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Paulo Guedes pode ter criado seu “momento marolinha”
| Foto: Edu Andrade/AscomME

A forma como o ministro da Economia, Paulo Guedes, encarou o resultado do PIB de 2019 e a instabilidade gerada pelo coronavírus veio fora do tom do momento econômico que atravessamos.

Primeiro, é fato que o desempenho do PIB de 2019 foi abaixo do esperado por diversos motivos, inclusive alguns controlados pelo governo. E o que pode se esperar de 2020 é bastante dificuldade diante do desafio de uma desaceleração global. O crescimento de mais de 2% neste ano está sumindo rapidamente do radar de quem acompanha a economia brasileira.

A postura de Guedes encontra paralelo na "marolinha" avistada pelo ex-presidente Lula em 2008 e que se transformou em uma recessão em 2009. Se há uma lição que deveria ser tirada do ano passado é a de que o Brasil não está em situação de minimizar acontecimentos que abalem sua frágil recuperação econômica.

Em 2019, a expectativa era de crescimento acima de 2%. No início do ano, parecia até que poderíamos andar mais rápido do que isso, caso as reformas andassem bem no Congresso. No fim, uma sucessão de problemas derrubou as expectativas ao longo do ano.

Claro que coisas como o colapso da barragem de Brumadinho, a guerra comercial entre China e EUA, além das eleições na Argentina, não estão sob controle do governo. Mas é alcançável fazer as reformas, manter a estabilidade econômica e melhorar o ambiente de negócios.

Essa agenda interna demorou para engrenar no ano passado e ainda não está completamente encaminhada. A aprovação da reforma da Previdência cumpriu seu papel de melhorar as perspectivas para as contas públicas e colaborar para redução dos juros. Mas, sozinha, não será capaz de sustentar o crescimento sustentável.

Sem o impacto do coronavírus, parecia muito provável um cenário com a economia em aceleração gradual para superar os 2% - considerando-se a possibilidade de pelo menos a PEC Emergencial ser aprovada e a reforma administrativa encaminhada ao Congresso ainda no primeiro trimestre. Aos poucos, está ficando mais claro que a desaceleração provocada pela virose será mais longa e abrangente do que se imaginava. Por isso, uma pauta morna de reformas e algumas privatizações pode não ser suficiente para se evitar mais um ano de crescimento muito ruim.

Embora a economia brasileira seja fechada, Guedes já tem razões para demonstrar mais preocupação e procurar afirmar que seu ministério vai lidar com situações concretas, como uma possível necessidade de mais recursos para a saúde e o suporte a negócios mais expostos à parada provocada pelo coronavírus. Setores como aviação, turismo e de fabricação de eletrônicos podem sofrer durante meses até a normalização dos fluxos internacionais de insumos e passageiros. Nesta sexta, as montadores divulgaram que terão de parar linhas de produção se os fluxos comerciais não se normalizarem.

A margem fiscal no Brasil para qualquer ação de suporte econômico é muito pequena, mas pode ser construída com apoio do Congresso, em caso de uma desaceleração global mais persistente. Não é possível descartar que a política fiscal terá de mudar temporariamente para lidar com os efeitos do vírus.

Na última semana, o Banco Central divulgou comunicado em que diz estar monitorando os efeitos do coronavírus, dando a entender que poderá baixar os juros no encontro do Copom do dia 18. No mercado, porém, esse movimento parece cada vez mais improvável (ou arriscado) diante da desvalorização do real, que tem impacto inflacionário. O BC, portanto, está em uma situação desconfortável e pode ter de aumentar sua atuação no câmbio para reduzir os juros.

O cenário melhoraria, por exemplo, com a combinação de mais um sinal fiscal de longo prazo, como a aprovação célere da reforma administrativa (promessa ainda não encaminhada pelo governo ao Congresso), com o relaxamento dos juros, além de ações pontuais (como a garantia de financiamento para a saúde em caso de uma epidemia). Na melhor das hipóteses, em que o coronavírus seria rapidamente controlado, não teríamos nada a perder com um movimento nessa direção.

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