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Gustavo Maultasch

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STF

Zema contra a censura

Romeu Zema
Ex-governador mineiro é alvo de pedido de investigação por Gilmar Mendes no inquérito das fake news. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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O direito de falar e argumentar sobre as nossas ideias – a liberdade de expressão – é algo tão sublime, tão excepcionalmente legítimo, que mesmo os censores precisam disfarçar as suas intenções. Você jamais verá um censor dizer que pratica realmente a censura. Eles sabem que a censura é algo vil e imoral, e assim precisam camuflar as suas investidas, justificando-as como proteção da democracia, das minorias ou qualquer outro pretexto que afete benevolência.

Essa camuflagem é perigosa porque acaba enganando muitos inocentes úteis; muitos passam a acreditar que os pretextos (redução da desinformação, defesa da democracia, proteção de minorias) são realmente válidos e verdadeiros. Mas ela também representa um ponto fraco dos censores, porque vez ou outra eles invariavelmente vacilarão em suas convicções, tornando visível o que está por trás da camuflagem.

Quando até aliados começam a enxergar exageros na conduta dos censores, é porque já há fissuras na hegemonia da censura. Até ontem, valia qualquer argumento para perseguir a direita; hoje, os censores precisam ser um pouco mais criativos

Esta semana houve vários acontecimentos no campo da restrição à liberdade de expressão. Primeiro, a Advocacia-Geral da União notificou a plataforma X para remover publicações que criticavam o projeto de lei que equipara misoginia ao racismo. A justificativa foi que essas publicações representariam “desinformação”. Em seguida, o plenário do STF formou maioria para condenar Eduardo Bolsonaro por difamação contra a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), por causa de tweets que o deputado publicou contra o projeto de distribuição gratuita de absorventes.

Por fim, o ministro Gilmar Mendes enviou notícia-crime ao relator do "inquérito das fake news", ministro Alexandre de Moraes, solicitando a investigação de Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais. A solicitação teria ocorrido depois que Zema publicou vídeo satírico com bonecos representando ministros do STF.

Zema disse, em seguida, que dobraria a aposta, e que não se curvaria a essa tentativa de cercear a sua liberdade de expressão. A sua atitude provocou a reação do STF, o que por sua vez acabou comprovando o ponto de Zema: o tribunal vem restringindo críticas legítimas em nome da proteção contra “ataques” institucionais.

Apesar dessas últimas restrições à liberdade de expressão, o que se vê é que a hegemonia em torno da censura encontra-se enfraquecida, desgastada, exausta, com menos convicção, ou pelo menos com mais dificuldade para encontrar uma narrativa que a justifique. Veja-se que os censores têm reusado as mesmas justificativas de sempre para a censura (a proteção das instituições), demonstrando, no mínimo, certa perda de criatividade.

VEJA TAMBÉM:

Mesmo na mídia do consórcio já há jornalistas afirmando que as “excepcionalidades” do inquérito das fake news foram aceitas apenas por um breve momento, para repelir a “tentativa de golpe” de Jair Bolsonaro, mas que agora o STF precisa voltar a uma “normalidade” e deixar de restringir críticas ao tribunal. Essa mesma mídia do consórcio entende, assim, que o inquérito agora deveria ser extinto, já que Bolsonaro está preso e, assim, não haveria mais razão para a sua continuidade.

Quando até aliados começam a enxergar exageros na conduta dos censores, é porque já há fissuras na hegemonia da censura. Até ontem, valia qualquer argumento para perseguir a direita; hoje, os censores precisam ser um pouco mais criativos. E foi só alguém agir como Zema, com a coragem para confrontar a censura, que os censores foram obrigados a expor as fragilidades de sua camuflagem e narrativa.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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