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Há tempos certa vereadora de Teresina, Piauí, tentou proibir a comercialização de carne vermelha às segundas-feiras. De acordo com a ilustre representante, comer carne faz mal para a saúde e para o ambiente. Ela se preocupa conosco e nós deveríamos agradecê-la por isso. Coisas do Piauí? Antes fossem.

Agora, o deputado Feliciano Filho (PSC), preocupado com a causa animal, criou projeto de lei semelhante, já aprovado na Câmara: “Segunda sem carne” pretende proibir o consumo em órgãos públicos, escolas e estabelecimentos no âmbito estatal. O PL número 87/2016 vai para o chuchu, retifico, o governador Geraldo Alckmin, que o sancionará ou não. Se a vereadora de Teresina se preocupava conosco, o deputado de São Paulo se preocupa com os animais. É tanta preocupação que nós e os bichos é que deveríamos nos preocupar.

O pior é que medidas assim acabam sendo aceitas por muita gente que não pega o espírito da coisa, quando se trata de política e de políticos. O Estado se mete tanto na vida das pessoas que elas se acostumam; daí acreditam que é sempre uma questão de escolher: “Bem, discordo da proibição de carne, mas deveriam proibir as bolachas.” Tradução: “Políticos, podem se meter na minha vida, mas só um pouquinho.” E o que os políticos fazem? “Eu me meto na sua vida aqui, depois ali, e se hoje proíbo isso, amanhã libero aquilo, e…”

E isso gera dois problemas. O primeiro é que você, ao “pedir coisas” aos políticos, permite que eles estendam seus tentáculos em cada vez mais áreas da vida. Democracia, sabemos, é isso: “Político, quero pão!” Para atender, ele tem de avançar mais um pouco, ocupar um espaço e entregar o pão. Então você reclama de outra coisa: “Político, quero circo!”, e ele, para resolver, estende a lona. E assim por diante.

O segundo problema é que, aos poucos, os cidadãos, as famílias, se responsabilizam cada vez menos por quase tudo. Não se trata de bolsa-família ou de renda mínima (não sou contra programas assim, aliás); mas é cada decisão sobre moral, costumes, alimentação, vestuário, comportamento, liberdade, etc, que o homem comum outorga ao Estado. O mesmo Estado que hoje protege o cidadão exemplar dos males do açúcar amanhã proibirá que o cidadão exemplar reclame do Estado.

Pois se eles querem proibir a carne na segunda-feira, vou além: proíba-se o comércio de carne às terças e quartas, às quintas e sextas, aos sábados e domingos. Proíba-se a própria segunda-feira. Que a semana comece já na terça-feira (que, paradoxalmente, carregará, sobre si, o peso das famigeradas segundas-feiras).

Mas, sobretudo, imploro: proíba-se o nascimento de vereadores em Teresina, de deputados em São Paulo, de eleitores de ambos. Para os já nascidos, proíba-se que abram a boca e que portem canetas. O mundo pede socorro.

 

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