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Uma parte da direita chamada de “não bolsonarista” parece afiançar suas expectativas eleitorais no derretimento de Flávio Bolsonaro e na consolidação da percepção de que, uma vez no segundo turno com Lula, fatalmente este perderá para o petista. O cálculo político de Gilberto Kassab, presidente do PSD, foi esse ao escolher Ronaldo Caiado como presidenciável em detrimento de Eduardo Leite. Apresentar ao eleitorado antipetista alguém suficientemente de direita a ponto de acolher uma massa de votos órfãos caso o pré-candidato do PL fosse inviabilizado por denúncias ou acabasse desistindo da disputa.
Os desgastes recentes de Flávio, principalmente condicionados ao seu envolvimento com Daniel Vorcaro e o rompimento público com Michelle Bolsonaro e implosão do PL reacenderam essa esperança. Caiado, que é um dos políticos mais tradicionais do país, já desenhou sua estratégia. Ao contrário de Romeu Zema, que tratou de implodir pontes tão logo o site The Intercept publicou o teor das conversas do filho 01 com o banqueiro do Banco Master, Caiado se pautou pela prudência, aguardando o transcurso dos acontecimentos.
Até aqui, entretanto, Flávio tem se mostrado inequivocamente resiliente ante o acúmulo de desgastes. Outro nome talvez não tivesse resistido
Ao invés de atacar diretamente Flávio, Caiado aposta no discurso de que ele é o caminho mais curto para a reeleição de Lula. “Quem é o candidato que o Lula mais deseja no segundo turno? Todo mundo sabe. Exatamente o Flávio. Porque ele sabe da fragilidade do Flávio. Sabe o quanto pode levar adiante esses pontos que podem fragiliza-lo ainda mais”, disse em entrevista para a jornalista Vitória Fernandes, da Rádio Bandeirantes de Porto Alegre.
A última pesquisa Real Time Big Data dá base para a estratégia de Caiado. Segundo a pesquisa (contratada pelo próprio instituto e que ouviu 2.000 pessoas nos dias 18 e 20 de julho, com nível de confiança de 95%, margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos e registro no TSE nº BR-09247/2026), 67% dos eleitores de Flávio afirmaram que poderiam mudar de voto para evitar a reeleição de Lula.
No mesmo levantamento, Caiado é apontado como o favorito para herdar esses votos, caso Flávio fique de fora. 25% dos entrevistados que votam no pré-candidato do PL o citam como alternativa. A linha é evidente: explorar a desconfiança de que a pretensão do filho de Jair tornou-se eleitoralmente inexequível.
Até aqui, entretanto, Flávio tem se mostrado inequivocamente resiliente ante o acúmulo de desgastes. Outro nome talvez não tivesse resistido. Flávio é candidato, como já escrevi em outras oportunidades, menos pelo objetivo de bater o PT e Lula, e mais em nome da prevalência da família Bolsonaro dentro do campo da direta. Conserva um piso de votos alto, o que lhe franqueia, segundo a pesquisa Real Time Big Data citada, vaga no segundo turno com o atual presidente. E não parece disposto a desistir. Afinal, o faria em nome de quem? De Caiado? É uma hipótese risível.
Resta aos demais concorrentes torcer por um fato novo, ou tentar convencer o eleitorado de que são mais viáveis, ainda que, no primeiro turno, corram muito atrás. Flávio nunca esteve tão fragilizado, mas ainda está longe de ser inviável.

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



