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Lembro-me bem de quando estava na escola e estudei a crise política dos anos 1960 no Brasil. Sendo autenticamente de esquerda, ou tendo ao menos marinado longamente na hegemonia progressista, meus professores apresentavam uma visão maniqueísta da história, em que a esquerda (o comunismo e o governo João Goulart) encontrava-se do “lado certo”, lutando contra a maldade sádica do imperialismo e das ideias reacionárias.
Os conservadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e os demais participantes das Marchas da Família com Deus eram-me descritos como gente retrógrada, mal-educada, mesquinha. Gente que simplesmente não queria aceitar a melhoria na vida dos mais pobres que o governo Jango promovia. Medidas como a limitação da remessa de lucros, a reforma tributária e a reforma agrária eram-me apresentadas como inovações virtuosas, benignas, a que apenas pessoas ignorantes ou malévolas poder-se-iam contrapor.
O comunismo é sobretudo uma indisposição neurótica contra a criação, contra a natureza, contra as tragédias incontornáveis da realidade. É um sentimento de inadequação e revolta que é transformado em niilismo, visando a destruição de todo o existente
Naquela época, àquela idade, eu realmente não conseguia concluir outra coisa, apesar de certa suspeição intuitiva quanto à convicção intransigente das interpretações de esquerda. Eu via as fotos das marchas pela família e não enxergava nada de errado nelas; mas ao mesmo tempo eu sabia que a maldade costuma-se disfarçar de virtude, então talvez fosse isso. Talvez fossem pessoas más disfarçadas de defensoras inocentes do status quo.
Mas o principal é que eu não conseguia entender – e os professores não sabiam, ou não queriam explicar – por que esse pessoal se contrapunha a Jango com o discurso de Deus, tradição, família, propriedade; o que isso teria a ver com as reformas promovidas pelo governo? Por que era especificamente esse o discurso? O que Deus, família e propriedade tinham a ver, por exemplo, com a remessa de lucros ou a reforma agrária?
A parte da “propriedade” até era mais simples de se entender, mas na minha visão ingênua, isso seria no máximo uma limitação pontual, e não uma ameaça ao instituto da propriedade em si. Então por que enfatizar isso? E por que Deus e família?
O que eu não entendia, e só pude entender muito tempo depois, é que o comunismo não é predicado em nenhuma medida específica. O comunismo não consiste, em si mesmo, na socialização dos meios de produção, na ditadura do proletariado ou no controle totalitáriodo ensino e da cultura, muito embora essas medidas tenham sido tomadas por governos comunistas ao longo da história.
O comunismo é sobretudo uma indisposição neurótica contra a criação, contra a natureza, contra as tragédias incontornáveis da realidade. É um sentimento de inadequação e revolta que é transformado em niilismo, visando a destruição de todo o existente. A esquerda não visa a construir nada; todas as suas medidas são voltadas ou para o fortalecimento da própria esquerda, ou para a destruição do que existe.
E se o objetivo é a negação destruidora da sociedade, deve-se mirar precisamente as suas bases: a fé religiosa, a fidelidade à família, e a propriedade. Não à toa, é isso o que temos visto nas elites do Brasil e do Ocidente em geral: combate ao cristianismo, destituição do poder familiar (com ofensiva contra o homeschooling, por exemplo), e relativizações do direito à propriedade. Nossa sociedade encontra-se, mais uma vez, sob ataque do comunismo, e apenas o fortalecimento das nossas bases – Deus, família e propriedade – pode-nos tornar fortes o suficiente para resistir à ameaça autoritária.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Gustavo Maultasch é diplomata e autor do livro "Contra toda Censura: Pequeno Tratado sobre a Liberdade de Expressão", lançado pela Avis Rara. É formado em direito pela UERJ, mestre em diplomacia pelo Instituto Rio Branco e doutor em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago. Foi Network Fellow do Centro de Ética de Harvard (2013-2014). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



