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Amanda Gorman lê seu poema The Hill we Climb durante a cerimônia de posse de Joe Biden
Amanda Gorman lê seu poema The Hill we Climb durante a cerimônia de posse de Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021.| Foto: Alex Wong/Getty Images North America/AFP

Da primeira vez que li sobre o assunto, sorri. Quando o assunto voltou a aparecer, ri alto e depois fiquei em silêncio, pensativo, como quem contempla as ruínas de uma civilização. O caso é anedótico, ou parece: Amanda Gorman foi a jovem poeta negra que leu o seu The Hill We Climb na tomada de posse de Joe Biden. Mas, na hora de contratar tradutores para a sua obra na Holanda e na Espanha, os primeiros escolhidos foram logo “cancelados”.

Na Holanda, a tradutora seria Marieke Lucas Rijneveld, vencedora do Booker Internacional em 2020. Quando se soube do nome, uma jornalista e ativista negra iniciou as hostilidades contra a escolha. Segundo parece, Marieke é uma autora branca; e uma autora branca, pelos vistos, não pode traduzir o poema de uma jovem negra.

Eis o meu primeiro sorriso: tivesse esse ativismo começado mais cedo e jamais escritores negros como James Baldwin ou Ralph Ellison teriam conhecido leitores fora dos Estados Unidos. No caso de Baldwin, por exemplo, não teria havido uma Marguerite Yourcenar para o traduzir e divulgar.

Os ativistas que se julgam donos de Amanda Gorman conhecem o conteúdo do poema? Será que o leram? Não parece. O cancelamento de dois tradutores pelo simples fato de terem a cor de pele errada é a negação da mensagem da obra

Mas, depois do sorriso, veio a gargalhada e a melancolia: na Espanha, Victor Obiols, um conhecido tradutor catalão, foi contratado pela editora Univers para fazer o trabalho. Pouco depois, foi desconvidado. Imagino que, além de não ser negro, também não era mulher.

Moral da história? Hoje, o espírito da “diversidade” é haver sempre um sósia de nós próprios. Ou, no caso de Amanda Gorman, é haver uma mulher jovem, negra, ativista e talvez americana para fazer a tradução.

Confrontado com o fato, o tradutor espanhol perguntou: se assim é com Amanda, será que só um grego do século 9.º a.C. vai poder traduzir Homero? Só um inglês do século 16 pode traduzir Shakespeare? Em caso afirmativo, prevejo dificuldades nesse quesito. Mas prevejo mais: o mundo desumano que esse pensamento exclusivista defende.

Para começar, é um pensamento exclusivista que atraiçoa o próprio poema. Não tinha ainda prestado atenção às palavras de Amanda Gorman. Fui lê-las agora com os óculos postos. Para minha surpresa, o poema defende um novo país que seja uma união “comprometida com todas as culturas/ cores, personagens e/ condições”. Só assim será possível pôr “nossas diferenças de lado” e ultrapassar o ódio que prometia “quebrar nossa nação” (referência ao assalto do Capitólio, que aliás inspirou os versos).

Será que os ativistas que se julgam donos de Amanda Gorman conhecem o conteúdo do poema? Será que o leram? Não parece. O cancelamento de dois tradutores pelo simples fato de terem a cor de pele errada é a negação da mensagem da obra. Mas é também uma negação mais profunda: a da nossa comum humanidade.

Como lembrava o filósofo Adam Smith na sua “Teoria dos Sentimentos Morais”, aquilo que nos torna humanos é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Para usar as palavras de Smith, é através dessa “simpatia” que somos capazes de imaginar as alegrias e os sofrimentos dos nossos semelhantes. A moralidade procede daqui: se somos capazes de imaginar as provações dos outros, temos obrigação de as evitar. Porque, em certo sentido, nós somos eles.

O filósofo tinha razão – e a história só lhe deu ainda mais razão. O tirano pode ser de esquerda ou direita. Mas a sua primeira atitude é tentar impedir que os seus asseclas se coloquem no lugar dos outros. Pelo contrário: os outros são reduzidos a uma condição sub-humana, como se não pertencessem à mesma espécie.

Azar: para existir justiça, seja racial ou qualquer outra, tem de existir primeiro essa empatia mínima. Mas uma parte do ativismo contemporâneo recusa qualquer possibilidade de empatia. E até tem uma expressão para quem se coloca no lugar do outro: “apropriação cultural”.

O mundo que esse ativismo deseja é um mundo autorreferencial, onde cada um está fechado na sua bolha, falando para um espelho, e onde ninguém entende realmente ninguém. É um mundo onde não pode existir justiça porque a possibilidade de ligação aos outros, aos seus dramas ou aspirações, foi cortada pela raiz.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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