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Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Impunidade e revolta

O cão Orelha, a psicopatia e o Tribunal das Ruas

Orelha, cão mascote da Praia Brava (Florianópolis), morreu em 5 de janeiro de 2026 após sofrer maus-tratos por adolescentes e precisou ser submetido à eutanásia. (Foto: 110280Andre/Wikimedia Commons)

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Não há nada, nesse caso do cão “Orelha”, que possa ser classificado como menos que bárbaro e hediondo. A começar, obviamente, pela conduta dos responsáveis por perpetrar tamanho ato de violência contra uma criaturinha dócil e indefesa.

Os estudos sobre a mente humana fornecem farta literatura sobre como psicopatas absolutos começam a agir. Inibidos de qualquer traço de empatia, exercitam seus devaneios sanguinolentos numa escalada que começa já na infância, provocando machucados em irmãos, amigos e animais e que, não raramente, termina com a prática reiterada de assassinatos.

De modo que a tortura infligida ao cão não era apenas uma versão distorcida e depravada do que o referido grupo devia imaginar ser “diversão”, mas parte de um processo de formação antissocial, despido de valores humanísticos. Monstrinhos ganhando coragem para se afundarem ainda mais na própria perversidade. Hoje enfiando um prego na cabeça de um animal, amanhã na de uma mulher andando pela rua.

O modo como a lei brasileira lida com essa problemática obriga a uma reflexão profunda sobre a capacidade de o Estado oferecer respostas e garantias de segurança aos seus cidadãos.

A falta de certeza — ou, até mais grave do que isso, a certeza de que nada acontecerá — move a sociedade não apenas para a desconfiança, a incredulidade e o descrédito, mas para o puro desejo de vingança

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A ideia perigosa de justiça com as próprias mãos, que, sabemos, não apenas é a antítese da justiça como acaba, e a história mostra isso, se traduzindo na institucionalização de uma outra psicopatia, só que coletiva.

Os indícios de tal fenômeno se evidenciam na reação ao episódio. É claro que a revolta é natural. Um dos traços mais elevados da humanidade é exatamente o de humanizar outras espécies, principalmente as domésticas. Mas não apenas. Gatos, cachorros e outros animais que residem em nossos lares são tidos como membros de nossas famílias. Por isso, Orelha não é apenas um cachorro de praia; ele é, de certa forma, o nosso cachorro.

Pela lei existente, é improvável que algo de grave ou mesmo exemplar recaia sobre os responsáveis pela violência. Não apenas porque são menores de idade, mas também pelo status dos animais em relação aos seres humanos. O casuísmo político vai aproveitar a consternação para vender suas pautas. Muitas notas e vídeos estão sendo publicados, mas dificilmente algo estrutural será constituído. E daí sobreresta o niilismo.

O risco adicional dessa tragédia é que dela outra surja. Daí alguém, sempre de forma supostamente virtuosa, aparecendo para fazer o que acha que deveria ser o certo em relação aos que cometeram a maldade contra o animal. Desde que o fato se tornou notório, os moleques violentos e suas famílias foram expostos nas redes, centenas de ameaças foram feitas, e há uma campanha de linchamento virtual em curso.

Não é incomum desviarmos do caminho difícil e correto para tomar o atalho da resposta fácil e errada. Uma injustiça cometida pelo processo legal nunca será pior do que um justiçamento executado pelo tribunal das ruas — ou das redes sociais.

Não é difícil que essa onda se converta numa ação efetiva, talvez com um cidadão qualquer enfiando um prego na cabeça de um dos autores (ou, pior, de alguém confundido com o autor), a título, por óbvio, de lhe dar uma lição. Terá o aplauso de muitos. Como se isso fosse tornar o país melhor. Não torna. Apenas aprofunda o buraco civilizatório.

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