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Pisando firme: como as calçadas são o fio condutor da identidade cívica
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Por Instituto Atuação

Dizem que o primeiro passo no nosso dia, o primeiro contato do nosso pé com o mundo ao sair da cama, tende a dar o tom para o nosso dia inteiro. Imagine, agora, seu primeiro passo na cidade, após sair pelo portão de casa, ou para fora do carro. Passos iniciais em uma calçada limpa, lisa, acolhedora, permitem-nos caminhar seguros; já passos temerosos em relevos imprevisíveis, buracos mal-tapados e pedras traiçoeiras, obrigam-nos a olhar para o chão em vez de apreciar o dia, tornando a caminhada um desafio. Uma jornada começa com o primeiro passo, e onde pisamos determina, muitas vezes sem percebermos, como essa jornada será.

O programa Vamos Caminhar Melhor, da prefeitura de Curitiba, compreende a importância desse tema para a mobilidade urbana e busca tornar as calçadas mais acessíveis e seguras. Afinal, conta o Prefeito Greca, “muito se fala em Curitiba que as nossas calçadas não prestam”. Em diversas áreas da cidade, a calçada regular é uma lenda da qual apenas se ouve falar. Mesmo quando a calçada está presente, ela está longe de ser perfeita: raízes de árvores disputam espaço com pedras, gerando um relevo que dificulta a passagem; outro problema são os famosos petit-pavê no centro histórico, que às vezes se soltam e, assim, acabam se tornando obstáculos, ao invés de calçadas. A resposta da prefeitura a esses problemas é construir um caminho de pedras lisas ao lado do petit-pavê, o qual se iniciará no Centro Histórico e continuará, eventualmente, por toda a cidade. Assim, mantém-se a história da calçada de mosaicos que é tradicional desde o Império Bizantino, ao mesmo tempo em que são reduzidos os entraves para a mobilidade urbana.

As calçadas são nosso principal ponto de contato não apenas com a cidade, mas também com nossos concidadãos. Dividimos a calçada com pedestres, ciclistas, patinetistas. Em suas lajes e pedras, cumprimentamos quem passa ao nosso lado, batemos papo com quem está passeando com o cachorro, compramos caldo-de-cana de um vendedor de rua. Além de a calçada funcionar como um fio condutor físico do meio urbano, inescapável mesmo para quem se desloca de carro ou de ônibus, ela é, também, o fio condutor abstrato da cidade. Afinal, muitas das nossas percepções da cidade formam-se ao caminharmos sobre elas.

Calçadas acessíveis, planejadas para incluir todos os tipos de mobilidade, estendem essa experiência da cidade a todos. Em contrapartida, calçadas mal-cuidadas afetam negativamente a identidade cívica: quando estamos olhando para os pés, preocupados com onde pisamos, deixamos de olhar nos olhos dos outros pedestres. Ao comparar nosso bairro sem calçamento aos bairros da cidade que ostentam ciclovias, nos sentimos como cidadãos de segunda classe. Calçadas de pedras cheias de relevos impedem nosso acesso aos espaços públicos, como se estivessem nos dizendo que não somos bem-vindos onde moramos.

As experiências do pedestre com sua cidade geram sensações que têm repercussões para o próprio espaço físico urbano. A teoria das janelas quebradas[1], influente na revitalização do centro de Manhattan nos anos 1990, argumenta que um ambiente urbano com sinais de abandono ou de descaso encoraja mais crime e desordem. Assim, há uma reciprocidade entre o cidadão e a cidade: respondemos à maneira como somos tratados por nosso município; ao mesmo tempo, ao valorizarmos e cuidarmos do ambiente urbano, ele também retribui, nos tratando melhor.

Assim, o convívio social urbano é diferenciado quando as calçadas são firmes, acessíveis e convidativas. Pisar seguro é, afinal, o primeiro passo para se sentir seguro. Além disso, pisar tranquilo, livre de preocupações com as pedras sobre as quais caminhamos, nos permite interagir com nosso ambiente — e a experiência da atmosfera urbana ocorre justamente nessas interações. Calçadas livres de obstáculos, devidamente sinalizadas e estáveis libertam nosso olhar para vislumbrar os grafites poéticos, apreciar as cores vibrantes e aproveitar as ruas arborizadas. Pode até parecer algo insignificante, mas caminhar olhando ao redor nos permite valorizar por onde caminhamos. E é ao valorizar nossa cidade que passamos a cuidar mais dela.
[1] Wilson, James Q; Kelling, George L (Mar 1982), "Broken Windows: The police and neighborhood safety", The Atlantic.

*Artigo escrito por Luiza Leão, formada em ciência política pela Universidade de Columbia, Nova Iorque, e pesquisadora do Instituto Atuação. O Instituto Atuação é colaborador voluntário do Blog Giro Sustentável.

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