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Quem esteve atento à crônica política sempre soube que ele nunca acreditou, de fato, nas inconveniências da democracia. Embora tenha se entusiasmado com a vida militar, sofreu para aceitar a rigidez e a autocontenção hierárquica. Mas gostava da farda e do que ela simbolizava. Desde cedo demonstrou ser insubordinado e impetuoso, empanturrado de opiniões e certezas, frases-feitas e palavras-de-ordem. Liturgia do cargo? Faça-me o favor. O diálogo aberto não lhe convinha; preferia falar e exigia ser ouvido, sem interrupções nem réplicas. Tampouco aceitava os rapapés habituais, os acordos e os comprometimentos. Fez tudo do seu jeito e, reconheçamos, foi bastante fiel à sua palavra. Sua ascensão política coincidiu, registre-se, com o clamor por mudanças drásticas no país. O que é mais do que compreensível: a corrupção e o descaso das elites – políticas, econômicas e culturais – enojavam o eleitor. Muita gente estava, e ainda está, entediada com a pasmaceira de costume. Alguma coisa precisava ser feita, mesmo que o preço fosse alto, e o remédio, amargo. Ainda que fizesse pouco caso da normalidade institucional, aceitou submeter-se ao escrutínio público. Alguma inteligência estratégica tinha e a usou. Sabia que podia vencer e, contra os prognósticos do mainstream, venceu. Foi eleito com sobras, e não lhe faltaram apoio popular e capital político. Bastava governar. Patriota e apaixonado, prometeu afastar os velhacos, acabar com os privilégios, punir os corruptos, aproveitar as riquezas naturais e fazer um governo verdadeiramente democrático. Por “verdadeiramente democrático”, entenda-se, um governo democrático a seu modo. Para isso, pôs em marcha seu próprio movimento e ignorou partidos e coligações tradicionais. Propôs outra Constituição e mudanças significativas no desenho burocrático do Estado. Quis falar diretamente com o povo, sem intermediários, na língua que o povo compreende. Diante dos confrontos e das denúncias da imprensa, reagia mal. Atacava os “excessos” da liberdade de expressão e, na medida do possível, asfixiava economicamente jornais e emissoras. Nunca admitiu que, eleito, não tivesse o poder mais pleno a seu dispor. Para ele, o voto era o ato fundante que legitimava todos os outros atos, democráticos e antidemocráticos, que viessem depois. Que houvesse oposição ativa e judiciário independente soava como insulto às suas pretensões e visão de mundo. Para ele, os tribunais superiores tomavam decisões inferiores, o que precisava ser corrigido. Mandou Montesquieu às favas e ignorou que um bom governo se faz com divisão real de poderes e responsabilidades, méritos e deméritos. Os freios e contrapesos tinham o defeito de serem freios e contrapesos. Por ele, pisava no acelerador do populismo e atropelava quem estivesse no caminho. Fez isso sempre que julgou necessário, e julgou necessário fazer isso quase sempre. Ensinou à América Latina que uma ditadura não acontece da noite para o dia, nem precisa nascer de um golpe sangrento. O tempo das grandes revoluções acabou. É preciso paciência e pendor teatral. É preciso saber blefar enquanto finge aceitar as regras do jogo. Mais do que traço de caráter, o autoritarismo foi sua genuína vocação.

Hugo Chávez morreu no dia 5 de abril de 2013.

De quem mais eu estaria falando?

Ora.

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