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Bolsonaro defedende hidroxicloroquina e do tratamento precoce
Bolsonaro, em live de 2020, falando sobre a cloroquina.| Foto: Reprodução

1. Jair Bolsonaro anda obcecado com Portugal. Quase todos os dias há uma notícia em terras lusas sobre o amor do presidente pela santa terrinha.

Começou com uma acusação: “Eu vi um deboche de uma televisão portuguesa em cima da gente”, afirmou Bolsonaro. Tudo por causa da defesa da cloroquina e de outros fármacos sem comprovação científica contra a Covid-19. Agora, já vai em apocalipse: a crise e a inflação não existem apenas no Brasil. Em Portugal, os supermercados estão vazios e não há gasolina nos postos de combustível. “É a quinta pior crise em 150 anos”, disse Bolsonaro.

Não sei onde o presidente vai buscar essas informações. Imagino que seja sacanagem de um assessor, só para provocar um incidente diplomático entre os dois países. Mas posso repor a verdade?

Portugal foi o primeiro país do mundo a vacinar 85% da população. Isso não significa que não temos fãs da cloroquina ou negacionistas da Covid

Ninguém ri da paixão de Bolsonaro pela cloroquina. Na verdade, muitos choram, outros rezam e tem gente que chora e reza, ao mesmo tempo. Eu próprio, com meu espírito satânico, já experimentei em público fazer piada com o assunto, sobretudo quando vejo alguém tossindo nos cafés de Lisboa. “Deseja um pouco de cloroquina, minha senhora?” A reação é semelhante a um convite para práticas sadomasoquistas com um porco-espinho.

Não admira: Portugal foi o primeiro país do mundo a vacinar 85% da população. Isso não significa que não temos fãs da cloroquina ou negacionistas da Covid. Temos. Infelizmente, são tão raros que só as famílias mais ricas podem adotá-los para mostrar às visitas como espécies exóticas.

E o apocalipse? Bolsonaro tem alguma razão: a falta de certos alimentos tem levado alguns patrícios a trocar a coxa de galinha por um equivalente humano. Mas o canibalismo não é prática geral e, em certos mercados, ainda é possível comprar um vira-lata por bom preço. O problema é que esses mercados ficam longe e, perante a escassez de combustível, só quem tem cavalo ou jumento pode sonhar com certos pratos. Muitos não chegam ao seu destino e, vencidos pela fome, acabam comendo o cavalo (ou o jumento).

De resto, só uma notícia envolvendo Jair Bolsonaro foi comentada em Portugal com alguma insistência: as piadas de cariz sexual e as referências jocosas aos lusitanos que Bolsonaro terá expelido quando recebeu Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, em agosto passado.

Posso assegurar que ninguém ficou ofendido. Nem o nosso presidente. Pelo contrário: depois desse encontro, Marcelo Rebelo de Sousa discursou na ONU e exigiu um lugar permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da organização. A ideia, segundo fontes ouvidas pelo cronista, é que a partir de 2022 o próprio Bolsonaro esteja permanentemente em Nova York, desempenhando um papel mais adequado aos seus talentos: divertir a diplomacia internacional, que bem precisa relaxar um pouco.

Ninguém ri da paixão de Bolsonaro pela cloroquina

2. Depois da entrega dos prêmios Nobel, um psicólogo do King’s College de Londres formulou uma pergunta em um artigo para o site UnHerd: “Será que o inventor da lobotomia deve ser removido da lista de premiados com o Nobel de Medicina?”

Aconteceu em 1949: o português Egas Moniz (1874-1955) inventou o procedimento. Outros usaram e abusaram dele no tratamento de doenças psiquiátricas. Os resultados foram sinistros, exceto para quem gosta da série The Walking Dead.

O autor do artigo, Stuart Ritchie, reconhece duas coisas, porém. Primeiro, que Egas Moniz não inventou apenas a lobotomia; a sua angiografia cerebral, uma espécie de raio-x aos vasos sanguíneos do cérebro que ainda hoje é usada, foi provavelmente a contribuição mais importante do médico luso para a ciência (e merecedora do Nobel).

Por outro lado, a história da medicina é um cortejo de horrores: procedimentos revolucionários para uma época podem ser vistos como aberrantes na época seguinte. Como exigir de um homem nascido no século 19 que ele tivesse o grau de conhecimento técnico e científico que existe no século 21?

Claro que, em certos casos, o problema é o inverso: homens do século 21 que, na hora do tratamento médico, continuam no século 19. Resta a consolação de saber que é bastante improvável que a Academia Sueca acabe premiando Bolsonaro e a defesa da cloroquina.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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