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por Igor Sabino

Como afirma o meu amigo Robert Nicholson, diretor executivo do Philos Project, uma organização americana que busca promover engajamento cristão positivo no Oriente Médio, poucos conceitos são tão mal compreendidos quanto o antissemitismo. Embora se manifeste principalmente por meio de atos de violência e exiba claros elementos de irracionalidade, o ódio aos judeus é muito mais do que um simples preconceito, é também uma ideologia, uma rebelião contra a exclusividade e particularidade do povo escolhido por Deus. É isso o que faz com que nacionalistas radicais, esquerdistas e islamistas, apesar de defenderem ideologias rivais, tenham em comum a raiva pela tradição hebraica.

Acontecimentos recentes ilustram bem isso, seja a pandemia mundial de covid-19 ou a morte de George Floyd, um homem negro brutalmente assassinado por um policial branco nos EUA, gerando uma série de protestos no país. Apesar de terem causas completamente distintas, ambos os fenômenos tiveram pelo menos uma consequência em comum, ainda que em níveis diferentes: o aumento do antissemitismo. Tanto nos EUA como na Europa tem crescido a produção e o compartilhamento de conteúdo online com teorias da conspiração que acusam os judeus de serem os responsáveis pelo surgimento do novo coronavírus como uma maneira de dominar o mundo. É algo tão vil que parece uma reedição dos Protocolos dos Sábios de Sião, texto criado da Rússia czarista e traduzido para vários idiomas, depois de 1917, tendo, inclusive, influenciado o nazismo, segundo o Museu Memorial do Holocausto dos EUA.

Infelizmente, esse ódio aos judeus não ficou restrito apenas à internet, aparecendo também em manifestações populares, sejam elas contra as medidas de isolamento social adotadas por vários governos para conter a covid-19 ou em protesto pela morte de Floyd. Morte essa que, pasmem, para muita gente também está relacionada aos judeus, já que vários policiais americanos recebem treinamento especial em Israel. Por mais absurdas que todas essas conspirações nos soem, mais chocante ainda é perceber a pluralidade de ideologias e movimentos que as propagam: desde grupos supremacistas brancos de extrema-direita até acadêmicos e ativistas ligados a movimentos esquerdistas de interseccionalidade, passando por autoridades iranianas.

Para os membros do primeiro grupo, os judeus não são uma raça pura e são os principais responsáveis pelo declínio da civilização ocidental – leia-se EUA e Europa, uma vez que supostamente propagam a miscigenação e influenciam movimentos migratórios, como as crises recentes de refugiados. De acordo com essa narrativa, tudo parece ter sentido: os judeus inventaram uma pandemia que agora tem forçado os brancos a ficarem presos em suas próprias casas, o que consequentemente levará o mundo à falência econômica, possibilitando assim a implantação de seu plano de dominação mundial. Logo, a resposta a isso deveria ser o combate ao globalismo e a defesa do nacionalismo étnico, justificando, inclusive, o apoio ao atual Estado de Israel, já que, assim como os antissemitas europeus do século XX, para esses, o lugar dos judeus é no Oriente Médio, não no Ocidente.

Como nos lembra o falecido escritor israelense Amós Oz, existe um outro movimento europeu que diz o contrário e afirma que o lugar dos judeus também não é na Palestina. Para esses, o nosso segundo grupo, os judeus não são um povo com raízes orientais, como defendem os supremacistas brancos. Pelo contrário, eles são brancos demais para serem vítimas de racismo. Portanto, não há espaço para eles na interseccionalidade. Pelo contrário, ao invés de serem os oprimidos, os judeus são na verdade os opressores, propagadores do imperialismo ocidental ao, supostamente, colonizar territórios árabes e instituir um regime de apartheid contra os palestinos. É por isso que judeus progressistas não podem ser sionistas, nem podem participar de paradas LGBTs com bandeiras do arco-íris que contenham símbolos judaicos, como a estrela de Davi. E, claro, não são bem-vindos em movimentos como a Marcha das Mulheres de Washington D.C. Assim, é até justificável pichar sinagogas com mensagens anti-Israel durante protestos que pedem justiça pela morte de um homem negro.

Por fim, temos os islamistas, representantes do nosso terceiro grupo, em especial os líderes e diplomatas da República Islâmica do Irã. O país persa é conhecido por perseguir minorias religiosas como os cristãos e bahái’s, restringir direitos sociais de mulheres, proibir a homossexualidade e forçar homens gays a realizarem cirurgias de redesignação sexual. Ainda assim, tem se aproveitado dos acontecimentos recentes para fomentar ainda mais caos nas redes sociais, seja por meio de campanhas que exploram as tensões raciais nos EUA ou acusando os judeus de terem espalhado a covid-19, clamando, assim pela aniquilação de Israel. Tudo isso serve para esconder o alto número de casos do novo coronavírus no país.

Vemos, portanto, que o antissemitismo é uma mistura letal de questões de identidade e etnia, conspirações e paranoia política. E isso nos ajuda a explicar a política doméstica brasileira. Afinal, o uso de bandeiras de Israel tem sido comum em manifestações populares de apoio a Bolsonaro – inclusive nas de cunho anti-democrático. O mesmo pode ser afirmado acerca da relativização e instrumentalização do Holocausto para fins políticos por seus ministros e apoiadores. A novidade da última semana foi o uso mais intenso de figuras e símbolos do movimento supremacista branco, sempre apontados como histeria da mídia e da esquerda.

Enquanto cristão sionista e conservador, tudo isso me perturba profundamente. Sei que o antissemitismo começa com os judeus, mas nunca termina com eles, e acho que o Brasil é um bom exemplo. Noto que muitos dos meus irmãos evangélicos têm, ainda que de maneira inconsciente, adotado elementos desse mesmo supremacismo branco legitimador do antissemitismo. Isso tem ocorrido por meio de Olavo de Carvalho, o principal guru do governo. Olavo, embora seja claro em sua condenação ao antissemitismo e apoio a Israel, assim como Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, faz eco a um movimento internacional que visa promover o nacionalismo como solução para os problemas morais do Ocidente.

Esse nacionalismo, porém, não é o mesmo defendido pelo israelense Yoram Hazony em sua obra A Virtude do Nacionalismo, em que define nação não como um grupo etnicamente homogêneo, mas sim como um grupo de pessoas que compartilham dos mesmos valores e tradições, sendo Israel e o povo judeu os maiores exemplos disso. Nacionalismo que, embora dele discorde, considero defensável. Já o nacionalismo de Olavo e Bannon está muito mais próximo do de grupos supremacistas brancos americanos e europeus.

Bannon é conhecido nos EUA por ter sido o principal amplificador da chamada “alt-right”, a extrema-direita americana. Sua aproximação a Trump foi um dos motivos que levaram o jornalista judeu conservador Ben Shapiro a não apoiar o presidente nas eleições de 2016. Um ano depois, a aproximação de Bannon com esses grupos veio à tona, em agosto de 2017, em Charlottesville, durante uma manifestação de cunho racista e antissemita que assumiu caráter violento e ocasionou a morte de uma pessoa. Orientado por Bannon, à época estrategista da Casa Branca, Donald Trump minimizou o ocorrido, voltando atrás somente após duras críticas de seus aliados. Ainda assim, negou-se a condenar por nome dos grupos radicais envolvidos na demonstração, uma postura bem diferente da que teve recentemente com a Antifa, ainda que igualmente radical.

No Brasil, os principais propagadores dessas ideias são o assessor de relações internacionais do Presidente, Filipe Martins, vulgo “Sorocabannon”, e alguns youtubers apoiadores do governo. Um nome importante também é Sara Winter, criadora do grupo “300”, que semana passada marchou em frente ao STF com tochas e máscaras que pouco se diferenciavam esteticamente da manifestação de Charlottesville. A aproximação com esses movimentos supremacistas tem aumentado cada vez mais no país. Porém, sempre que apontadas, são vistas por muitos cristãos como meras tentativas de desestabilizar – ainda mais – o governo Bolsonaro.

Ainda que não dito abertamente, é como se para a maioria dos cristãos conservadores brasileiros, o mal fosse uma propriedade exclusiva da esquerda, esquecendo-se da verdade bíblica de que todos pecamos e, portanto, estamos propensos ao mal. Embora corretamente apontem o erro de muitos cristãos progressistas que cedem às tentações das políticas de identidade, os cristãos conservadores que adotam o discurso do supremacismo branco cometem a mesma falha. A única diferença é que agem de forma reversa.

A meu ver, a melhor maneira de realmente evitar o declínio ocidental não é abraçando o nacionalismo europeu, tampouco a interseccionalidade. Para muitos conservadores brasileiros, o passado da Europa pré-moderna é uma espécie de era de ouro que precisa ser resgatada a todo custo e trazida para o nosso contexto, ainda que ignorando nossas particularidades nacionais. Ao fazerem isso, porém, esquecem de todo o horror do antissemitismo que, vale salientar, não surgiu da noite para o dia durante a Segunda Guerra Mundial.

O que precisamos é retornar às raízes hebraicas do Ocidente ou, como diz Nicholson, promover a noção de semitismo. Isso inclui promover educação bíblica, sobretudo em ambientes evangélicos com menor instrução; construir pontes com a comunidade judaica e entender os desafios da terra em que surgiu a tradição hebraica. Espanta-me o fato de que a maioria dos evangélicos que expressam o seu amor por Israel por meio do uso de bandeiras em manifestações e elementos judaicos em liturgias de cultos cristãos, jamais conversou com um judeu sequer. Novamente, concordo com meu amigo quando ele afirma que “os cristãos passam muito tempo tentando influenciar a cultura, mas priorizam a lei e o governo à custa do mito e da imaginação. Eles têm atuado em quase todas as áreas, exceto na cultura. A vitória no Congresso e nos tribunais é importante, mas não salvará a República”.

Esse resgate da cultura não virá das aulas de um suposto filósofo e seus alunos. Mas sim por meio do ensino histórico e não-denominacional da narrativa que deu origem à nossa civilização: a cultura hebraica e suas fontes.

Igor Sabino é Bacharel e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), e alumnus do Philos Project Leadership Institute. Realizou trabalhos humanitários em ONGs de Direitos Humanos ligadas à American University of Cairo, no Egito, e pesquisas de campo na Polônia, Israel, Territórios Palestinos, Líbano e Jordânia relacionadas a migrações forçadas e perseguição religiosa.

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