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As últimas pesquisas eleitorais evidenciam o que pode ser uma surpresa na disputa presidencial de 2026. Augusto Cury, o rei da autoajuda na literatura de revistaria, despontou para a 3ª colocação, atrás, obviamente, de Lula e Flávio Bolsonaro. O candidato parece encontrar espaço entre o eleitor cansado da mesmice da polarização, mas que também rejeita figurões tradicionais, como Caiado, ou o discurso agressivo de um tipo como Renan Santos. Augusto Cury encanta com um discurso açucarado.
Nos levantamentos da BTG/Nexus e AtlasIntel/Bloomberg, ele aparece com 11% e 7,8%, respectivamente. A arrancada coincide com sua forte exposição na Band e, depois, na Globo. Os números relativos a essa descoberta dos eleitores ficam cristalizados quando se analisam dados acessórios. Nos dias que se seguiram ao debate, suas redes cresceram fortemente. No Instagram, o salto foi de 8,34 milhões para 10,7 milhões. Foi também o candidato que mais movimentou o Google, com um crescimento de 900% nas buscas por seu nome na semana seguinte ao programa. A explosão do interesse resultou nos indicadores das pesquisas, que podem ser retrato do momento ou tendência.
Fato é que Cury, como qualquer autor bem-sucedido, encontrou um nicho a ser explorado. O receituário narrativo aplicado por ele é o clássico das redes sociais entupidas de filosofia de boteco. Planos genéricos, soluções “fora da caixa” e o mindset pretensioso de quem vende ideias rasas como se fossem o suprassumo disruptivo. A política tradicional, com suas limitações, conflitos e negociações, dá lugar à promessa de que problemas extraordinariamente complexos podem ser resolvidos por ideias extraordinariamente simples — desde que apresentadas como extraordinariamente novas.
Cury é diferente de Marçal em quase tudo que está na superfície.
Verdade seja dita, isso não é fenômeno recente. Pablo Marçal testou o método com espantosa assertividade na eleição municipal de 2024. Juntou o repertório de coach com o radicalismo ideológico e o entregou ao eleitor frustrado com o status quo político. Vandalizou o processo político com desenvoltura e quase foi para o segundo turno. Sua fórmula combinava antipolítica, agressividade e a autoridade autoproclamada de quem havia vencido fora dela e, justamente por isso, dizia saber como consertá-la.
Cury é diferente de Marçal em quase tudo que está na superfície. Onde o coach oferecia confronto, o escritor oferece conciliação. Mas os dois partem de um expediente semelhante: convertem a autoridade adquirida no mercado da autoajuda em credencial para a política e oferecem ao eleitor soluções simples, embaladas como pensamento original. É repertório de Chat GPT.
Novo na política, mas pioneiro nesse tipo de autoajuda transformada em produto cultural de massa, Cury parece ter percebido que havia espaço para adaptar o método. Marçal vendia ruptura pela raiva. Cury tenta vender ruptura pelo afeto.
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Se é retrato do momento ou tendência, só as próximas pesquisas responderão. Mas a embalagem não deve esconder o método. No fundo da grossa camada de açúcar com que Cury revestiu seu discurso, ainda é possível sentir o gosto de Pablo Marçal.

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



