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Petróleo grátis é sinal do estrago que o coronavírus está causando na economia
| Foto: Frederic J. BROWN / AFP

Se você quisesse um barril de petróleo, hoje era o dia de ganhar um de graça. Mais do que isso, você poderia até tirar um troco para levar o petróleo embora. Desde que você aceitasse pegar esse barril em maio.

O mundo viu mais um fenômeno estranho trazido pela crise. Contratos futuros de petróleo nos EUA caíram mais de 100% nesta segunda (20) e entraram no campo negativo pela primeira vez na história.

Investidores e fundos tentavam se livrar desses contratos com vencimento em maio porque existe uma situação enorme de descasamento entre oferta e demanda. O consumo global de óleo caiu 30% e o acordo entre países produtores veio muito tarde e, segundo analistas, é pouco (o comportamento da Arábia Saudita, diga-se, colaborou de forma decisiva para o colapso atual nos preços).

A oferta de petróleo está em um descompasso tal que o mercado não sabe onde estocá-lo. Por isso, o valor negativo nos contratos. E não é um problema exclusivo do mercado americano de futuros. Há relatos de petroleiros sendo usados como reservatórios. No México, há dificuldades para estocar a gasolina excedente.

O petróleo grátis é uma anomalia que prenuncia um longo período de preços baixos, mesmo com a atuação dos países produtores. O efeito será o adiamento de novos projetos de produção por anos, fechamento de empresas e demissões em um setor que vinha bem nos últimos anos.

E é uma anomalia que prenuncia o tamanho da recessão global que atravessamos. Preços de energia, em especial petróleo, são muito sensíveis a ciclos econômicos. Conforme o tempo passa e se entende melhor os efeitos de médio prazo do coronavírus, fica claro que as coisas não serão como antes por meses, talvez anos. Companhias aéreas, para ficar em um exemplo ligado ao preço do petróleo, estão se preparando para dois ou três anos de dor.

Infelizmente, para quase ninguém neste momento faz sentido comprar contratos de petróleo a preço de banana para fazer estoque. Não é uma oportunidade real. Normalmente consumidores achariam interessante uma liquidação desse tipo. Em depressões econômicas, não é assim.

Os preços do petróleo no mercado americano para junho continuam na faixa dos US$ 20, menos da metade do nível pré-crise. Dependendo do tipo de óleo, é menos do que isso. Para a Petrobras, esse é um sinal de problema. A empresa se organizou para se dedicar à produção de petróleo, investiu em campos no fim do ano passado e agora terá de lidar com preços baixos por um período indefinido.

Para o Brasil, a dificuldade está em duas frentes. Primeiro, é improvável que novos campos do pré-sal possam ser leiloados neste ano. Talvez não sejam viáveis antes de 2022 ou 2023. Isso reduz a receita não recorrente, que salvou o governo nos últimos anos. E o preço baixo reduz a receita com impostos e participações especiais. Estados e municípios produtores devem se preocupar com isso.

A única vantagem é que os consumidores aqui verão os preços da gasolina e do diesel baixos por enquanto. Nem isso, no entanto, é uma notícia 100% boa. A cadeia de produção do etanol já reclama de dificuldades com a safra que começa. É um dos setores do agronegócio que vão ver ganhos em queda nesta recessão.

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