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“Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro”, de José Padilha. (Divulgação)
“Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro”, de José Padilha. (Divulgação)| Foto: alexandre lima

Durante abordagem num bar da zona sul de SP, um policial pisa no pescoço de uma mulher pobre, negra, desarmada e inofensiva.

João Dória afasta o agente e garante que se trata de um caso isolado. Haverá investigações. Haverá explicações. Haverá o que houver.

Convenhamos, não é caso isolado. Acontece o tempo todo, na periferia do mundo inteiro. Aqui no Brasil tem George Floyd à beça. Um em cada esquina.

De imediato, as tropas ideológicas que justificam qualquer coisa se apressam para justificar também essa ação policial e atacar o governador. Para quem sofre de miopia ética não existem complicações, a vida é preto-no-branco. Ou preto contra o branco. Mocinhos e bandidos são categorias ontológicas.

O policial, porque simbolicamente combate o crime, pode tudo – inclusive cometer crimes. A vítima, porque simbolicamente representa o crime, não pode nada – inclusive ser vítima.

Traficantes glamourizados pela esquerda, milicianos glamourizados pela direita, população no meio: dentes de uma engrenagem mais complexa. Tem bandido de farda e sem farda, no morro e na repartição. Foi o que mostrou e discutiu o filme Tropa de Elite, de José Padilha.

Enquanto no primeiro episódio (Tropa de Elite, 2007) o Capitão Nascimento é uma espécie de Rambo a descarregar violência contra a violência, no segundo (Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro, 2010) ele descobre que a violência, disfarçada de política, está entranhada em todo o sistema – do aviãozinho ao governador, do deputado ao chefe da comunidade.

O crime organizado é uma hidra com cabeças oficiais e oficiosas, dentro e fora da lei. O negócio ilícito é lavado em negócios lícitos; estes irrigam aquele. Traficantes e milicianos são irmãos sociologicamente siameses. Nascem, crescem, matam e morrem no mesmo ecossistema, colaboram entre si, rondam as mesmas ruas, assediam os mesmos moradores, moram nos mesmos bairros e dão sentido à vida uns dos outros.

É de impressionar o malabarismo conceitual que se faz para justificar a brutalidade do Estado contra o cidadão comum. Certos representantes da direita pau-de-arara ganhariam bom dinheiro equilibrando o caráter no farol das grandes cidades. Não sei por que não tentam, empreendedores que são.

Ora, tanto o liberalismo quanto o conservadorismo (em versão genuína) têm como prerrogativas a limitação do poder do Estado e a valorização do indivíduo, da família e da comunidade. De Locke a Tocqueville, de Burke a Aron, sua força propulsora é a ideia de que o Estado deve ser limitado, contido, descentralizado.

Alguma semelhança com a filosofia do Estado brasileiro? Nenhuma.

Por princípio, a violência policial deve ser condenada com veemência. Justamente porque é policial. Justamente porque é oficial. Justamente porque é praticada por quem deveria “servir e proteger”. Quem não compreende isso não compreende nada. Quem não compreende isso pode ser neofascista, comunista, malabarista, idiota: pode ser tudo, menos civilizado.

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