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Gustavo Maultasch

Gustavo Maultasch

Esquerda

A atualidade do neocomunismo de Dirceu

José Dirceu
Ex-ministro ainda citou que vitória do filho do presidente levaria ao "fim da nossa soberania e independência". (Foto: Joedson Alves/EFE)

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Ser de esquerda significa, dentre outras coisas, deixar a vida ser dominada pela política. Não à toa, “tudo é política” consiste não apenas em um slogan, como também em um dos princípios fundadores do progressismo. Se o objetivo da Criação é a realização da utopia socialista, então todos os aspectos da vida devem ser guiados por esse parâmetro; e é por isso que o fanático esquerdista adora dizer que qualquer coisa é um “ato político”. São totalitários, e a totalidade da sua vida deve ser dominada pela política.

Foi talvez com esse espírito, assim, que José Dirceu resolveu fazer comício em sua festa de aniversário. Mas olha que não é só político profissional que faz isso não; eu já vi isso antes. Já estive em festa em que o aniversariante, ao abrir o discurso de agradecimento, achou por bem lançar um “primeiramente fora Temer!”. Imagino que o leitor tenha testemunhado situações parecidas. Diria que é quase impossível morar no Brasil e não ser exposto, com frequência, à ideologia que os progressistas insistem em contrabandear para toda e qualquer situação social.

Integrando a pauta econômica, nacionalista e identitária, em detrimento não apenas dos Estados Unidos mas também do que representam no Ocidente, o discurso de Dirceu tem bastante atualidade; é exemplo bastante característico do neocomunismo

Mas me estendo na explicação porque, ao contrário da sinalização de virtude dos bolchehipsters fora-temer, o discurso de José Dirceu é perfeitamente antenado com o espírito do tempo. Ele fez um discurso completamente alinhado com a pregação comunista do século XXI, e é importante entendê-lo para que tenhamos noção exata da ameaça que enfrentamos.

Logo de início, Dirceu fala sobre seu início na política, e menciona “sonhos da juventude, que eu não renunciei, inclusive o sonho pelo socialismo”. Em seguida, ele diz:

O Brasil vê de novo ameaçada a sua democracia e a sua soberania. A sua democracia, porque não vamos nos enganar: a volta do bolsonarismo chama-se Flávio Bolsonaro. A mídia começa a mudar para “Flávio”, esquecendo o “Bolsonaro”, mas ele é golpista como o pai, e tem a mesma origem de extrema-direita como o pai. E mais grave: ele tomou lado no mundo hoje, o lado do Trump, o lado da guerra. E nós não podemos em nenhum momento imaginar o Brasil governado por ele; o Brasil será governado pelo Trump, pelos interesses dos Estados Unidos, pelo império, pela guerra.

E ainda: “O que está acontecendo hoje é que além da democracia, o que está em jogo hoje é a soberania do Brasil”.

Dirceu passou então a fazer algumas observações sobre a economia, no estilo da vulgata marxista, opondo ricos e pobres. Acusou a direita de promover privatizações, o desmonte de bancos públicos, o fim do piso da saúde e da educação, dentre outras coisas. E mencionou a importância de que o povo brasileiro tenha apoiado a taxação dos mais ricos e o fim da escala 6x1. Ou seja, ele integrou a tradicional díade burguesia-versus-proletariado, que ainda serve para mobilizar ressentimentos em benefício da esquerda.

Mais à frente, voltou a falar de soberania, e disse que “cada país sabe que, se não tiver independência, soberania, coesão social interna e um pacto político para defendê-lo, será vítima da recolonização do mundo que o Trump está produzindo”.

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A esta altura, comecei a me preocupar; será que ele se esqueceu das novas díades? Será que ele ignorará as novas relações oposicionais tão caras ao progressismo atual, como homens-versus-mulheres, cis-versus-trans, heteros-versus-gays e assim por diante?

Estava-me quase decepcionando com Dirceu quando ele finalmente se redimiu e referiu, bem ao final do discurso, às pautas identitárias da esquerda: “Passaram 10 anos tentando desvirtuar o nível de consciência da classe trabalhadora, para fazer uma classe trabalhadora autoritária, xenofobista (sic), misógina, machista, homofóbica”.

E com isso, integrando a pauta econômica, nacionalista e identitária, em detrimento não apenas dos Estados Unidos mas também do que representam no Ocidente, o discurso de Dirceu tem bastante atualidade; é exemplo bastante característico do neocomunismo.

É claro que, para a gente, isso tudo pode parecer uma sandice dos anos 1950, como afirmou meu colega José Fucs em sua coluna aqui na Gazeta. Mas eu penso o contrário: a realidade é que os progressistas do Ocidente ressuscitaram o comunismo, e por isso o discurso de Dirceu é bastante atual. Nós estamos sim vivendo uma nova guerra fria, e precisamos combater o comunismo de novo.

Como mencionei na coluna intitulada A Verdadeira Essência do Comunismo, o comunismo caracteriza-se pela visão maniqueísta da realidade, pela destruição da moralidade tradicional e sua substituição por uma moralidade classista, e pelo messianismo escatológico. E Dirceu apresentou o neocomunismo com todos esses elementos, devidamente atualizados com as cores e perfumarias do século XXI.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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