, governos estaduais e Câmara dos Deputados. Não se trata, portanto, de um acontecimento isolado, mas de uma mudança significativa na correlação de forças políticas do país.
É legítimo celebrar. Mas é ainda mais importante compreender esses acontecimentos à luz de uma verdade muito mais antiga que a República brasileira: o único Deus, por sua providência, continua governando a história.
Como lembrou Bento XVI numa audiência geral de 2005: “A história não está nas mãos de potências obscuras, do acaso ou de meras decisões humanas. [...] Deus não é indiferente às vicissitudes humanas, mas nelas penetra realizando as suas ‘vias’, ou seja, os seus projetos e as suas ‘obras’ eficazes. [...] A aventura da humanidade não é confusa e sem significado, nem está votada sem apelo à prevaricação dos prepotentes e dos perversos. Pode-se reconhecer o agir divino escondido na história.”
Presidentes passam. Senadores terminam seus mandatos. Ministros deixam seus tribunais. Partidos surgem, crescem, dividem-se e desaparecem. O único Deus permanece
Uma noite importante para a direita
Talvez uma das mensagens mais claras das urnas tenha vindo do Senado, justamente porque neste ano estavam em disputa 54 das 81 cadeiras da casa.
No Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem e Sanderson conquistaram as duas vagas. No Rio de Janeiro, Carlos Portinho e Carlos Jordy foram eleitos. Em São Paulo, Guilherme Derrite e André do Prado conquistaram as duas cadeiras em disputa. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas. No Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja e Capitão Contar conquistaram as duas vagas. Em Santa Catarina, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro venceram a disputa.
Também houve derrotas especialmente simbólicas para a esquerda. Randolfe Rodrigues, líder do governo Lula no Congresso e senador desde 2011, não conseguiu renovar seu mandato pelo Amapá. Manuela d’Ávila retornou à disputa eleitoral depois de anos afastada das urnas, mas não conseguiu uma das duas vagas gaúchas. Benedita da Silva, Marina Silva, Leila do Vôlei e Simone Tebet, além de Renan Calheiros, também ficaram fora do Senado.
Uma nova correlação de forças
A eleição para o Senado merece atenção especial. Além de legislar, a casa aprova autoridades indicadas para cargos importantes e exerce competências específicas sobre ministros do Supremo Tribunal Federal. Por isso, mudanças expressivas em sua composição podem alterar o equilíbrio institucional em Brasília. A nova configuração aponta para maior presença das forças de direita, embora longe de constituírem um bloco homogêneo.
Algo semelhante ocorreu na Câmara. O avanço do PL e de outros setores conservadores cria um ambiente parlamentar diferente para debates sobre segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade de expressão e religiosa, família, proteção da vida e limites do poder estatal. O PL, em particular, saiu das urnas muito fortalecido.
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O fracasso dos candidatos das igrejas pentecostais
Mas uma das mudanças mais interessantes ocorreu dentro do próprio campo evangélico. As grandes máquinas eleitorais ligadas a denominações pentecostais e neopentecostais sofreram derrotas expressivas. Os quatro filhos de R. R. Soares ficaram sem mandato; a Assembleia de Deus do Brás/Madureira não conseguiu eleger seus quatro candidatos em São Paulo; Cezinha de Madureira não se reelegeu; Edna Macedo perdeu sua cadeira na Assembleia Legislativa paulista; Marcelo Crivella ficou fora do Senado; e candidatos da Igreja do Evangelho Quadrangular também foram derrotados.
Isso não significa diminuição da presença evangélica na política, mas pode indicar o enfraquecimento de um modelo de representação baseado no controle denominacional do voto. Durante décadas, grandes igrejas pentecostais e neopentecostais construíram máquinas eleitorais, indicando candidatos oficiais e negociando apoio de maneira frequentemente pragmática, integrando-se, em muitos casos, à lógica fisiológica do Centrão.
Desta vez, muitos evangélicos continuaram votando em candidatos conservadores, mas deixaram de seguir automaticamente os nomes apresentados pelas cúpulas de suas denominações. O voto evangélico permaneceu forte, mas parece ter se tornado menos controlável pelas máquinas eclesiásticas: candidatos identificados como evangélicos se elegeram, tais como Michelle Bolsonaro, Marcel van Hattem, Nikolas Ferreira e Deltan Dallagnol, enquanto vários representantes institucionais das grandes denominações foram rejeitados.
O fenômeno acompanha uma transformação mais ampla. O velho Centrão sofreu derrotas importantes, atingindo lideranças e estruturas que durante anos funcionaram como fiadoras do presidencialismo de coalizão. A derrota de Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e um dos nomes mais representativos desse sistema, é simbólica: terminou apenas em terceiro na disputa pelo Senado no Piauí.
Muitos evangélicos continuaram votando em candidatos conservadores, mas deixaram de seguir automaticamente os nomes apresentados pelas cúpulas de suas denominações
Seria exagerado decretar a morte do Centrão. Sua capacidade de adaptação é enorme, e partidos como PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSD continuarão exercendo influência. As fronteiras entre direita, centro-direita e Centrão também são menos nítidas na prática do que parecem durante as campanhas. Mas a correlação de forças mudou: as urnas fortaleceram setores claramente identificados com posições conservadoras e retiraram espaço de caciques partidários e máquinas religiosas acostumadas a converter influência institucional em mandatos.
Eleições produzem consequências. Talvez uma das mais significativas deste domingo seja justamente esta: parte do poder político se deslocou das cúpulas para o eleitorado. Milhões de brasileiros recusaram tanto a ideia de que a continuidade do atual projeto político fosse inevitável quanto a de que antigos caciques partidários ou religiosos pudessem determinar como deveriam votar. Há uma nova correlação de forças no país. E, pela primeira vez em décadas, há espaço real para uma mudança de rumo.
Celebrar sem idolatria
Podemos comemorar uma eleição sem transformar políticos em salvadores. Podemos desejar a derrota de projetos que consideramos prejudiciais ao país sem imaginar que o Reino de Deus chegou por meio das urnas.
A Escritura é radicalmente realista quanto ao poder. Daniel aprendeu isso vivendo não numa democracia liberal, mas entre os impérios mais poderosos de seu tempo. Viu reis se exaltarem, governantes enlouquecerem de orgulho, impérios parecerem invencíveis e poderes humanos desaparecerem. Sua conclusão foi simples: “Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis”. O sujeito da frase é o Deus de Israel. Não são os partidos, os tribunais, os generais, os presidentes, os movimentos políticos, nem sequer os eleitores. O Deus criador e salvador. Essa verdade nos protege tanto do desespero quanto da euforia.
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Bento XVI reforça essa distinção com clareza: “Jesus esclarece a natureza do seu reino e da própria messianidade, que não é poder terreno, mas amor que serve; afirma que o seu reino de modo algum se confunde com qualquer reino político: ‘A minha realeza não é deste mundo... o meu reino não é daqui’ (Jo 18,36). [...] Jesus sabe que o reino de Deus é de gênero totalmente diverso; não se baseia sobre as armas e a violência”. E ainda: “O poder do verdadeiro Messias, o poder que nunca passará nem será destruído, não é o poder dos reinos da terra, que se elevam e caem, mas o poder da verdade e do amor”.
É justamente porque o Reino de Cristo não se confunde com nenhum projeto político que podemos celebrar vitórias eleitorais sem idolatrá-las – e enfrentar derrotas sem desespero.
Deus não perde eleições
É possível que o Brasil esteja entrando em um período de correção política. O novo Congresso poderá impor limites mais claros ao Executivo e contribuir para o reequilíbrio das instituições. O segundo turno poderá ampliar ainda mais essa mudança.
Mas cristãos deveriam aprender a acrescentar algumas palavras a toda expectativa política: “se Deus quiser”. Nossa confiança última não pode repousar numa maioria parlamentar ou na eleição de um presidente. Maiorias mudam. Presidentes passam. Senadores terminam seus mandatos. Ministros deixam seus tribunais. Partidos surgem, crescem, dividem-se e desaparecem. O único Deus permanece. Essa é a diferença fundamental entre esperança cristã e otimismo político. O otimista espera que as circunstâncias melhorem. O cristão trabalha para que melhorem, mas sabe que sua esperança não depende disso.
Por isso podemos participar intensamente da vida pública sem transformar a política em religião. Podemos votar, fiscalizar, cobrar, protestar e exigir responsabilidade daqueles que governam – e, depois, afirmar: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque só tu, Senhor, me fazes repousar seguro” (Sl 4,8). O governo do universo não repousa sobre nossos ombros.
Podemos desejar a derrota de projetos que consideramos prejudiciais ao país sem imaginar que o Reino de Deus chegou por meio das urnas
Esperança para o Brasil
Eu desejo um Brasil melhor. Um país no qual nossos filhos e netos possam crescer em segurança; famílias possam educar seus filhos segundo suas convicções; igrejas cristãs possam pregar livremente; trabalhadores possam prosperar pelo fruto de seu esforço; criminosos sejam punidos de acordo com a lei; governantes encontrem limites institucionais e nenhuma autoridade se imagine acima da Constituição. Os resultados deste domingo oferecem razões para esperar avanços nessa direção. Talvez venham anos melhores – devemos trabalhar por isso. Talvez ainda enfrentemos tempos difíceis – devemos estar preparados para isso.
A fé de que o Deus soberano “remove reis e estabelece reis” não é verdadeira somente quando nossos candidatos vencem. Também é verdadeira quando perdem. Portanto, celebremos com sobriedade, agradeçamos pela liberdade de votar e cobremos dos eleitos coragem, integridade e fidelidade às promessas feitas.
Ainda há um segundo turno. Há trabalho pela frente, instituições que precisarão reencontrar seus limites e uma sociedade profundamente dividida que precisará reaprender a conviver. Mas acima de Brasília existe um trono que nenhuma eleição alcança. Karl Barth expressou isso com precisão: “Onde existe a grande esperança, necessariamente existem também pequenas esperanças para o futuro imediato. Essas esperanças têm sua base e sua força somente na grande esperança. Elas são pequenas, relativas e condicionadas. [...] E é certamente nessas muitas pequenas esperanças que o cristão vive de dia a dia, se ele realmente vive na grande esperança”.
É exatamente assim que devemos olhar para o Brasil: alimentar as pequenas esperanças sem confundi-las com a grande esperança. “Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis.” Governos passam. Ideologias passam. Impérios passam. O bom Deus permanece. E é precisamente por isso que podemos olhar para o futuro do Brasil com esperança – não porque saibamos o que acontecerá amanhã, mas porque sabemos quem continuará reinando quando o amanhã chegar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia, pós-graduado em Bíblia e Teologia, mestre em Teologia e doutor em Divindade. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico. Autor de vários livros sobre teologia e história do cristianismo. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



