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Morreu George Steiner, aos 90 anos.

Filósofo, crítico literário, escritor: o francês de erudição abrangente e generosa preferia ser conhecido como... leitor. E, de fato, ele foi um dos mais fiéis e apaixonados leitores: “Eu gostaria que a lembrança que guardassem de mim – por pouco que eu perdure nas memórias – fosse a de um mestre de leitura, de alguém que passou a vida a ler com os outros”.

Era seu modesto orgulho. Acreditava em anacronismos como civilização e cânone, hierarquia e critérios, e lia os grandes livros com um misto de reverência e intimidade, sem a petulância do vulgo nem a pose de quem tenta compensar a falta de jeito com mesuras exageradas. “...Alguém que passou a vida a ler com os outros”.

Steiner não se contentava com a leitura dos textos canônicos para se exibir nas revistas de prestígio ou nas muitas aulas magnas. Não lia contra ou a favor, mas com. Evitava afirmar ou negar; preferia conviver. A cultura era, para ele, um ambiente. Um lar. Lia para compreender – para ouvir – as muitas vozes que se confundem e clamam por socorro e beleza. O ato de ler se convertia, assim, numa ética da responsabilidade.

Judeu exilado, poliglota e, sobretudo, um espírito europeu, fez do mundo todo – suas línguas e literaturas, seus sons e seus silêncios – o único exílio possível, e terá morrido pesaroso ante a algazarra das mídias sociais e o fim de uma certa ideia de Europa. Não a Europa da ONU e de Davos, dos arranjos burocráticos e comerciais, mas a Europa dos bares e dos cafés, das cartas e das ideias, da visão universalista que pressupõe, e não anula, as idiossincrasias regionais.

Embora não professasse nenhuma fé religiosa, nem mesmo defendesse algum tipo de teologia sistemática ou conjunto de dogmas, Steiner tinha muito viva a “nostalgia do absoluto”, pois sabia dos limites da razão humana. Era humanista o bastante para amar a música de Mozart, mas cético o suficiente para nunca se esquecer da Shoah.

Nos romances e nos poemas, nos personagens e nos mitos, entrevia os vestígios de uma realidade inexplicável e, de alguma maneira, transcendente. O que hão de ser, enfim, essa realidade e essa transcendência? Sinceramente, espero que ele seja capaz de descobrir.

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