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A volta do país do 1% ao mês
| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

É bastante simbólico que, em meio à bagunça que virou a economia brasileira neste segundo semestre, tenhamos voltado a ser o país do 1% ao mês. Se você quiser uma aplicação segura em um título público, poderá ter esse rendimento por alguns anos.

Quando a reforma da Previdência foi aprovada, em 2019, e o Banco Central na sequência continuou a redução dos juros em um cenário de inflação baixa, falou-se muito sobre uma mudança estrutural no Brasil. A taxa real de juros estaria fadada a ser mais baixa do que em qualquer momento desde o Plano Real. Quem quisesse rendimento de 1% ao mês teria que aceitar riscos.

A história foi outra e voltamos agora ao 1% ao mês na renda fixa. O mercado está cobrando o preço da incerteza na condução da política fiscal, combinada com uma série de fatores que fizeram a inflação desviar de forma considerável da meta. Os juros reais praticados no mercado de títulos públicos estão acima de 5% ao ano.

Temos um cenário que combina quatro fenômenos que fizeram o Brasil contratar uma recessão para 2022 - pelo menos na visão de mercado, já que o governo vinha mantendo uma narrativa alternativa sobre as perspectivas para o ano que vem.

O primeiro fator é um choque de oferta que vem se mantendo desde o início da pandemia. Ele está ligado à desorganização de cadeias globais de fornecimento. O exemplo mais contundente é o de semicondutores, que estão escassos e fizeram a indústria automotiva frear sua produção no mundo todo. Há também problemas de logística em grandes portos, sobrecarregados com a mudança de hábitos de consumo durante a pandemia - uma migração, em resumo, de serviços para bens duráveis.

Há também uma pressão energética que é, ao mesmo tempo, global e local. O preço do petróleo, cujo preço chegou a ficar negativo durante o pico da freada da pandemia, vem subindo nos últimos meses. É verdade que já passamos por ciclos mais fortes de valorização do petróleo, mas devemos lembrar que no Brasil essa questão tem efeitos mais pronunciados por causa do câmbio.

Ao mesmo tempo, temos localmente uma crise na geração de energia elétrica provocada por uma longa estiagem. A conta de luz subiu para que se pagasse por termelétricas caríssimas, algumas delas com custos 20 vezes maiores do que o normal. Esse fator, mesmo com a chegada da chuva no Sudeste, vai continuar influenciando a economia em 2022 porque o país precisa recuperar seus reservatórios, o que significa manter ligadas as térmicas durante o verão.

No front fiscal, o governo criou um monstrengo que incluiu uma malfadada reforma do Imposto de Renda (que diminuía impostos e ao mesmo tempo viabilizava o aumento do gasto com o Auxílio Brasil) e a PEC dos Precatórios, que é uma somatória de calote, populismo e casuísmo político. O teto de gastos está sendo remendado com um puxadinho que vem na pior hora possível.

O quarto fator é um resumo da ópera: o câmbio pressionado desde o início da pandemia. Em momentos anteriores de pânico na economia, o dólar sempre subiu. Mas houve na sequência uma compensação pelo fato de o Brasil ter uma balança comercial superavitária. Neste momento, era de se esperar que a valorização das commodities contribuísse para o câmbio voltar para o ponto de equilíbrio, calculado em torno de R$ 4,50. Isso não aconteceu porque a incerteza e desconfiança em relação ao Brasil continuam altas. O dólar está em R$ 5,50 e a perspectiva de elevação dos juros no mundo rico vai dificultar que ele caia no ano que vem.

Neste momento, estamos colhendo os juros elevados pela inflação (de oferta, energia e câmbio) e pela política fiscal que furou o teto. A dúvida é se o mercado está exagerando ou não na reação que jogou o Brasil de volta para a realidade do 1% ao mês. Enquanto títulos públicos para 2024 pagam mais de 12% ao ano, a taxa básica, a Selic, está em 7,75% ao ano.

Nos próximos meses veremos se o Banco Central vai validar os juros do mercado. A autoridade monetária já deixou claro que vai elevar os juros até onde for necessário. Mas é pouco provável que chegue aos 12% ao ano. Temos uma combinação de pessimismo exagerado de um lado e de lentidão do outro - o BC ficou "atrás da curva", ou seja, manteve juros mais baixos do que o necessário para evitar a disseminação da inflação, mas é óbvio que o tamanho do furo no teto de gastos não compromete a solvência das contas públicas no longo prazo.

O que também ficou claro na última semana é que o BC está, como costuma acontecer, sozinho neste jogo. Brasília não quer ouvir falar em fazer política fiscal anti-inflacionária. Em outras palavras, os políticos não vão cortar gastos para os juros subirem menos e a inflação voltar mais rapidamente para a meta. Eles vão fazer o contrário e acentuar o custo de manter a economia em boa forma.

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