
Resolvi dar um tempo nas entrevistas e nos longos textos, pautados em uma temática específica. Preferi trazer uma contribuição mais pessoal para a questão da inclusão, sem depender de dados, fontes e nem de notícias. Quero falar por mim mesmo.
Há duas semanas, uma moça quis saber se eu já tinha feito de tudo para voltar a andar. Respondi que não.
Como nasci prematuro de seis meses, eu não tive nenhuma interrupção medular, portanto, tenho movimentação completa do corpo e talvez a marcha sem apoios seja uma questão de treino. Talvez.
Quando nasci, o meu quadro motor era muito comprometido e precisei ter acompanhamento médico por anos a fio, com o apoio de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicologia. Tive sete intervenções cirúrgicas durante a minha infância e maca de hospital acabou virando lugar comum.
A fisioterapia, presente na minha vida por mais de 20 anos seguidos, sempre foi fundamental. Por causa dela eu consegui ter o nível de autonomia que tenho hoje e aprendi muito sobre persistência, repetição e, acima de tudo, resistência.
Resistência, porque dor física ás vezes era sinônimo de progresso. Isso é fichinha. Conheci pessoas notáveis que passaram por infernos particulares muito piores do que o meu. Não posso pensar que sofri.
Quando a moça me perguntou se eu gostaria de andar, ela recebeu outro não.
A minha condição é diferenciada, porque eu nunca andei. Nunca saí correndo, nem subi em árvore, nem joguei futebol, do mesmo jeito que nunca pulei corda, nem dancei forró. Quase 100% do tempo eu preciso olhar para cima para ver o rosto das pessoas. Uma pessoa só fica na minha altura se estiver sentada, agachada ao meu lado, ou se nós dois estivermos deitados.
Sim, eu sou deficiente e eu faço sexo.
Eu atraio olhares curiosos por onde eu passo e normalmente as pessoas não perguntam para mim o que eu quero, perguntam para quem me acompanha. “O que ele quer?”. Já me ofereceram esmola no ônibus, já me negaram vaga em escola, já não quiseram namorar comigo por causa disso e é comum dizerem que eu deveria ir à igreja. Eu não tenho nada contra fé, mas não assuma que eu quero ser curado. Eu não estou doente.
A cadeira de rodas é um símbolo que me acompanha, inevitavelmente. E no imaginário, a cadeira não é uma coisa necessariamente feliz. Uma cadeira de rodas lembra acidente, doença, falta de habilidade, pena e morte.
Eu trocaria tudo isso por uma vida andante? Não.
A deficiência me ensinou a ver o mundo do jeito que eu vejo, me mostrou até que ponto o preconceito vai, testou meus limites físicos, emocionais e espirituais, me abriu portas e me colocou em uma situação fora do comum. Todo mundo tem a sua maneira de estar e existir, mas quem é deficiente tem um bônus em relação a isso.
O próprio Inclusilhado não seria possível se eu não fosse cadeirante. Os tempos necessários para coisas do dia a dia são diferentes, a sensibilidade para certas questões é outra e existe uma possibilidade maravilhosa chamada compensação.
A compensação talvez seja a chave. Você não consegue fazer de uma determinada maneira, mas como consegue fazer? Como você se supera? Como você surpreende os outros? Como encara desafios arquitetônicos? Como você leva outras pessoas a pensarem sobre tudo isso? Não é só a sua leitura de mundo que muda, mas a de todos ao redor.
O que falta para o deficiente se perceber como um agente de transformação? Mostrar o rosto?

Rafael Bonfim, autor do blog Inclusilhado
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