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Presidente da Rússia, Vladimir Putin
Presidente da Rússia, Vladimir Putin| Foto: Sergei Ilnitsky/EFE

Se tudo tivesse corrido como o Kremlin esperava, a essa altura dos acontecimentos a Ucrânia já estaria prostrada e subjugada. A mobilização militar que precedeu o ataque russo reuniu um contingente de dezenas de milhares de soldados e veículos bélicos. O objetivo era chegar a Kiev o mais rápido possível, depor o governo democraticamente eleito e, mediante o domínio aéreo e territorial, impor um acordo que beneficiasse exclusivamente o intento expansionista de Moscou. Fica claro agora que se subestimou a capacidade de resistência dos ucranianos. Os avanços obtidos até aqui foram tímidos. A blitzkrieg de Vladimir Putin fracassou, e isso poderá determinar o rumo da guerra, que caminha para um resultado bastante diferente daquele que o ex-espião da KGB projetava.

Se Kiev tivesse caído em 36 horas, a Ucrânia como se conhece hoje já não existiria mais. O país se converteria num Estado fantoche, controlado por um lugar-tenente que respondesse às diretrizes da Rússia. Seria uma nova República de Vichy. Ou, para ficar com um exemplo mais próximo, uma nova Bielorrúsia. A neutralidade em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) valeria como cassação permanente do direito à autoderminação da Ucrânia, que, assim como as demais nações do antigo bloco soviético, vem passando por incontestável processo de ocidentalização.

Sim, Putin ainda pode prevalecer pelas armas. Continua sendo o cenário mais provável. Mas o custo já o torna um derrotado. A demora em dominar um país com defesas frágeis e com menor aparato tecnológico evidenciou que o grande exército que ele controla tem deficiências e fragilidades. A cada dia de incursão no território estrangeiro vão se contabilizando prejuízos materiais e humanos. O fluxo de caixões sendo enviados de volta para a Rússia tende a aumentar a pressão interna contra política do governo. E, apesar de Putin e seus lacaios manterem a oposição permanentemente asfixiada, fica cada vez mais difícil estancar o descontentamento de parte de sua população, que já toma as ruas em manifestações contra a guerra.

A demora da Ucrânia em capitular ante a ação de uma superpotência nuclear acabou ajudando o Ocidente a encontrar um rumo. Antes vacilantes dos tipos de retaliações a que recorreriam, países como Estados Unidos, França, Alemanha e Grã-Bretanha, bem como demais integrantes da OTAN e da União Europeia, acabaram montando o maior conjunto de sanções econômicas da história moderna. Além do Banco Central Russo, os alvos envolvem a elite financeira e econômica da Rússia. Os barões bilionários que, junto com antigos operadores e dirigentes soviéticos, controlam o simulacro de democracia que se erigiu das ruínas do comunismo.

Só na última segunda-feira (28/02), o rublo desvalorizou 30%. A taxa de juros da Rússia precisou ser elevada de 9,5% para 20%. Tudo isso numa vã esperança de amortizar o impacto das restrições globais que tendem a destruir as fontes de financiamento do país. As sanções alcançaram tal dimensão que Putin chegou a colocar em alerta o seu sistema de mísseis balísticos, responsável por deslocar o arsenal nuclear. Tentou forçar uma escalada de conflito que, até o momento, não foi seguida pelas potências ocidentais.

Depois da incursão na Geórgia e da anexação da Criméia, o projeto expansionista do Kremlin voltou suas atenções para a Ucrânia. Mas dessa vez a resistência se mostrou vigorosa. Parece claro que para alcançar seu objetivo no país, Putin terá de usar um poder de fogo ainda maior. As consequências de tal ato, entretanto, tendem a ser profundas para a Rússia. No fim das contas, o tão sonhado novo império Czarista poderá se adonar de um monte de escombros e ficar com uma devastação social sem precedentes.

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