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Aviões parados em aeroporto de Paris: economia espera reabertura.
Aviões parados em aeroporto de Paris: economia espera reabertura.| Foto: Thomas SAMSON / AFP

O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou na terça (14) sua nova projeção para a economia global, na qual afirma que a crise do coronavírus só é comparável à Grande Depressão de 1929. Os números para 2020 são terríveis: expectativa de contração de 3% para o mundo. E o FMI alerta que os riscos de o número piorar são grandes.

A comparação com a crise de 29 dá uma dimensão da preocupação dos economistas com a recessão provocada pela pandemia. Mas como comparar fenômenos com quase um século de distância?

Assim como a crise atual, a depressão iniciada em 1929 foi um fenômeno global. A diferença está no que se entende como global. No fim dos anos 20, o comércio internacional se concentrava no Atlântico Norte. Países periféricos contribuíam majoritariamente com matérias-primas - e a China na época não era parte importante do fluxo comercial.

Além de a economia global ser geograficamente mais restrita, ela também abrangia menos pessoas. Parte muito mais significativa da população mundial vivia no campo e estava isolada de fenômenos financeiros, industriais ou comerciais. A pobreza era uma característica muito mais marcante em países subdesenvolvidos, hoje descritos como nações emergentes.

Iniciada em uma crise financeira nos EUA, a depressão dos anos 30 abarcou a Europa Ocidental recém-saída de uma guerra que deixou feridas abertas. Não havia espaço para coordenação de políticas monetárias, fora acordos isolados, como a relação entre EUA e Reino Unido. Vários países fizeram experimentos descoordenados de entrar e sair do padrão-ouro, por exemplo. Um ponto importante é que a Alemanha lidava com dívidas de guerra e embarcou em um processo de hiperinflação, fatores que levaram à escalada militar dos anos 30.

Outra característica da depressão é que os instrumentos intelectuais para lidar com a crise eram insuficientes. Não havia trabalhos de economia empírica com a sofisticação de hoje. Na verdade, obras que moldaram a economia do século 20 foram escritas depois da depressão. Não havia keynesianismo, nem a análise seminal de Milton Friedman sobre o suprimento de dinheiro.

A crise financeira americana levou a uma depressão global porque o Fed (o banco central dos EUA) errou na condução dos juros e do suprimento de dinheiro. Muitos países foram diretamente influenciados por essa política por pretenderem manter o padrão-ouro, mesmo que ao custo de provocar mais recessão. Não havia, na época, a reação de política monetária que vimos neste ano, quando BCs do mundo todo baixaram os juros e lançaram rapidamente linhas de relaxamento quantitativo. Mesmo a visão sobre o papel do gasto público durante a depressão demorou para mudar e se transformar no New Deal. É por isso que o pior ano da depressão foi só em 1931, dois anos depois da quebra da bolsa em Nova York.

Assim, estamos em uma situação pior quanto à abrangência da crise. Por ser causada por uma doença com presença global, a recessão atual será realmente mundial, não deixando mesmo áreas isoladas intactas. Seu potencial de devolver pessoas à condição de pobreza é maior. E sua duração dependerá do progresso da ciência para criar tratamentos e vacinas.

É por isso que o FMI traçou cenários ainda mais pessimistas em seu relatório. Sua premissa inicial é que a virose terá impacto maior no primeiro semestre e que a economia começará sua retomada em seguida. É um cenário no qual vamos aprender a conviver com o vírus e só setores muito dependentes de encontros face a face continuarão fechados - companhias aéreas, empresas de turismo, hotéis, cinemas etc. seriam aqueles que demorariam mais a voltar ao normal.

Os riscos colocados corretamente pelo Fundo são de ressurgência constante de focos da doença. Teríamos uma situação de começa e para constante, em diversas partes do mundo. A imprevisibilidade faria investimentos ficarem congelados por mais tempo. Passaríamos mais meses dependendo de estímulos públicos.

Apesar dessa característica muito negativa da crise atual, temos o aprendizado de recessões anteriores a nosso favor. Bancos centrais estão dispostos a prover a liquidez necessária, inclusive no Brasil, onde o projeto de lei do Orçamento de Guerra daria mais armas ao BC. Os governos também aprenderam que precisam rapidamente dar suporte a quem perdeu renda, para evitar a disseminação da pobreza e um ciclo ainda mais forte de contração na demanda.

A tecnologia de hoje permite que essas ações sejam muito mais rápidas e eficientes, mesmo onde não há um bom preparo. O trabalho da Caixa para colocar no ar o sistema de distribuição de recurso do governo brasileiro precisa ser elogiado. Ele será capaz de bancarizar milhões de pessoas em meio a uma crise de saúde pública.

Outra diferença fundamental é que hoje, apesar da tentação isolacionista em alguns países, há muito mais coordenação internacional. No início dos anos 30, os EUA impuseram tarifas pesadas com o intuito de fazer a economia reagir. O efeito, como prega a boa ciência econômica, foi o contrário. O comércio internacional na época caiu mais de 60%. O FMI prevê recuo de 11% neste ano. Fóruns como o G20 e instituições como o próprio Fundo, embora imperfeitos, são inovações do pós-guerra que melhoram o sincronismo das ações e dão suporte a países mais pobres.

Pelas características atuais da crise, podemos dizer que seu fim é mais previsível do que nos anos 30. Sabemos que vacinas e tratamentos virão e que grande parte da atividade econômica terá condições de se adaptar com o tempo. As tecnologias de testagem podem melhorar e ficar mais baratas, ao mesmo tempo em que os sistemas atuais de comunicação permitem o trabalho remoto como nunca antes.

Passada uma primeira fase de adaptação, o novo normal por algum tempo seria a economia da maioria dos países operando por um tempo abaixo da capacidade. Se for um tempo suportável para as políticas públicas de suporte, a retomada viria progressivamente. Talvez por isso o FMI não espera uma recuperação alucinada em 2021 - teremos de conviver, na sequência, com orçamentos públicos estourados e endividamento elevado.

A comparação com a crise de 29 é importante para mostrar que, embora a situação hoje seja mais desafiadora por causa das dificuldades fora do campo da economia pura, temos muitos instrumentos a mais do que 90 anos atrás.

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