ESG: sem inovação é apenas mais do mesmo
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Essas três letrinhas não surgiram de um passe de mágica. O mercado não acordou um dia e pensou: Meio Ambiente (Environment), Responsabilidade Social (Social) e Governança (Governance), o que posso fazer com isso? Na verdade esse acrônimo foi criado numa publicação de 2004, do Pacto Global da ONU, em parceria com o Banco Mundial, chamada Who Cares Wins. Portanto, foi percorrido um longo caminho até aqui. Não é possível afirmar com precisão aonde está caminhada se iniciou: alguns irão apontar a década de 1970, na crise do petróleo; outros falarão que foi na década de 1960, com os movimentos de responsabilidade social; e há os que irão mais longe e afirmarão que tudo se inicia na década de 1920, quando a Alemanha, por meio da Constituição de Weimar, declarou a função social da propriedade. Para não gastarmos muita energia com o passado, abaixo é apresentado uma linha do tempo com alguns eventos que nos trouxeram até o ESG.

Observando o infográfico é visível que o mercado passou por muita coisa até compreender que recursos finitos (no caso os recursos naturais), não podem gerar lucros infinitos, que as pessoas são o verdadeiro capital de uma empresa e, ainda, que empresas comprometidas com a promoção da diversidade e com uma agenda anticorrupção são mais eficientes.

Empresas passaram da fase do capitalismo selvagem, com Milton Friedman (economista norte-americano) afirmando que "responsabilidade social era uma empresa gerar lucros para seus acionistas"; para uma cultura filantropista e de responsabilidade socioambiental, a qual também foi muito criticada por especialistas. Como Michael Porter, que afirmou em seu artigo “Estratégia e Sociedade”: a responsabilidade social é, regra geral, excessivamente genérica, reativa e fragmentada, produto de ações dissociadas da estratégia da empresa e por essa razão não produz impacto social importante, muito menos reforça a competitividade da corporação no longo prazo. E, finalmente, chegamos a era da sustentabilidade corporativa, a qual propõe uma agenda estratégica focada na busca pela competitividade - as empresas deixam de “agir sob pressão” e de submeter suas agendas socioambientais ao interesse de terceiros, identifica, os impactos, não apenas os negativos, mas também os positivos, e passam a priorizar temas relacionados com o contexto do seu negócio, adotando uma pauta social capaz de combinar estratégia empresarial com bem-estar socioambiental.

O resultado dessa transformação são empresas produzindo centenas de dados e muita informação sobre questões sociais e ambientais e investindo em belíssimos relatórios de sustentabilidade, os famosos Relatórios GRI.

Nessa altura, alguns questionamentos precisam ser levantados: O que as empresas têm feito com esses dados? Será que esses dados produzidos a um alto custo geram retorno para a corporação? Será que sustentabilidade é um custo ou um investimento para a maioria das corporações? Será que estão seguindo os conselhos de Porter e pensando mais estrategicamente?

O ESG pode ser o ponto de virada nessa história, pois as questões socioambientais finalmente bateram na porta dos cargos mais altos na hierarquia das empresas e o mercado financeiro acordou. Relatório da PwC aponta que até 2025, 57% dos ativos de fundos mútuos na Europa estarão em fundos que consideram os critérios ESG, o que representa US$ 8,9 trilhões, em relação a 15,1% no fim do ano passado. Além disso, 77% dos investidores institucionais pesquisados pela PwC disseram que planejam parar de comprar produtos não ESG nos próximos dois anos. No Brasil, fundos ESG captaram R$ 2,5 bilhões em 2020 – mais da metade da captação veio de fundos criados nos últimos 12 meses. Este levantamento foi feito pela Morningstar e pela Capital Reset.

Entretanto, para essa virada, realmente, acontecer a inovação terá um papel fundamental. Importante destacar que, quando falo em inovação, me refiro a todos seus fundamentos, não apenas os tecnológicos. Destaco entre esses fundamentos a diversidade cognitiva, destacada por Matthew Syed em seu livro Ideias Rebeldes, no qual o autor ressalta importância da diversidade das pessoas envolvidas em solucionar problemas complexos, pessoas que pensem fora de caixa e principalmente que discordem de determinados pontos de vistas, somente esse ambiente, um tanto quanto caótico, pode levar a inovação.

Enxergo, também, grandes oportunidades para novos negócios, nos quais o uso da tecnologia, apoiado por uma equipe com alta diversidade, pode transformar relatórios bonitinhos, mas ordinários, em poderosos instrumentos de tomada de decisões estratégicas. A enormidade de dados e informações geradas nas áreas ambientais e sociais, quando bem trabalhados podem catapultar o negócio das empresas, e sob um olhar sistêmico e holístico podem gerar novos negócios, o que pode nos jogar definitivamente na era dos negócios verdes.

*Rodrigo de Almeida é sócio-diretor do Grupo Index. É biólogo graduado pela Universidade Federal do Paraná – UFPR e mestre em Gestão Ambiental (UP). Foi coordenador do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária no Centro Universitário FAE e professor na área de Gestão Ambiental e Sustentabilidade para os cursos de Engenharia Ambiental, Engenharia Mecânica e Administração.

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