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Giorgio de Chirico – A Torre Vermelha (La tour rouge) – 1913 – óleo sobre tela – 73.5 x 100.5 cm – Peggy Guggenheim Collection
Giorgio de Chirico – A Torre Vermelha (La tour rouge) – 1913 – óleo sobre tela – 73.5 x 100.5 cm – Peggy Guggenheim Collection| Foto:

Caso não sejamos niilistas convictos, vivemos o dia-a-dia à espera e à espreita de qualquer coisa que nos justifique. Uma vitória, uma dor, uma fé, um sacrifício, uma profissão, até mesmo um fracasso, contanto que seja um glorioso fracasso. Ou a guerra – por que não a guerra? A cada um caberá a sua sentença, eis o ditado, mas os ditados às vezes dizem tão pouco.

É disso que trata o estranho livro O Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati. Sobre o autor, sabemos que estudou direito e foi jornalista; publicou crítica de arte e roteiros de cinema; foi correspondente de guerra e ilustrador. Escreveu uma discreta obra-prima.

O que interessa antecipar é muito pouco: um oficial de baixo escalão, Giovanni Drogo, é destacado para um posto desimportante num Forte esquecido, num ponto qualquer entre a cidadezinha em que nasceu e o deserto donde surgiriam os perigos da batalha e a quase mítica invasão dos tártaros.

Drogo chega ao Forte Bastiani ansioso por aventuras austeras. Ao perceber que pouca coisa de notável aconteceria naquelas dependências, toma a decisão de partir, cumpridos apenas quatro meses de serviço. Transcorrido esse prazo, apresenta-se ao médico para obter o atestado que o liberaria. Súbito, desiste de desistir. Fica. Ficando, é enredado por um sentimento que oscila entre a acídia e a curiosidade. O tempo transcorre lenta e rapidamente; os minutos se confundem com as horas e estas com os dias; meses e semanas não se distinguem de anos e décadas.

Então o herói aos poucos se adapta aos regulamentos, às regras, aos códigos, aos hábitos, aos vícios, às ordens, aos colegas, aos quase amigos, à inércia sedutora daquele universo. Mais do que adaptação, parece nascer mesmo algum tipo de amor. O forte é seu mundo e o mundo, por sua vez, é que se transformou num mundo à parte. A transformação interior de Giovanni Drogo se desvela num romance de formação que terá desdobramentos inesperados.

A despeito da cronologia, que pouco interessa à literatura, O Deserto dos Tártaros faz ressoar, na íntima memória literária, o timbre soturno dos relatos de Franz Kafka, como O Castelo; também o gosto enjoativo d’A Náusea, de Jean-Paul Sartre, sobe à garganta; com os personagens absurdos de Esperando Godot, de Samuel Beckett, há parecenças; na busca que se transforma em espera de Hans Cartorp, n’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, existe parentesco; na mais óbvia referência À Espera dos Bárbaros, de Konstantinos Kaváfis, o tema é o mesmo: a esperança pode dar sentido à vida, muito bem, mas também pode ser, ai de nós!, o próprio motivo do desespero.

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