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Bolsonaro em manifestação em Brasília no último domingo.
Bolsonaro em manifestação em Brasília no último domingo.| Foto: AFP

O Banco Central tem nesta semana uma chance para agir de forma determinada contra a crise econômica que ganha contornos de depressão global. A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de terça e quarta é o momento certo para o BC mostrar que está disposto a usar todos os instrumentos que tem em mãos.

O problema hoje é que há também uma crise política. As manifestações do presidente Jair Bolsonaro aumentaram o estresse institucional em Brasília, fora os riscos da investigação no caso trazido pelo ex-ministro Sergio Moro.

Até a saída de Moro, o mercado vinha se comportando como se os juros nesta semana cairiam um ponto percentual, pelo menos. As apostas agora estão em meio ponto, o que levaria a Selic par 3,25% ao ano.

Se essa visão mais conservadora estiver correta, o BC terminará o pior trimestre da história econômica global reduzindo os juros em um ponto percentual. Isso ocorreria com o mercado estimando que a Selic chegará ao fim do ano em 2,75% - ou seja, assumindo que a autoridade monetária terá de ir mais longe.

Só a percepção de que há a possibilidade de mudanças políticas importantes explicaria um atraso na redução dos juros diante da crise provocada pelo coronavírus. O BC teria de aguardar um pouco mais se entendesse, por exemplo, que há risco de um rumo sem volta na política fiscal.

A relação tortuosa do ministro da Economia, Paulo Guedes, com outras alas do governo foi um dos pontos mais frisados depois da saída de Moro. Afinal, se um dos ministros considerados indemitíveis saiu, por que isso não ocorreria com Guedes? Bolsonaro tentou deter essa especulação, mas a verdade é que qualquer coisa pode acontecer na relação entre o presidente e seus ministros.

O BC deveria ignorar esse risco e lidar com ele quando for de fato uma decisão de governo. As razões para um corte que leve os juros reais rapidamente para zero, ou menos, são bastante evidentes. Há uma combinação de choque de oferta e de demanda incomum, cujos efeitos tendem a ser deflacionários.

Isso já aparece nos preços das commodities, em especial do petróleo, e retira a pressão inflacionária que poderia incomodar o BC. Aumentos em serviços também ficam fora do radar, já que muitos deles não podem nem ser prestados na crise. O único ponto de preocupação está no clima seco no Sul que vem se refletindo em preços mais elevados dos alimentos.

Zerar a taxa real de juros é possível com a Selic em torno de 2,5% ao ano ou até menos, conforme a inflação futura ceder à crise. Teremos um desemprego mais alto e maior capacidade ociosa na economia, o que, mesmo com algum repasse da valorização do dólar, permite a política monetária mais estimulativa possível, mesmo que por pouco tempo.

Depois de zerar os juros, o BC terá de trabalhar para baixar a curva dos juros de prazo mais longo. Com a votação do Orçamento de Guerra no Congresso, a autoridade monetária poderá comprar títulos públicos e outros ativos para aumentar a liquidez no mercado e, com isso, reduzir as taxas de juro futuras.

Chamado de quantitative easing (QE), esse mecanismo foi usado por países ricos na saída da recessão de 2008/2009 e pode ser usado agora pelo Brasil. A maior oposição a um relaxamento monetário dessa envergadura está nos riscos inflacionários associados. Mas isso não é um dado que pode ser adiantado pelos agentes - na verdade, a inflação só viria em caso de monetização direta do gasto público, o que não é o caso com o QE, a princípio.

Para darem certo, tanto a taxa de juros reais zerada quanto o QE precisam de um compromisso do governo federal de que os gastos para superar a crise serão temporários. Esses custos serão absorvidos pelo endividamento público, que terá uma compensação parcial com a política do BC, que reduz o serviço da dívida.

É importante, portanto, uma coordenação de ações entre governo e BC, com o Congresso compreendendo que é mais importante no longo prazo permitir que os juros possam continuar baixos pelo tempo que for necessário. Isso é mais eficiente do que programas de gastos públicos que comprometam o orçamento futuro, embora seja defensável algum investimento em infraestrutura.

O risco do gasto fora do controle existe em ideias como a de transformar o auxílio de R$ 600 em uma renda universal básica, ou a de permitir o endividamento de estados e municípios fora dos limites estipulados em lei. Seus efeitos colaterais serão sentidos imediatamente com a limitação da ação do Banco Central.

Essa coordenação depende do comportamento do mundo político, que parece não entender como é importante dar velocidade de ação ao BC. Uma das lições aprendidas na recessão de 2008/2009 é que os BCs precisam dar um suporte de liquidez de dimensões incomuns.

Além da questão política, há um outro limitador para o BC brasileiro na taxa de câmbio. Se ela continuar se depreciando para perto do limite de R$ 7 (que seria a maior cotação da história atualizada), estaríamos entrando em um ambiente de risco elevado que não permitiria o relaxamento monetário. Nesse cenário, a autoridade monetária teria de decidir se seria o caso de interromper temporariamente o câmbio flutuante (com uma atuação mais pesada ou até controles cambiais) ou se optaria por um ajuste via elevação dos juros.

Não será um período fácil para convicções fortes sobre os limites de funcionamento do BC. O coronavírus pede uma atuação fora de tudo o que o Brasil já viveu, se não quisermos chegar ao fim do ano com uma contração de 10% do PIB.

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