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Dizem que um conservador nada mais é que um esquerdista que foi assaltado. Da mesma forma, pode-se dizer que um conservador nada mais é que um libertário que levou um soco de um nóia.
Essas frases indicam que idealismo é bonito, mas não costuma resistir ao trauma do encontro com a dureza da realidade. A deontologia (os princípios) do libertarianismo é válida; o problema é que, quando a colocamos para marchar na realidade, vemos que no meio do caminho sempre tem uma pedra (de crack).
Ao observar a experiência de determinadas políticas públicas do Ocidente nos últimos anos, nota-se que o libertarianismo padece de uma profunda crise intelectual. Governos têm adotado medidas consentâneas com princípios libertários – legalização das drogas, migração sem controle, permissividade a jogos de azar –, e isso tem causado uma série de consequências não-intencionais indesejáveis.
Assim como fez com a esquerda há algumas décadas, parece que a realidade resolveu minar algumas convicções básicas do libertarianismo. A ideia fundamental do libertarianismo é excelente e parece irrefutável: deve-se defender a liberdade individual acima de tudo, e cada indivíduo é livre para viver como quiser desde que não inicie agressão contra outros indivíduos. Assim no papel, sem a inclemência das injunções da realidade, o princípio parecia realmente perfeito.
A deontologia (os princípios) do libertarianismo é válida; o problema é que, quando a colocamos para marchar na realidade, vemos que no meio do caminho sempre tem uma pedra (de crack)
Mas daí você vê a aplicação na prática, e a coisa é mais complicada, porque muitas políticas baseadas no princípio libertário têm consequências indesejáveis que são difíceis de gerenciar. Por exemplo: é simples reconhecer que um adulto deveria poder ingerir ou injetar-se do que quer que seja; se o álcool é permitido, por que não as drogas?
O princípio do “meu corpo, minhas regras” faz pleno sentido lógico e moral. Mas nas trilhas tortuosas da realidade, essa lógica nos leva ao cracudo dormindo na porta da sua casa. Isso não necessariamente invalida a moralidade da deontologia libertária, mas ao menos revela o seu aspecto trágico – e a necessidade que o libertarianismo tem de aprimorar as suas posições diante dessas lições da realidade.
O mesmo vale para uma série de outras políticas, como por exemplo a legalização de apostas e jogos de azar. É evidente que, por princípio, o adulto é livre para usar o seu dinheiro como quiser; mas também é evidente que filhos sofrem, e famílias tornam-se desamparadas, por conta do vício nesse tipo de atividade. Novamente, isso não invalida o princípio, mas o empírico precisa informar o deontológico (o princípio). Do contrário, está-se diante de um dogma, de um apego irracional a princípios (de uma deontologite), e não de uma filosofia que se propõe racional.
Outro exemplo é a política de “open borders” (fronteiras abertas), que propugna pela livre-movimentação de pessoas por fronteiras entre países. O libertário é alérgico a qualquer medida que trate pessoas como grupos, então o controle deveria ser baseado no indivíduo (como, por exemplo, verificando-se os antecedentes criminais). Mas isso também é de certa forma um idealismo, uma ilusão, porque muitos países subdesenvolvidos têm péssimo registro do histórico penal de seus cidadãos (se é que têm sistema penal que realmente puna as pessoas).
Apenas o controle coletivo – por exemplo, via proibição de migração de determinados países, religião ou cultura – poderia ter alguma eficácia, mas isso é anátema para libertários. E daí tem-se o que ocorre hoje em muitos países da Europa, países em risco de sobrevivência no longo prazo, que aceitaram migração de culturas completamente antitéticas à cultura local delicadamente construída durante séculos.
Por fim, o mesmo problema tem-se visto na área de geopolítica, em que muitos libertários têm defendido uma postura irracionalmente isolacionista. Recentemente o Paulo Fuchs, empresário e apresentador do podcast Tapa da Mão Invisível, publicou uma excelente crítica sobre uma possível “falha estrutural do libertarianismo” no que se refere à política externa.
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Identificando qualquer guerra como causadora de inchaço do estado e aumento de gastos, muitos libertários – como Dave Smith, Tom Woods, Scott Horton – têm-se posicionado dogmaticamente contra as recentes ações dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio. (Muitos libertários têm cruzado a linha e adotado posturas abertamente antissemitas, divulgando influenciadores como Darryl Cooper que, dentre outras barbaridades, já sugeriu que os nazistas mataram judeus não porque queriam, mas porque planejaram mal e não conseguiram tomar conta dos prisioneiros. Mas isso é outro assunto).
Na visão libertária da geopolítica, assim, o Irã teria direito a obter armas nucleares como qualquer país, e Estados Unidos e Israel agem imoralmente ao tentar impedi-lo.
Paulo Fuchs então pergunta: “Países que abertamente financiam terrorismo devem ter armas nucleares? Terroristas devem ter armas nucleares? A presunção de que não utilizariam armas do tipo porque isso colocaria eles mesmos em risco presume sempre atores com um senso de racionalidade e apego à vida maior que do que afiliações fundamentalistas. E aí jaz, ao meu ver, o ponto cego do não intervencionismo absoluto: presume que todos os atores internacionais respondem aos mesmos incentivos de autopreservação”.
Israel apenas poderia se defender no caso de um ataque ou iminência de ataque, o que significaria ter de esperar para que o Irã obtenha a bomba atômica. Considerando-se toda a retórica anti-Israel do Irã, e considerando-se que eles apoiam grupos que buscam destruir Israel (como o Hamas), é evidente que isso seria uma completa insanidade.
Assim como é uma insanidade o crack nas ruas, a migração sem controle, e muitas outras aplicações práticas da deontologia libertária.
O libertarianismo parece aprender muito pouco com essas consequências empíricas de seus princípios. Por isso digo que se trata mais de uma crise “intelectual” do que de uma crise propriamente das políticas públicas. É preciso teorizar e reintegrar os princípios do libertarianismo diante dessas consequências não-intencionais, abandonando a deontologite (o hiperfoco patológico na aplicação dogmática dos seus princípios) e entendendo que as consequências devem sempre informar os seus princípios.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








