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Juros chegam a dois dígitos no Brasil, enquanto a música continua tocando nos EUA
| Foto: Pixabay

A decisão do Copom desta quarta (02) que elevou a taxa de juros em 1,5 ponto percentual para 10,75% ao ano veio dentro do esperado. As próximas reuniões terão novas altas, e a discussão agora é sobre o tamanho final do aperto monetário. O Banco Central diz que o ritmo de elevação dos juros deve ser um pouco menor, mas será mais de uma alta.

Em 2019, antes da pandemia e logo depois da aprovação da reforma da Previdência, o Brasil parecia ter se tornado um país mais normal. Havia a tese de que os juros estavam estruturalmente mais baixos. Isso parece ter ficado para o futuro - já estamos com juros reais um pouco acima de 5% para ancorar as expectativas de inflação para o ano que vem.

Janeiro foi um mês estranho. O real se valorizou bem e bolsa subiu, ambos refletindo uma realocação de dinheiro no mercado internacional. Os investidores estão aproveitando oportunidades fora dos mercados de juros abaixo de zero - e o Brasil foi beneficiado por já estar com o ajuste monetário em andamento. Mais alguns meses nesse ritmo e talvez o BC por aqui pudesse contar com a normalização do câmbio para segurar a inflação.

Mas a questão é que essa melhora de janeiro acontece na iminência de uma mudança de rumo na política monetária dos Estados Unidos. Por isso foi estranho. A música por lá continua tocando, com estímulos monetários ainda ligados em ritmo de pandemia.

Esse negócio da música é a analogia que o pessoal do mercado faz com um baile. Está chegando ao fim, tem muita gente bêbada pelos cantos, alguns já foram embora, mas tem gente dançando. E a dança no momento é a expectativa de que o Fed, o banco central dos EUA, vai precisar de um tiquinho de juros para controlar a inflação.

Para ficar na mesma analogia da festa, o principal colunista de economia do Financial Times, Martin Wolf, escreveu nesta semana que o Fed nem começou a tirar o ponche de alto teor alcoólico da sala - lembrando o ensinamento de 1955 do então presidente do Fed, William McChesney Martin, de que o banco central está na posição da tia que manda tirar a tigela do ponche quando a festa começa a esquentar.

Segundo Wolf, há muitos sinais de aquecimento na economia americana, com o consumo já em níveis pré-pandemia, desemprego baixo e salários em alta. A inflação já transbordou de itens transitórios, como energia, e afeta os preços de maneira bastante disseminada. E, para controlar os preços, o mercado acredita que os juros reais podem continuar negativos. Pouco provável, na realidade.

Para o Brasil, uma alta de juros nos Estados Unidos além do que já está nos preços, pode significar uma pressão extra sobre o câmbio. Isso exatamente em um ano eleitoral, que historicamente faz com que o dólar fique pressionado pela maior incerteza de como será o próximo governo. Ao mesmo tempo, uma ação mais enérgica do Fed faria os preços das commodities caírem, o que em parte compensaria uma pressão sobre o câmbio. O balanço desses fatores é difícil de prever.

O Brasil já passou por apertos monetários americanos de formas diversas. Foi abalado no início dos anos 2000 (exatamente em um período eleitoral) e passou bem pelo aperto pré-crise de 2008. Neste momento, temos a vantagem de o BC já estar com o ciclo de aumento dos juros bem encaminhado. Se não houver surpresas negativas vindas da inflação nos próximos meses, o país tem chance de suportar a tensão caso o Fed decida que a festa acabou para valer.

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