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As bicicletas no trânsito e a guerra da (des)informação

  • 12/03/2012 03:00
As bicicletas no trânsito e a guerra da (des)informação
| Foto:
Reprodução/http://tywkiwdbi.blogspot.com
Ciclistas-guerreiros querem apenas o poder. O poder ir de bicicleta com a certeza de que voltarão vivos.

O programa Fantástico, da TV Globo, escalou sua repórter-medida-certa Renata Ceribelli para pedalar pelas ruas de São Paulo. Nas chamadas, ainda durante a semana, ela programa prometeu mostrar “a guerra entre carros, ônibus e ciclistas”.

Enquanto escrevo essas linhas, a matéria já foi ao ar e, de maneira geral, foi mais positiva do que prometia ser.

O uso do termo “guerra no trânsito”, entretanto, incomodou muitos ciclistas e gerou protestos de alguns grupos, como a Bicicleta de Curitiba, que publicou uma carta contrária a esse tipo de abordagem.

Danilo Herek
Pelotão feminino de ciclistas curitibanas usa como arma o charme, flores e a gentileza.

Sempre que a questão do compartilhamento das ruas é levantada, surge uma voz acusando o usuário da bicicleta de “radicalizar” o debate e de promover a tal “guerra no trânsito”. Já abordei essa questão em posts antigos, mas, neste momento, vale voltar ao tema.

Para começo de conversa, refuto com toda veemência essa tese e a razão é simples: não há guerra no trânsito porque o conceito clássico de guerra pressupõe o embate armado entre duas forças antagônicas que se reconhecem mutuamente como inimigas. Além disso, a guerra, tal como descreve o grande estrategista militar e teórico Carl von Clausewitz, “pode ser legítima”.

O que há no trânsito brasileiro, portanto, ultrapassa a noção de guerra. Primeiro porque os ciclistas não reconhecem os motoristas como inimigos. Não há a menor possibilidade de um embate ou disputa por espaço, já que o mais forte – motorizado — leva sempre a melhor. Ciclista pode até ser louco, mas não é burro e não tem propensão a suicida.

Segundo, porque não há o que legitime a morte de 14,4 mil pessoas em uma década pelo simples fato de terem optado por um meio de transporte não motorizado.

Oscar/Bicicleteiros.com.br
Violentos? “O pretenso ativismo furou sinais vermelhos, discutiu e brigou com motoristas”.

É possível desconstruir essa tese apenas com a frieza dos números: em média, quatro ciclistas morrem por dia vítimas da brutalidade do trânsito brasileiro. Em 2010, 1.470 ciclistas perderam a vida enquanto exerciam o direito de ir e vir sobre duas rodas, de acordo com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DataSUS), do Ministério da Saúde. Quase 10% dessas mortes ocorreram no Paraná, o segundo estado mais violento do país para quem pedala, com uma tragédia a cada dois dias.

Apenas para efeito de comparação, o número total de membros da Força Expedicionária Brasileira mortos em combate durante a II Guerra Mundial foi 470. Ou seja, em um ano, nosso trânsito matou 1 mil compatriotas a mais do que os exércitos nazi-fascistas no norte da Itália.

Bicicleteiros.com.br
Ciclista quer ver sangue: sendo doado para salvar vidas.

Esse tipo de abordagem jornalística, que prega a existência de um conflito no trânsito, beira a irresponsabilidade, pois pode criar na cabeça de alguns motoristas uma situação de conflito que é irreal. Não há guerra quando apenas um dos lados conta suas vítimas.

A única ‘luta” dos ciclistas é pelo compartilhamento seguro das ruas. O único poder que os ciclistas querem conquistar é o poder ir de bicicleta com a certeza de que voltarão vivos.

Quando saem às ruas pedindo “mais amor e menos motor” ou “menos carros e mais bicicletas”, os ciclistas não estão entoando cânticos de guerra. Ao contrário, estão reivindicando um direito de forma legítima e democrática. Ciclistas não odeiam carros. Apenas amam as bicicletas.

Reprodução
Que guerra é essa, em que os que mais sofrem respondem com flores e pedidos de paz e respeito?

Mas a lei é para todos”, vai lembrar alguém. “Tem ciclista que anda na calçada”, bradará outro, com a tecla Caps Lock acionada na caixa de comentários ali embaixo. Sim, a lei é para todos. Mas é, principalmente, para proteger os mais frágeis da opressão dos mais fortes. O próprio Código Brasileiro de Trânsito reconhece isso ao dar ao menor e ao não motorizado a preferência no uso das vias.

Mas a lei, que é para todos, é atropelada. Assim como também o são as vítimas de motoristas que bebem e dirigem. Se a lei é para todos, deve ser principalmente para quem tira racha, para quem atropela e omite socorro ou para quem usa o carro como arma.

Se a lei é para todos, ela vale para quem, em um país em que bebidas alcoólicas são vendidas legalmente em postos de gasolina – nas cidades e nas estradas? Nosso trânsito é reflexo de uma sociedade subdesenvolvida, violenta e competitiva, em que a pressa de chegar se sobrepõe à vida das pessoas.

Como pedalar em um país em que a lei é para todos, mas é solenemente ignorada pela própria Justiça, que deixa crimes de trânsito impunes e, quando muito, troca vidas por cestas básicas ou serviço comunitário?

No mais, há de se considerar que há um abismo enorme entre o potencial ofensivo de motoristas que bebem e matam dos ciclistas que pedalam na calçada, na pior das hipóteses, pregando sustos em velhinhas e pedestres desatentos. É errado pedalar na calçada? Sim. Mas não é ainda mais errado o ciclista não ter direito de pedalar em segurança nas ruas?

Só para deixar claro: não há guerra. Há um massacre motorizado que vitima jovens, mulheres, crianças e idosos. O debate não é ciclistas x carros. É vida x morte, sociedade x barbárie. Os ciclistas só querem a liberdade de poder pedalar, sem que isso lhes custe a própria vida.

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