
Ouça este conteúdo
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, indicado por Lula, sob acusações de espionagem e monitoramento ilegal, arrastou o presidente para o centro da crise institucional. E acionou o sinal vermelho na campanha petista.
Nesta quarta-feira (9), o ministro Flávio Dino determinou a reintegração de Rodrigues ao cargo, com a determinação adicional de que sua decisão seja submetida exclusivamente ao plenário da Corte. A medida contrasta com a tomada na véspera por Mendonça, que submeteu a ordem apenas à Segunda Turma da Corte e que formou maioria para manter o afastamento.
Até a semana passada, o time de campanha de Lula comemorava o esquecimento, por parte da imprensa, do caso Lulinha, relacionado ao filho do presidente, Fabio Luiz da Silva, e à empresária Roberta Luchsinger. As atenções estavam voltadas para a quebra do sigilo do inquérito sobre o Banco Master pelo ministro Mendonça, que trouxe à tona mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro dirigidas ao ministro Alexandre de Moraes.
A crise institucional virou pauta eleitoral e a pauta eleitoral é a crise política.
Leonardo Barreto, da consultoria Think Policy
A relação próxima e pouco republicana gerou perplexidade popular. A avaliação dos estrategistas do PT era de que o escândalo contribuiria para o desgaste da oposição, realimentando o caso do financiamento pedido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para o filme Dark Horse. Para Lula, o impacto da crise seria marginal, já que ele não estava diretamente envolvido no caso. Mesmo as ligações do senador Jaques Wagner (PT-BA) com o ex-banqueiro e o caso CrediCesta também já não pairavam no radar.
Agora, o cenário é inverso. Lula precisa lidar com a polêmica em torno do afastamento de seu homem de confiança na PF sem incorporar o desgaste da crise entre os ministros.
Mendonça já vinha considerando a medida, mas o estopim foi um “relatório de inteligência” usado por Moraes em um contra-ataque à divulgação das mensagens, com alegações de crimes de abuso de autoridade. O documento “apócrifo” revelava que a PF havia produzido ao menos seis relatórios sobre a atuação do ministro, em um monitoramento sistemático por mais de 30 dias.
Na noite desta terça-feira (8), a AGU (Advocacia Geral da União) recorreu da decisão de Mendonça e pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que suspenda o afastamento ou leve a questão ao plenário. Fachin deu 72 horas para que Mendonça se manifeste sobre o recurso, e Lula ainda não se manifestou publicamente.
VEJA TAMBÉM:
Campanha tenta evitar associação entre Lula e Moraes
A preocupação central da campanha do governo que tenta a reeleição é evitar que Lula seja associado à defesa de Moraes, quando a imagem do ministro está mais desgastada. Ao mesmo tempo, a ideia é não contrapor Lula a Mendonça, que ganhou apoio popular ao confrontar Moraes.
Levantamento da consultoria AP Exata mostrou que a rejeição a Moraes supera a divisão em torno de Mendonça. Foram analisadas 120 mil menções aos dois ministros nas redes sociais X e Instagram entre 1º e 4 de setembro.
Quase 80% das referências a Moraes tinham teor negativo, enquanto as positivas ficaram em 3%. Em relação a Mendonça, as menções positivas oscilaram entre 20% e 25%, e as negativas, entre 25% e 30%.
O tom dos atos de 7 de Setembro, que tiveram Moraes como principal alvo, já havia acendido o sinal de alerta no QG petista. O clima ficou mais tenso com a divulgação da pesquisa eleitoral pelo BTG/Nexus nesta terça-feira (8).
Pela primeira vez na série de sondagens eleitorais feitas pelo instituto, Flávio Bolsonaro apareceu numericamente à frente de Lula em uma simulação de segundo turno, com 46% contra 45%: o resultado configura empate técnico na disputa presidencial. A pesquisa foi contratada pelo BTG Pactual, realizada entre 4 e 7 de setembro de 2026, por telefone, com 2.002 eleitores. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com 95% de confiança. Registro no TSE: BR-06790/2026.
Segundo integrantes da campanha petista ouvidos pela reportagem da Gazeta do Povo, a estratégia é tentar manter ao máximo “a institucionalidade” e ampliar a “desconstrução” de Flávio nas redes sociais e também nas peças de TV, que têm se concentrado mais em exaltar as ações do governo.
Crise institucional virou pauta eleitoral
Para analistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo, a margem de manobra de Lula é limitada em qualquer cenário de desfecho da crise. Independentemente de Mendonça ser ou não desautorizado pelo plenário do STF, a manutenção de Andrei Rodrigues no cargo tende a se tornar um problema para o governo às vésperas da eleição, diante das suspeitas que atingem o diretor-geral da Polícia Federal.
Na avaliação de Leonardo Barreto, da consultoria Think Policy, a sobreposição das pautas tornou-se inevitável. “A crise institucional virou pauta eleitoral e a pauta eleitoral é a crise política”.
Para Barreto, Lula perdeu o timing da crise, quando poderia ter afastado Rodrigues quando surgiu a primeira menção ao diretor da PF nas mensagens de Vorcaro. “Se o Lula estivesse em forma como antes, já teria rifado o Andrei”, afirma. “Agora, qualquer decisão pode gerar desgaste”, acrescenta o analista.
No mesmo sentido, Cristiano Noronha, da consultoria econômica Arko Advice, diz que “o melhor dos mundos para Lula” teria sido não precisar acionar a AGU para manter Rodrigues no cargo. “O ideal seria o Andrei pedir demissão”, afirma.
Já a situação envolvendo Alexandre de Moraes é ainda mais delicada para o presidente, segundo Noronha, porque a oposição conseguiu explorar uma associação política que Lula vinha tentando evitar. Ele destaca a frase adotada por Flávio no Sete de Setembro, na Avenida Paulista, que resume a estratégia da oposição: “Quem votar em Lula tá votando no Alexandre Moraes”.
No mesmo sentido, Barreto aponta o acerto da estratégia de Flávio, que passou a colocar “Alexandre de Moraes, Lula e Vorcaro tudo da mesma caixinha”.
VEJA TAMBÉM:
STF perdeu instrumentos para arbitrar a crise
Para Barreto, o STF enfrenta uma dificuldade institucional para arbitrar o conflito porque “não tem instrumentos jurídicos para resolver isso”, relembrando o histórico recente. “O próprio STF se encarregou de desmoralizar e de descredenciar todos esses instrumentos” ao longo dos últimos anos, diz ele, que cita como exemplo o episódio em que Moraes impediu, em 2020, a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal durante o governo de Jair Bolsonaro.
Na ocasião, Moraes suspendeu a nomeação de Ramagem por decisão individual, sob o argumento de que havia indícios de desvio de finalidade na escolha, diante da proximidade pessoal entre o então delegado e a família Bolsonaro. A decisão acabou sendo confirmada pelo plenário do STF.
“Se você considerar jurisprudência e tudo, nada do que o Mendonça fez é diferente do que fizeram antes”, afirma. Barreto considera improvável um arranjo rápido, a exemplo de outros episódios históricos envolvendo o próprio PT e seus integrantes. “A saída seria alguém conversar, convencer o Moraes a renunciar”, diz. “Mas quem é que vai fazer isso?”, acrescenta.
Pressão por uma solução institucional
Enquanto as atenções se voltam ao presidente do STF, Edson Fachin — que, de forma inédita, cancelou uma sessão do Supremo nesta quarta-feira — aumentam também as pressões externas por uma solução institucional para a crise.
Nesta terça-feira (8), 13 ex-ministros e ex-presidentes do STF enviaram uma carta a Fachin classificando o momento como “a mais aguda crise” da história da Corte e pedindo uma sessão pública do plenário para determinar a apuração rigorosa dos fatos, com respeito ao devido processo legal.
A OAB Nacional, apesar do tom de cautela, pediu em nota uma “apuração rigorosa e isenta” dos fatos envolvendo os ministros. Já seccionais da entidade adotaram posições mais incisivas: a OAB do Paraná, por exemplo, pediu o afastamento cautelar de Alexandre de Moraes, e a OAB-DF avisou que pedirá impeachment de Moraes e Toffoli.
No setor empresarial, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) articula um manifesto ao Supremo para cobrar esclarecimentos sobre o caso envolvendo Moraes e Vorcaro e defender que as suspeitas sejam efetivamente investigadas. A iniciativa reúne representantes de entidades da sociedade civil e deve ser apresentada ao STF nesta semana.









