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Na Idade Média, os bobos da corte eram artistas contratados para divertir o rei e seus convidados. Funcionários públicos do entretenimento. Espalhafatosos e, de propósito, desagradáveis, cantavam, declamavam poemas e tinham a permissão de apontar os defeitos e os vícios da sociedade. Até mesmo os do próprio rei.

Se me permitem a psicanálise improvisada, talvez coubesse ao bobo o papel de superego: repreendia tudo aquilo que ninguém mais teria coragem de repreender. Revelava, assim, a medida do ridículo que, tantas vezes, é a vida dos poderosos. A insanidade do bobo despertaria a sanidade do rei.

Mas também é provável que a intenção do rei fosse bem menos nobre e muito mais prosaica. Não, ele não queria ver refletida, num palhaço, a sua própria tolice. Longe disso. Queria manter por perto o humorista, rir de suas piadas, participar de seus números, justamente para neutralizar seus efeitos.

Ora, nada mais corrosivo do que o humor quando feito livremente. Nenhuma figura social incomoda mais o homem que se pretende sério do que o homem que ri de quem se pretende sério. Não há filosofia mais crítica que o desrespeito da gargalhada.

O espetáculo em que Jair Bolsonaro deixa seu duplo, Márvio Lúcio, responder por si no Palácio do Planalto, circundados pela já conhecida claque, é bastante revelador. E revela muito de ambos. O bobo não aponta os defeitos do rei, mas os dos súditos; submete a irreverência do humor à reverência da corte. A corte agradece a subserviência.

Um não é presidente e nem sabe fazer o papel de bobo; outro é bobo demais para ser presidente.

À recorrente pergunta sobre quais seriam, afinal de contas, os limites do humor, a única resposta possível é a seguinte: os limites do humor são os limites do poder, ou o grau de suscetibilidade do poder. Fazer humor a serviço do rei é fazer qualquer coisa: cócegas, política, comércio, diplomacia, relações públicas, entrevista de emprego. Tudo, menos humor.

Lear: Estás me chamando de bobo, Bobo?

Bobo: Você abriu mão de todos os outros títulos. Este é de nascença.

Rei Lear, de William Shakespeare, na tradução de Millôr Fernandes

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