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O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, após uma reunião de líderes da União Europeia em Bruxelas.
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, após uma reunião de líderes da União Europeia em Bruxelas.| Foto: EFE/EPA/Olivier Matthys/Pool

1. “Sexo, não, por favor: somos britânicos.” Nunca acreditei nessa piada. Basta olhar para a política: são incontáveis os premiês e ministros que conheceram a desgraça por causa da alcova. Piores, só os franceses. O último dessa linhagem é Matt Hancock, ministro da Saúde, que apresentou a sua demissão por ter sido filmado a beijar a assistente, com quem mantém um affair.

Hancock é casado. Mas a demissão não se explica por razões pessoais ou morais. Apenas por razões sanitárias, o que permite contemplar melhor o espírito do nosso tempo. No dia 3 de maio, data do beijo, uma das regras impostas pelo Ministério da Saúde era manter o “distanciamento social” com pessoas que não são da família. Essa regra só seria revogada a 17 de maio. Se Hancock tivesse aguentado mais 14 dias sem tocar na amante, optando por uma dieta de abstinência e duchas frias, nenhum problema. Mas o ministro não suportou a carência.

Longe de mim defender Matt Hancock: na luta contra a Covid, o ministro sempre teve um prazer perverso em impor aos outros regras tirânicas e proibições absurdas que, vemos agora, ele era o primeiro a violar. Mas, por outro lado, como não rir? Na minha inocência, eu julgava que a ideia de ter uma amante era incompatível com noções de “distanciamento social”. Aliás, em certos casos, a amante serve, precisamente, para superar o “distanciamento social” que existe dentro de casa.

São incontáveis os premiês e ministros que conheceram a desgraça por causa da alcova

Mas talvez eu esteja errado – e, em tempos de Covid, seja expectável que os amantes usem máscara, se mantenham a dois metros um do outro e possam lavar as mãos apaixonadamente, cada um em seu lavatório, até caírem exaustos de prazer.

2. Viktor Orbán, premiê húngaro, incendiou a Europa com uma lei que proíbe a divulgação, entre menores de 18 anos, de conteúdos relacionados com a identidade de gênero, a mudança de sexo e a homossexualidade. A medida foi apresentada como “conservadora” pelos críticos, que denunciam o clima de homofobia e de ataque à liberdade de expressão que reina ali.

Peço desculpa aos críticos, mas a medida não é “conservadora”, exceto para quem não entende o significado filosófico de certas palavras. Qualquer conservador sabe que, em matéria educativa, cabe aos pais, e não ao Estado, decidir o que as crianças podem ou não consumir. Isso é válido para a cultura pop; para as matérias religiosas ou morais ensinadas na escola; e para qualquer outro assunto em que a educação dos filhos esteja em causa.

A lei de Orbán expressa uma ansiedade embaraçosa para um macho que se preze

A medida de Orbán é, quando muito, anticonservadora. É jacobina, autoritária e centralista. A função de um conservador é ordenar ao Estado que se retire de matérias parentais. Mas é mais que isso: como escreve William Nattrass na Spiked, a Hungria está preocupada com o seu declínio demográfico. Hoje, tem 9,7 milhões de habitantes. Mas pode chegar a 2050 com 8,5 milhões.

O governo entende que uma das formas de reverter a tendência é pela supressão, no espaço público, dos temas LGBTQIA+. Pessoalmente, não conheço nenhum heterossexual que tenha deixado de fazer filhos porque assistiu a O Segredo de Brokeback Mountain. Também não conheço nenhum heterossexual que tenha cortado a sua protuberância depois de ler as memórias de Caitlyn Jenner.

A lei de Orbán expressa uma ansiedade heterossexual bastante embaraçosa para um macho que se preze. Quem está confortável com a sua identidade sexual não se sente ameaçado com a vida privada dos outros.

3. Um dos grandes fenômenos do nosso tempo é a forma como o capitalismo vai parasitando causas da moda para fazer o que melhor sabe: dinheiro. Em agosto, Vivek Ramaswamy vai publicar um livro (Woke, Inc: Inside Corporate America's Social Justice Scam) em que conta com detalhes essa farsa.

Mas, pela entrevista ao Wall Street Journal, a tese promete: depois da crise financeira de 2008, o capitalismo tinha de encontrar uma forma para se relegitimar aos olhos do público. A wokeness foi a salvação: mostrando preocupações sociais/raciais/identitárias, as grandes corporações puderam tocar os negócios com um novo halo de santidade.

Agora, chegou a vez de a Victoria’s Secret, a famosa grife de lingerie que deixará de ter os seus “anjos”. Haverá apenas mulheres “normais”, de preferência ativistas, e com moderado sex appeal. Os otários, de esquerda ou de direita, afirmam que é uma vitória do feminismo ou do politicamente correto, consoante os casos. Talvez seja. Mas é, antes de tudo, uma vitória do dólar sobre os otários.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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