Edifícios da Universidade Harvard.
Edifícios da Universidade Harvard.| Foto: David Mark/Pixabay

Faço tudo pelos meus filhos, escuto com regularidade. Sério? Até cometer um crime? Por exemplo, subornando alguém para que eles façam os seus estudos em Harvard, Princeton ou Yale sem terem as respectivas competências para isso?

A pergunta é formulada pelo documentário Operação Varsity Blues, na Netflix. O escândalo rebentou três anos atrás e eu fui acompanhando o folhetim: Rick Singer, um consultor universitário, por assim dizer, recebia fortunas de famílias ricas para subornar os departamentos de admissões de algumas das melhores universidades americanas. O modus operandi era quase sempre o mesmo: os filhos eram apresentados como atletas, mesmo que nunca tivessem praticado a modalidade em questão. Depois, os treinadores das universidades eram devidamente corrompidos para abrirem as portas dos templos. As portas laterais, entenda-se. Como afirma Rick a certa altura, as portas dos fundos são dez vezes mais caras, normalmente sob a forma de doações, digamos assim.

“Fazer tudo pelos filhos” pode ser uma forma perversa de viver a vida através deles

O documentário, que segue as transcrições dos grampos da investigação do FBI, é um belo retrato sobre a parentalidade moderna, especialmente entre as classes altas (as classes médias pensam da mesma forma, mas não têm os meios). E então percebemos como a expressão “faço tudo pelos meus filhos” é, muitas vezes, “faço tudo por mim”.

A educação das crianças não é a prioridade. A prioridade, nesses tempos de “consumo discreto” – expressão da socióloga Elizabeth Currid-Halkett, em contraposição ao “consumo conspícuo” de que falava Thorstein Veblen 100 anos atrás –, é atingir o prestígio que só as coisas difíceis e imateriais realmente oferecem. De que vale ter uma casa com 20 quartos e três piscinas quando o símbolo máximo da distinção é ter os filhos em Stanford?

Vaidade, tudo é vaidade. Sobretudo quando, para muitos desses pais, a carreira universitária dos filhos é só uma forma de eles terem a carreira universitária que não conseguiram.

“Fazer tudo pelos filhos” é, perversamente, viver a vida através deles, mesmo que isso implique uma tão clamorosa falta de fé nas suas capacidades e méritos pessoais. Não admira que, para a maioria dos pais envolvidos no escândalo, a principal preocupação não fosse a ilegalidade do esquema – mas a certeza de que os filhos não saberiam de nada.

Eis um bom princípio: da próxima vez que você sentir a tentação de fazer tudo pelos filhos, medite primeiro se eles ficariam envergonhados com as suas ações.

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O Reino Unido tem uma nova nota de £ 50 pronta para circular no país a partir de junho. O rosto que lá aparece é de Alan Turing.

Superficialmente, nada mais banal: Turing foi um dos grandes cientistas ingleses do século 20, a quem devemos avanços notáveis na computação e na inteligência artificial. Mas Turing contribuiu igualmente para decodificar as mensagens militares alemãs, até então indecifráveis, durante a Segunda Guerra Mundial. Se Hitler não venceu o conflito, foi também pelo esforço e pela inteligência de Turing e do restante de sua equipe em Bletchley Park.

Ver o rosto de Alan Turing na nova nota de £ 50 não é coisa menor. É um gesto civilizacional

Fatalmente, os ingleses não souberam honrar a grandeza de Alan Turing: depois da guerra, condenaram-no por “indecência grosseira”, ou seja, por homossexualidade. A pena aplicada, importada da Idade Média, foram 12 meses de terapia hormonal. Turing acabaria por morrer em 1954 e os seus biógrafos não excluem o suicídio. É por isso que ver o rosto de Turing na nova nota de £ 50 não é coisa menor. É um gesto civilizacional.

Bem sei que, de acordo com a moda do tempo, a cultura ocidental é um longo cortejo de barbáries que continua a desfilar pelo nosso presente. E não existe nenhuma forma de redenção para os crimes dos nossos pais e avós. É uma forma estreita e ignorante de ver as coisas. Como afirmava o filósofo francês Pascal Bruckner, aquilo que distingue o Ocidente não é a produção de horrores históricos. Todas as civilizações têm esse privilégio. Porém, o que parece único no Ocidente é a capacidade crítica de derrotar os seus próprios monstros. A Inquisição teve o seu Iluminismo. A escravidão teve o abolicionismo. As tiranias totalitárias tiveram a democracia liberal.

E a crueldade contra Alan Turing tem agora uma nota de £ 50 que seria impensável em outras latitudes.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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