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Junto ao “despiora” e ao “fique em casa” com degustação de queijos e vinhos, uma das comprovações da insanidade dos nossos escolarizados urbanos foi a tal “entrevista por telepatia” que Armínio Fraga “fez” com Lula. Tratou-se de um artigo insólito, publicado antes das eleições de 2022, meio delirante e inocente ao mesmo tempo, como numa mistura de Forrest Gump com Arquivo X e Lost. Será que se eu conversar com jeitinho o fantasma do déficit para de crescer e de perseguir o Brasil?
Não custa tentar, e assim Armínio resolveu conversar com o imponderável, com o inexistente, e inventou uma conversa imaginária que ele teria mantido com Lula. Imaginária até vai, mas precisava ser tão implausível? Em determinado momento, ele coloca na boca de Lula as seguintes palavras: “Durante o meu mandato vou ajustar o fiscal para a dívida parar de crescer”.
Não é econômico e cômico ao mesmo tempo?
Mais adiante ele pergunta se a economia crescerá, ao que o Lula imaginário responde: “Eu acredito que um país pacificado, mais tranquilo, que não repita erros do passado, do PT inclusive, tem tudo para crescer uns 4% ao ano por um bom tempo, começando logo depois das eleições. Se eu ganhar, claro”. E mais à frente: “Pode ficar tranquilo. Nós vamos tratar o dinheiro do povo bem. Prometo que tudo que fizemos será estudado, justificado e avaliado de forma transparente”.
Só que isso não existe mais, em nenhum lugar do mundo; a esquerda hoje é radicalismo, comunismo, violência política
Menciono esse artigo antológico porque ele não foi um caso isolado; na realidade, muitos dos considerados “neoliberais” – que defendem o controle da inflação, o controle fiscal, a independência do Banco Central e das agências reguladoras, dentre outras medidas – adotaram posicionamento semelhante, apoiando Lula a despeito de todo o histórico do PT de destruição econômica.
O medo deles de que Bolsonaro vencesse as eleições de 2022 e “destruísse a democracia” era tão grande, o seu antibolsonarismo psicótico era tão agudo, que eles defenderam qualquer coisa, não apenas a restrição das liberdades individuais (como a liberdade de expressão) como também a destruição dos pilares econômicos que eles dizem tanto promover.
No cálculo moral desses especialistas, o Brasil deveria pagar esse preço alto para salvar a democracia. O problema é que eles nunca foram sinceros em relação a esse preço; nenhum deles jamais disse: “olha só, eu sei que o PT provavelmente destruirá a economia, mas acho que este é um preço necessário a se pagar para salvarmos a democracia”. Nenhum deles fez isso; ao contrário, muitos defenderam abertamente Lula e o PT, inclusive em relação ao seu plano econômico, nem que fosse um plano imaginário transmitido por telepatia.
Pelo visto a história realmente se repete: primeiro como delírio, depois como empáfia, porque agora vemos novamente muitos desses mesmos “especialistas” entoando o mesmo discurso: a democracia está em crise, a economia anda mal, e então precisamos de um governo com responsabilidade política e fiscal. Precisamos de um pacto econômico!
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Mas se eles já apoiam a esquerda – porque têm aquela repulsa pueril pela direita –, por que Lula haveria de mudar? Se a esquerda já conta com o seu apoio, para quê se atualizar?
No fundo o que eles desejam é uma esquerda europeia dos anos 1990, órfãos do eurocomunismo, sonhando com uma social-democracia que seja progressista e, ao mesmo tempo, fiscalmente responsável. Só que isso não existe mais, em nenhum lugar do mundo; a esquerda hoje é radicalismo, comunismo, violência política; o progressismo representa atualmente a destruição das liberdades mais fundamentais.
O que resta para eles são essas palavras vazias sobre pacto econômico, num idealismo infantil sem qualquer relação com a realidade – a menos, claro, que passemos a acreditar em suas telepatias e delírios. Esses clamores dos neoliberais fazuelis servem apenas para uma coisa: para fingir, para si e para os demais, que ainda existe alguma moderação e debate na esquerda atual.

Gustavo Maultasch é diplomata e autor do livro "Contra toda Censura: Pequeno Tratado sobre a Liberdade de Expressão", lançado pela Avis Rara. É formado em direito pela UERJ, mestre em diplomacia pelo Instituto Rio Branco e doutor em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago. Foi Network Fellow do Centro de Ética de Harvard (2013-2014). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



