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A maioria dos estudos mostrou uma ligação consistente entre o vício em smartphones e a saúde mental.
| Foto: Andrew Le/Unsplash

Foi Ernest Hemingway quem popularizou a expressão “geração perdida”. O escritor falava da sua geração, que tinha vivido a Primeira Guerra Mundial. Em 1914, a civilização cometia suicídio nas trincheiras da Europa. Os jovens que viveram, combateram e sobreviveram ao cataclismo passaram a ter uma existência espectral, sombria, à deriva. Perdida. Pelo menos, até o momento em que ditadores diversos resgataram essas vidas com uma ilusão de sentido.

Não estamos em guerra. Qualquer comparação com as carnificinas de 1914 é absurda. Mas como negar que existe uma nova geração perdida entre nós? Falo dos millennials, claro, sobretudo daqueles que tiveram o supremo azar de nascer entre 1985 e 1995, mais coisa, menos coisa. Os primeiros entraram na vida profissional com a crise financeira de 2008. Ou, melhor dizendo, não entraram. Foram as primeiras vítimas. Os segundos foram largados na arena com a pandemia de 2020. São as segundas.

Será que a nova geração perdida vai marchar alegremente pela democracia liberal?

Mas os desastres da economia não explicam tudo. Como lembra a revista Economist, que dedica ao assunto um artigo pungente, é a meio dos nossos 20 anos que os valores individuais se cristalizam. A pergunta é óbvia: quais serão os valores desses fantasmagóricos millennials? Não falo apenas de “estilos de vida”, como “viver o presente como se não houvesse amanhã” ou “poupar para o futuro incerto” (estudo recente, nos Estados Unidos, informa que os millennials massacrados pela crise financeira de 2008 se dividiam entre esses dois grupos). Falo de valores políticos, ou seja, democráticos: será que a nova geração perdida vai marchar alegremente pela democracia liberal?

É cedo para dizer. Mas um dos melhores estudos que conheço sobre a relação entre os mais jovens e a democracia (Youth and Populist Wave, de Roberto Foa e Yascha Mounk) permite levantar um pouco o véu. Sim, que existe um desencanto com a democracia liberal em todos os grupos etários, vertido em abstenção eleitoral, fraca militância partidária e desconfiança nas instituições, é certo e sabido. Mas o ponto de Foa e Mounk é que esse desencanto é bastante mais acelerado entre os jovens. Quão essencial é para eles viver em democracia?

Numa escala de um (nada essencial) a dez (totalmente essencial), 72% dos jovens americanos nascidos antes da Segunda Guerra escolhiam a nota máxima. Mais de metade dos europeus da mesma época também. Entre os millennials, só um terço imita os antepassados. Razão para alarme?

Calma: existe uma diferença entre “apatia” e “antipatia” democráticas, avisam os autores. Uma coisa é não ter interesse pela democracia liberal; outra é desejar derrubá-la. Em 2018, data do estudo, Foa e Mounk ainda viam um cenário misto, nebuloso, onde apáticos e antipáticos se misturavam. Nas eleições americanas de 2016, por exemplo, só metade dos eleitores com menos de 30 anos se deram ao trabalho de ir votar.

Mas na Europa, comme d'habitude, a antipatia era maior. Em 2017, nas eleições presidenciais francesas, metade dos millennials se dividiu entre a extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon e a extrema-direita de Marine Le Pen (em 2012, os millennials votaram maciçamente na centro-esquerda de François Hollande).

Aquilo que as democracias liberais fizerem no futuro próximo para salvar a nova geração perdida vai determinar a sobrevivência do regime democrático no futuro médio

Eu sei: é fácil condenar esses flertes juvenis com o extremismo. E a tese da ignorância é a primeira carta a ser jogada pelos moralistas: como sempre viveram em democracia, esses meninos birrentos nem sonham como ela é preciosa. Pior: alguns olham para a ditadura com olhos benevolentes. Ainda que isso seja verdade, também é preciso lembrar que os meninos birrentos têm vidas de privação econômica, salários baixos (ou inexistentes) e dívida permanente, ao contrário dos seus pais. Será que isso faz do parceiro um bom democrata?

A essa eu respondo: nunca fez e a história ensina. Hitler, antes de conquistar o Estado, conquistou primeiro os estudantes. Lênin, nascido há precisamente 150 anos (uma efeméride ignorada; bom sinal), fez do partido bolchevique o partido dos mais jovens.

Não sou economista. Não sei como sair da recessão brutal que a pandemia vai provocar. Muito menos como inverter o medíocre crescimento econômico que o Ocidente experimentou nas últimas décadas. Mas sei que aquilo que as democracias liberais fizerem no futuro próximo para salvar a nova geração perdida vai determinar a sobrevivência do regime democrático no futuro médio.

As gerações perdidas, uma vez perdidas, nunca perdoaram.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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