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Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Eleição

Flávio e Lula disputam o campeonato das bondades, e da irresponsabilidade fiscal

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Em ato de campanha, Flávio Bolsonaro diz que pretende governar com amor para todos. (Foto: André Borges/EFE)

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O Mercado, essa entidade que de invisível só tem a mão, nunca escondeu sua preferência política. Cerrou fileiras com Flávio Bolsonaro, ainda que o pai deste tenha sido o responsável pela desmoralização da Lei do Teto de Gastos ao furá-la reiteradamente para tentar se reeleger. Seria prudente, portanto, guardar algum ceticismo quanto à adesão do filho à agenda da responsabilidade das contas públicas. Mas o antipetismo move montanhas, e se Lula está do outro lado, então as garantias estão dispensadas.

Não se pode, por óbvio, acusar Lula de incoerente. Ele acredita no papel de um Estado provedor. Um Estado poderoso o suficiente para induzir, estimular, e, sendo necessário, até “salvar” a economia de si mesma. É um entusiasta do desenvolvimentismo, da multiplicação do crédito, do consumo artificial mediante emissão de moeda. Acha que juros são escolha e que basta o país crescer para que as receitas provenientes amortizem os gastos crescentes. É a receita já conhecida do voo de galinha intercalado pela recessão.

E qual é a alternativa proposta por Flávio? Por óbvio, com a adesão de economistas ditos liberais, seria a de uma agenda econômica pautada pela prevalência de soluções de mercado, com redução da participação do Estado no dia a dia do sistema financeiro e do capital produtivo. Um Estado menos burocrático, centralizador e criador de despesas. Mas não parece haver convicção na adoção desse ideário, pelo menos não de forma enfática. Ao contrário, ele não parece se comprometer com nada que seja minimamente concreto.

Até aqui, Flávio se limitou a reduzir o tal ajuste fiscal a imagem de uma tesoura (na verdade um tesouraço), que passaria por despesas orçamentárias genéricas podando excessos como se fossem inços crescendo na grama. Ele não se dá ao trabalho de descrever como isso seria feito. Talvez com o receio de perder votos.

Há consenso de que a maior parte dos gastos públicos estão concentrados em dois tipos de despesas. As tributárias (os famosos benefícios fiscais) e as sociais (previdência e programas públicos). É necessário escolher. O que não dá pra fazer é prometer um ajuste multibilionário, que poderia chegar a 2% do Produto Interno Bruto, e ao mesmo tempo, em linha contrária, dizer que manterá benefícios e programas, além de criar outros.

No debate da Band, Flávio anunciou que seu governo compraria dívidas bancárias. Depois de se reunir com cantores sertanejos, também afirmou que recriaria o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), um controverso sistema de incentivos que custou, entre 2021 e 2025, nada menos que R$ 50 bilhões e que foi encerrado em meio a denúncias de desvios.

O segundo turno da eleição presidencial virou um campeonato de bondades entre os candidatos do PT e do PL. Os anúncios de Lula contabilizam despesas de centenas de bilhões. As de Flávio também já se avolumam a perder de vista. A linha de Lula já está definida. A de Flávio parece incerta. O que se sabe é que não dá pra compatibilizar as ideias econômicas de um Adolfo Sachsida com as de Mangabeira Unger. Alguém acabará traído. Não é possível, afinal, servir a dois senhores. O risco, nada desprezível, é que os tais agentes econômicos engajados estejam sendo guiados para um estelionato fiscal.

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