i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

João Pereira Coutinho

Foto de perfil de João Pereira Coutinho
Ver perfil

Estados críticos

  • João Pereira CoutinhoPor João Pereira Coutinho
  • 26/01/2021 00:01
Com máscaras de proteção, público compareceu ao Grande Prêmio de Portugal no dia 25 de outubro de 2020.
Com máscaras de proteção, público compareceu ao Grande Prêmio de Portugal no dia 25 de outubro de 2020.| Foto: AFP

Amigos brasileiros enviam mensagens. Que se passa com Portugal? No início da pandemia, o país era um exemplo para o mundo. Agora, é uma vergonha. Somos o pior país em número de infectados e mortos por milhão de habitantes.

Entendo o espanto. Mas ele parte de uma premissa errada: Portugal nunca foi um exemplo, exceto na retórica dos seus políticos e no jornalismo acrítico que a divulgou. A situação atual é apenas o somatório de todos os erros cometidos nos últimos 11 meses. Falhou tudo. Testes, rastreios, isolamentos. O sistema de saúde não foi reforçado em tempo útil com o setor social e privado. Não houve preparação para a segunda onda que todos os cientistas avisaram que chegaria em outubro. E a demora na vacinação põe o país abaixo da média europeia.

Sem falar do comportamento errático das lideranças sanitárias e políticas. As primeiras, quando ouviram falar do vírus, garantiram que ele jamais chegaria até nós. Depois, quando chegou, garantiram que o uso de máscaras não era necessário porque dava apenas “uma falsa sensação de segurança”. O governo esteve ao mesmo nível: proibia ajuntamentos para o cidadão comum e abria exceções para congressos partidários ou corridas de Fórmula 1.

O Estado é fundamental, sim, e nenhum liberal o nega. Mas é preciso que ele seja profissional e capaz

De resto, o cúmulo da incompetência está hoje à vista: no momento em que escrevo e com o país de novo confinado, há eleições presidenciais. Ninguém se lembrou de adiá-las, como aconteceu em vários países com surtos pandêmicos.

Eis a verdade: se os mortos por Covid-19 nos Estados Unidos já ultrapassaram as baixas militares da Guerra do Vietnã, os mortos portugueses também já suplantaram os soldados que tombaram na guerra colonial na África (1961-1974).

Meu único consolo é saber que, apesar de sermos o pior caso no momento, não estamos sozinhos. Se a pandemia mostrou algo, foi o brutal despreparo dos países ocidentais para lidar com o infame bicho. Um livro recente da dupla John Micklethwait e Adrian Wooldridge (The Wake-Up Call) faz esse diagnóstico com impressionante precisão. Segundo voz corrente, a pandemia humilhou os liberais ao salientar a importância do Estado para a saúde e para a economia.

Acontece que esse clichê está errado. O Estado é fundamental, sim, e nenhum liberal o nega. Mas é preciso que ele seja profissional e capaz. O que a pandemia revelou é que os Estados do Ocidente, ao contrário do que aconteceu com o Oriente no caso da Coreia do Sul ou de Cingapura (a China joga em outro campeonato), não foram capazes de cumprir a sua função essencial: proteger a população. Nesse sentido, a Covid-19 apenas acelerou uma “crise do Estado” que já vinha de trás e que, cedo ou tarde, seria exposta de forma tão cruel.

Para os autores, essa crise tem várias causas – o desinteresse dos mais preparados pela política, que abre espaço para o triunfo dos medíocres; a burocracia crescente que impede qualquer ação eficaz em tempo útil; a captura do Estado por lobbies diversos que o parasitam e sugam. Mas o Estado também entrou em crise à medida que foi sendo sobrecarregado com todas as tarefas da nossa vida política e social – das mais soberanas às mais minúsculas. Resultado? O vírus deu a volta ao mundo enquanto os nossos Estados paquidérmicos ainda calçavam os sapatos (obrigado, Mark Twain).

Ninguém sabe como será o futuro pós-pandemia. Historicamente, e como lembram Micklethwait e Wooldridge, surtos do tipo já determinaram o fim de grandes civilizações, como Atenas ou Roma. Para evitar um destino igual, reinventar o Estado para o século 21 é tão importante como foi a criação do Estado-nação para os séculos 16 e 17 (que pôs fim à rivalidade destrutiva do baronato medieval); do Estado liberal para os séculos 18 e 19 (que limitou ou aboliu o poder absoluto dos reis); e do Estado de bem-estar social para o século 20 (que resgatou da pobreza os eternos “invisíveis” da sociedade).

A pandemia mostrou a necessidade de Estados mais ágeis, mais profissionais, capazes de atrair os melhores (e afastar os piores), centrados nas suas funções essenciais (defesa, justiça, saúde, educação), rigorosos nos gastos e em colaboração permanente com os casos de excelência da sociedade civil, das universidades e do setor privado. Se isso não acontecer, a trilha sonora que infelizmente acompanha os meus dias e as minhas noites – sirenes de ambulâncias cruzando as ruas de Lisboa – só aumentará de intensidade no futuro.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
6 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 6 ]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Política de Privacidade.

  • L

    Luciano

    26/01/2021 19:53:43

    Não tem fórmula mágica. Distanciamento social (que muitos confundem com lockdown), uso de máscara e vacina ainda fazem a melhor combinação.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • A

      André

      26/01/2021 18:59:10

      Perfeito. Foi um show de incompetência em Portugal e aqui no Brasil.

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

      • M

        Moacir Schmidt

        26/01/2021 18:07:35

        Feliz é a China, que está livre das amarras da democracia.

        Denunciar abuso

        A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

        Qual é o problema nesse comentário?

        Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

        Confira os Termos de Uso

        • W

          wilmar scoz

          26/01/2021 16:38:27

          Temos que ter mais liberdade e menos estado. A repressão do estado em nada ajudou. Não se combate vírus com repressão. Os países bem sucedidos foram os que mais respeitaram a liberdade individual. Interessante que países multiculturais, são os mais afetados. Por tanto não existe solução centralizada.

          Denunciar abuso

          A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

          Qual é o problema nesse comentário?

          Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

          Confira os Termos de Uso

          • A

            Alexandre

            26/01/2021 15:43:07

            Esse comentário foi removido pelo usuário

            Denunciar abuso

            A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

            Qual é o problema nesse comentário?

            Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

            Confira os Termos de Uso

            • C

              Correa

              26/01/2021 14:02:51

              Exato, o Estado, no Brasil principalmente, é, em primeiro lugar, uma usina de privilégios. Matou a justiça, expulsou os mais capzes. Estamos um beco sem saída.

              Denunciar abuso

              A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

              Qual é o problema nesse comentário?

              Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

              Confira os Termos de Uso

              Fim dos comentários.