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Um despretensioso comentário da jornalista Carla Vilhena me deixou intrigado: “Eu leio muito, mas muito mesmo. Leio todo tipo de livro: ficção, biografias, clássicos, livros de história etc... mas minha pedra no sapato é Saramago. Qual livro vocês recomendam pra eu conseguir gostar dele? Aquela falta de ponto, parágrafo e capítulo me enlouquece”.

José Saramago escrevia, de fato, num andamento muito peculiar. Era avesso aos períodos curtos e aos pontos. As vozes das personagens são mediadas por vírgulas e iniciais maiúsculas, o que produz um efeito ondulante e meio enjoativo que, para alguns, é encantatório, para outros é simplesmente chato. Eu já gostei, quando gostava de maneirismos assim; hoje sou dos que acham simplesmente chato.

Se todos gostam, se todos dizem que é grande, se a Academia Sueca lhe concedeu o Nobel, como é que eu não vou gostar? Quem sou eu para não gostar? Vergonha minha, decerto. Supõe-se que se você não gosta do português o problema não é do português. É seu.

Ocorre que não é bem assim. Não é nada assim. Está liberado torcer o nariz para Saramago. Seja qual for o escritor, grande ou pequeno, nacional ou estrangeiro, antigo ou moderno, nem todos nos agradam. Sobretudo: nem todos são para nós. A escrita literária, afinal de contas, é uma voz muito particular. Um escritor nos diz coisas, e importa não só o que ele diz, mas como as diz.

Deixo registrado que acredito piamente no cânone literário. Explico: na ideia, muito divulgada pelo crítico Harold Bloom, de que existe um rol de livros e autores que sobreviveram às intempéries artísticas, que ultrapassaram a barreira das críticas, que se tornaram contemporâneos de si mesmos e que, portanto, são bons e grandes a despeito de nós. Grandes livros e grandes autores existem e permanecem.

Entretanto, nesse mostruário de romances e contos, peças e poemas, temos aqueles que se afinam conosco, mais do que outros; os que nos falam como se falassem ao pé do ouvido e com o tempo se tornam íntimos. Sejam os temas escolhidos, seja o tratamento estilístico, seja lá o que for, somos mais afeitos a uns autores que a outros. Literatura é uma forma de amizade.

Não é preciso escolher entre Tolstói ou Dostoiévski; podemos gostar de ambos. Porém, ambos representam e habitam mundos estéticos diferentes, Rússias distintas dentro da mesma geográfica e desimportante Rússia. Não se excluem no paladar do leitor, se este tiver gosto cultivado e aberto a combinações estranhas, mas são temperos fortes e variados. Pode ser preciso tomar uma dose de Nabokov, Gogol ou Tchekhov depois.

Também acontece de um determinado escritor ou livro ter chegado cedo ou tarde demais na vida da gente. Já li e reli muito, e a cada releitura meu organismo aceita mais ou menos do mesmo condimento. Quando jovens, apreciamos romanções carregados de teses e certezas e demandas; quando maduros, as mesmas teses, certezas e demandas somente nos aborrecem. Ou o contrário disso: há quem fique aventuroso depois de velho.

Tudo considerado, gosto de lembrar que Jorge Luis Borges, um dos escritores que amo como a um amigo mais velho e incomensuravelmente mais sábio, considerou o seguinte: “Emerson coincide com Montaigne na opinião de que devemos ler unicamente aquilo que nos agrada, que um livro tem de ser uma forma de felicidade”. Minha opinião, ainda que não mereça, coincide com a de Emerson, Montaigne e, naturalmente, Borges.

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