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Guilherme Fiuza

Guilherme Fiuza

Crise de credibilidade

A autodestruição da imprensa

A imprensa perdeu credibilidade ao se afastar dos fatos e flertar com narrativas; hoje colhe a desconfiança que ajudou a construir. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Os brasileiros confiam mais em mensagem de WhatsApp do que em matéria de jornal. Parabéns, imprensa! Você conseguiu. Ou, dito de forma mais completa: você conseguiu se autodestruir.

A imprensa do Watergate, do Pedro Collor, do Roberto Jefferson, do Vietnã, da Lava Jato e de tantos outros momentos cruciais na história do Brasil e do mundo faliu. A derrubada de Nixon, a queda de Collor, o mensalão, o tormento militar norte-americano na Ásia e o aluguel do Estado brasileiro a um cartel de empreiteiras estão agora na pré-história da mídia.

A tragédia foi constatada em pesquisa do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR e do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. Quase metade dos usuários de internet no Brasil (48%) desconfia mais de informações procedentes de veículos jornalísticos do que das vindas de aplicativos de mensagens (42%). O percentual dos que desconfiam mais de conteúdos postados em redes sociais por amigos ou familiares (39%) também é inferior ao dos que desconfiam mais da imprensa.

As obras completas da desmoralização dos veículos de comunicação estão concentradas em um período relativamente curto. Se olharmos para o passado recente, constataremos que, até o escândalo do petrolão — apenas uma década atrás —, a mídia brasileira tinha um comportamento razoável.

A totalidade dos veículos considerados referência da grande imprensa mergulhou nos fatos revelados pela operação Lava Jato, seguindo uma conduta essencialmente jornalística — ou seja, sem o vício de enviesar a cobertura para a propaganda política ou ideológica.

O pós-impeachment de Dilma Rousseff coincidiu com o início da degeneração explícita da imprensa brasileira. Alguns veículos importantes se jogaram, a partir de então, em uma sanha conspiratória, agindo ostensivamente para desestabilizar um período de recuperação institucional no país.

Entre 2016 e 2018, boa parte da grande imprensa mergulhou em uma campanha fantasiada de jornalismo, tentando empurrar para o público a noção de que o poder central tinha caído nas mãos de uma quadrilha — o que é absolutamente desmentido pelos indicadores públicos de reconstrução nacional do período.

Não dá para associar esse movimento exclusivamente a alguma espécie de manipulação petista, porque, no mundo, verificava-se fenômeno parecido. A imprensa tentou, de todas as formas, caricaturar a ascensão de Donald Trump nos EUA, relacionando-a a uma espécie de falsificação da democracia.

Histórias foram fabricadas e exaustivamente disseminadas pela grande mídia, como a tese de que a eleição de 2016 para a Casa Branca foi manipulada pelo grupo de Trump em conluio com a Rússia — algo jamais provado, mas noticiado como verdade durante anos.

O período da pandemia, logo em seguida, representou o auge da degeneração da imprensa. Veículos seculares passaram a bombardear o público com premissas frequentemente desconectadas dos fatos — e conectadas a diretrizes obscuras de controle, como restou demonstrado em trabalhos sólidos, como as diligências lideradas pelo senador Rand Paul no Congresso dos EUA. A prática de manipulação da circulação de informações acabou sendo confessada por gestores das big techs perante o parlamento norte-americano.

Infelizmente, o pretexto da agenda “woke”, um instrumento reacionário fantasiado de despertar humanitário, foi servindo de lastro para o transformismo da imprensa

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Por meio do famigerado conceito de “checagem”, veículos tradicionais se juntaram a “agências” com credenciais julgadoras autoconcedidas para perseguir e estigmatizar a livre circulação de informações e opiniões nas redes — que, em boa medida, tentavam justamente contrastar o papel distorcido da grande mídia.

Os absurdos perpetrados pelo jornalismo foram se avolumando, trazendo quase para a normalidade fraudes graves, como a manipulação admitida pela BBC sobre um discurso de Trump, às vésperas da eleição presidencial de 2024. É um fato emblemático, envolvendo uma das mais tradicionais emissoras do mundo em uma manobra sórdida contra a própria democracia.

O que a pesquisa brasileira constata não pode, portanto, surpreender ninguém. Foi a própria imprensa que cavou, ostensivamente, a sua desmoralização.

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