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Exposição fotográfica “Olhe nos olhos de Donbass”, em São Petersburgo, na Rússia
Exposição fotográfica “Olhe nos olhos de Donbass”, em São Petersburgo, na Rússia| Foto: EFE/EPA/ANATOLY MALTSEV

A Batalha de Donbass, iniciada na segunda-feira (18), deve colocar em confronto cerca de 170 mil combatentes na região leste da Ucrânia. Se os números se concretizarem, esse pode ser o maior enfrentamento militar do século XXI. Com mais de 130 mil militares, a vantagem da Rússia deve ser de três para um, segundo afirmou à coluna o general de divisão ucraniano Andrii Kozhemiakin, do batalhão Mriya, de Kiev.

O início da batalha foi anunciado na noite de segunda-feira pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e confirmado na terça-feira (19) pelo chanceler russo, Sergei Lavrov.

Só na primeira noite de confrontos, a Rússia afirmou ter bombardeado mais de mil alvos. O governo da Ucrânia disse que confrontos aconteceram ao longo dos 480 quilômetros que formam a linha de contato entre forças russas e ucranianas no leste do país. Já no primeiro dia, o exército russo tomou a cidade de Kreminna, na região de Lugansk.

O objetivo de Moscou com a ofensiva é tomar toda a região de Lugansk e Donestsk, que havia sido parcialmente ocupada por separatistas russos no ano de 2014. Simultaneamente, os russos tentam capturar a cidade de Mariupol, no litoral sudeste da Ucrânia.

Se o Kremlin consolidar esses objetivos, terá em suas mãos a região mais rica em reservas de gás natural e carvão da Ucrânia e também um corredor terrestre ligando o território russo à Crimeia (ocupada pela Rússia em 2014). Sem o porto de Mariupol, a Ucrânia também terá sua capacidade de exportar grãos e aço reduzida significativamente.

Analistas estimam que, se essas conquistas se concretizarem, o presidente russo Vladimir Putin pode justificar a guerra na Ucrânia no dia 9 de maio, quando o país comemora a vitória na Segunda Guerra Mundial com um grande evento cívico.

Como deve ser a estratégia russa?

A Ucrânia tem cerca de 40 mil militares na frente leste. Entre eles, estão as unidades mais experientes e bem equipadas do país. Parte desses militares tem participado da luta contra os russos desde 2014, quando separatistas apoiados por Moscou tomaram parte das províncias de Donetsk e Lugansk.

Hoje, a linha de contato entre tropas russas e ucranianas nessa região, conhecida como Donbass, está altamente fortificada com trincheiras, barricadas, blindados e artilharia posicionados em posições estratégicas, além de campos minados e armadilhas. Essas posições se estendem por cerca de 480 quilômetros e abarcam cidades como Sievierodonetsk, Lysychansk, Popasna, Rubizhne e Novodruzhesk.

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A estratégia da Rússia deve ser atacar toda essa linha de contato e, em paralelo, usar outras unidades militares para tentar desviar dessas fortificações e atacá-las pela retaguarda. A ideia é conquistar cidades como Slaviansk e Kramatorsk, que ficam a oeste da linha de contato, para completar uma manobra militar conhecida como “pinça”. Ou seja, o objetivo seria isolar as principais forças ucranianas no leste e impedir que elas recebam reforços, munição e mantimentos. Se isso ocorrer, as chances da Rússia completar a anexação de Donbass ficam muito mais altas.

Depois da tomada pelos russos da cidade de Kreminna, próxima a Sievierodonetsk, na linha de contato entre os dois exércitos, os ucranianos tentaram lançar contra-ataques. Eles afirmam ter retomado a cidade de Maryinka, próximo de Donetsk.

A Batalha de Donbass deve assumir contornos um pouco diferentes da Batalha de Kiev, que marcou o início da guerra. Para tentar tomar a capital ucraniana, os russos se aproximaram por duas rodovias principais a partir de Belarus. Uma grande quantidade de equipamento militar acabou presa no “congestionamento”.

A Rússia não conseguiu avançar pela área rural com seus equipamentos pesados, devido à presença de florestas e áreas alagadas. Os principais confrontos ocorreram quando colunas de veículos russos entraram em cidades nos subúrbios de Kiev e foram emboscadas pelas forças ucranianas. Moscou então decidiu retirar suas tropas da área e focar na operação terrestre no leste do país.

Já a região de Donbass é formada por grandes planícies e as condições climáticas - especialmente o solo mais seco - já permitem o avanço das tropas russas em campo aberto. Isso aumenta a possibilidade de grandes unidades russas e ucranianas se encontrarem em campo aberto e travarem batalhas marcadas pelo uso de carros de combate, artilharia e aviação.

Porém, isso não significa que o conflito a partir de agora será totalmente rural. Para tomar a região e estabelecer linhas de suprimento logístico, Moscou terá que conquistar grandes entroncamentos rodoviários e ferroviários. A maioria deles está em cidades de médio e pequeno porte da região, segundo o analista militar Alessandro Visacro, autor dos livros “Guerra Irregular” e “A Guerra na Era da Informação” (Editora Contexto).

A luta nesses ambientes urbanos deve dar uma vantagem para os defensores. Em linhas gerais, em campo aberto são necessários três atacantes para vencer um defensor. Nas cidades, a relação é de seis para um. Mas não podemos levar essa regra ao pé da letra, pois nessa conta devem entrar também fatores como tecnologia, disponibilidade de equipamentos militares e a existência de linhas de suprimento eficientes.

A Rússia é superior à Ucrânia em tudo isso, mas o desequilíbrio inicial vem sendo amenizado pelo envio de bilhões de dólares em equipamentos e tecnologia militar das potências ocidentais para Kiev.

Para tentar evitar isso, Moscou tem bombardeado ferrovias e linhas de suprimento ucranianas. Se as tropas que defendem o leste do país tiverem suas redes logísticas cortadas, será questão de tempo até a Rússia capturar a região de Donbass.

Mas, segundo o general Kozhemiakin, da Ucrânia, outro fator tem que ser levado em conta: a resistência na cidade portuária de Mariupol, que fica no sul de Donbass. Ele disse a este colunista que, quanto mais tempo a cidade resistir, mais difícil será para a Rússia avançar para tomar o resto de Lugansk e Donetsk. Isso porque Moscou tem que manter um grande número de tropas atuando em Mariupol e, enquanto elas estiverem empenhadas em tomar o porto estratégico, não poderão participar da ofensiva quilômetros mais ao norte.

Há dias a Rússia vem afirmando que Mariupol já está sob seu controle, mas, segundo a Ucrânia, tropas do país continuam resistindo na região da fábrica de aço de Azovstal - uma estrutura construída na era soviética para suportar bombardeios.

A região está totalmente isolada, por isso não é possível para os ucranianos receberem reforços, suprimentos ou mesmo se retirarem da região. Eles já negaram ao menos três oportunidades de rendição oferecidas pelos russos. Para analistas militares, porém, isso será inevitável mais cedo ou mais tarde.

Analistas militares têm opiniões divididas sobre a velocidade dos desdobramentos da Batalha de Donbass. Alguns dizem que a Rússia pode realizar uma guerra de movimento e tomar rapidamente grandes áreas. Outros apontam que dificuldades similares às enfrentadas no cerco de Kiev podem se repetir nas fileiras russas e o confronto se transformar em uma guerra de atrito - quando se usa muita violência e poder de fogo para conquistar apenas pequenas partes do terreno.

A resposta para essa questão deve determinar o andamento não só da Batalha de Donbass, mas de toda a guerra na Ucrânia.

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