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Não faz muito tempo, Donald Trump proibiu o acesso à Casa Branca de um jornalista da CNN, Jim Acosta, que o questionara insistentemente numa coletiva. “Conduta inaceitável”. Inaceitável ou não, o presidente americano de fato trata a imprensa (não alinhada a seu governo) como “inimiga do povo”. Ocorre que os EUA têm apreço à liberdade de expressão e um juiz federal fez bem em derrubar o veto.

Vladmir Putin, por sua vez, é mais profissional quanto a isso. Faz do combate à liberdade de imprensa e de expressão sua política de Estado. Ele não se contenta com os revides e as ameaças, mas adota medidas deliberadamente ditatoriais quando se trata de jornalistas, escritores, artistas, manifestantes em geral e políticos da oposição. Falar, escrever, cantar e publicar é muito perigoso na Rússia.

Já em certas autocracias árabes o, aspas, desentendimento é um pouquinho mais sangrento: Jamal Khashoggi, repórter investigativo turco, foi assassinado (e esquartejado) dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul. De acordo com a CIA, a mando do príncipe Mohamed bin Salmán.

Na América Latina, ecossistema propício ao aparecimento de fungos autoritários e infecções populistas, a liberdade de imprensa é quase sempre mais exceção do que regra. Nem precisamos ir tão longe e recordar as ditaduras brasileira, argentina ou chilena, saudosos anos, porque os exemplos de hoje são muitos.

Na Venezuela, o esquerdista Maduro se inspira no padrinho Hugo Chávez para dificultar o quanto pode a vida de jornalistas, e dificultar é escandaloso eufemismo: não são raras as prisões, as agressões e as medidas de censura. Fidel Castro, o tirano central das Américas, estará orgulhoso no além-túmulo. Antes que me esqueça, a ativista cubana Yoani Sánchez esteve no Brasil anos atrás para denunciar o comunismo de lá e foi recebida com paus e pedras pelos comunistas de cá.

Mas, sejamos justos, nem só de Poder Executivo vive a censura. O obscurantismo espalha suas metástases nos diversos poderes e órgãos do Estado e até da sociedade civil (muitos eleitores mimetizam o comportamento dos eleitos). Temos aí o Supremo Tribunal Federal, suposto guardião das liberdades, que provoca investigações de ofício em que ele acusa, apura e julga, como no espúrio inquérito das fake news, que suspendeu temporariamente a reportagem da revista Crusoé.

Se o Judiciário não nos defende, tanto pior, porque de prefeitos não se pode esperar nada muito melhor. Depois de mandar a polícia recolher uma revista em quadrinhos na Bienal do Livro, o carismático Marcelo Crivella proibiu que jornalistas d’O Globo participassem da coletiva de imprensa. Não que tenham perdido grande coisa, mas ele tem a quem puxar.

A incansável briga do presidente Jair Bolsonaro com a imprensa vem de longe. Já ameaçou não renovar a concessão com a Rede Globo; editou MP que desobriga empresas a publicar balanços em jornais, com o intuito de asfixiar economicamente os detratores; pretendeu impedir que a Folha de S. Paulo participasse da licitação estatal e, não satisfeito, incentivou boicote a seus anunciantes.

Mas e o PT? Não vai falar do PT? Lula tentou (sem sucesso) expulsar do país Larry Rohter, correspondente do The New York Times, porque este escreveu sobre as (muito conhecidas, aliás) preferências e compulsões etílicas do ex-presidente e atual condenado. Lula preferia o assassino Cesare Battisti ao rebelde Larry Rohter. Além disso, não foi pouca a insistência do partido num certo projeto de “regulação” da imprensa que deu em nada, mas o que vale na política é a intenção.

Trump, Putin, Salmán, Maduro, Castro, Toffoli, Crivella, Bolsonaro e Lula (a lista não é exaustiva) têm lá suas diferenças de estilo, ênfase, entusiasmo, agressividade, meios e direcionamento ideológico, mas numa coisa se parecem mais do que gostariam de admitir: fazem da imprensa o inimigo comum. São tão inimigos da imprensa que acabam sendo amigos entre si. Basta organizar direitinho que todo mundo se dá bem.

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