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As viúvas da chamada “terceira via” estão inconformadas com o descarte do governador gaúcho, Eduardo Leite, e a opção do PSD pelo ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que renunciou ao cargo para se viabilizar como candidato à Presidência nas eleições de outubro.
Num vídeo publicado nas redes sociais, o próprio Leite se declarou “desencantado” com a escolha e reforçou sua crença de que “existe espaço” no país para “um centro liberal, democrático de verdade, com compromisso com a conciliação”. Ainda assim, afirmou que não vai questionara decisão partidária, anunciada na semana passada.
Embora já houvesse sinais claros de que Leite dificilmente seria o escolhido, mesmo depois de o governador do Paraná, Ratinho Junior, desistir de disputar a indicação do partido, ele e seus apoiadores alimentavam a esperança de que seu nome fosse prevalecer. E, diante da frustração, sua tropa de choque – sim, ela existe! – voltou sua artilharia contra contra o presidente da legenda, Gilberto Kassab, ex-secretário de Governo e Relações Institucionais do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apontado como o grande responsável pela decisão.
Os integrantes do grupo – um guarda-chuva político que abriga remanescentes do tucanato, ex-tucanos, o tal “centro democrático”, os autodenominados “liberais progressistas” e a centro-esquerda de forma geral – não são dados à magia negra. Mas, se fossem, provavelmente já estariam fazendo bruxarias de todos os tipos contra o líder do PSD, considerado até por seus adversários como um dos maiores estrategistas políticos do país.
“Foi gravíssimo o que Kassab fez”, disse um dos adeptos de sua candidatura em publicação nas redes sociais, simbolizando o sentimento predominante no grupo. “As consequências vêm depois. E virão”, acrescentou, sugerindo que a “vendeta” ao suposto “ato de traição” está contratada e mais dia, menos dia, será executada.
Linha auxiliar
Na visão desse pessoal, Leite seria “a novidade”, “o futuro”. Iria representar uma corrente que até agora não tem concorrentes e seria uma opção viável à polarização entre o lulopetismo e o bolsonarismo. Para eles, a “terceira via” só é legítima se rezar pela cartilha da social-democracia. Por isso, rejeitam Caiado, que não tem vergonha de se assumir como candidato de direita e defende a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos condenados pelo 8 de janeiro.
Em seus devaneios, apoiadores de Leite chegaram a dizer que Caiado vai ser “linha auxiliar do bolsonarismo”; que ele vai desempenhar para Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL ao Planalto, o papel que o Padre Kelmon representou para seu pai em 2022, como representante do PTB na disputa.
Eles ignoram que o ex-governador goiano, ex-senador e ex-deputado federal é um político tarimbado, que deixou o posto com aprovação recorde, e não um desconhecido que apareceu de forma oportunista na última hora. Tem forte apoio no agronegócio e um compromisso com a implementação de uma política de segurança pública dura, como quer a maioria da população, segundo as pesquisas.
Como Romeu Zema, ex-governador de Minas que também renunciou ao cargo para articular sua candidatura à Presidência pelo Novo, Caiado tem possibilidades de angariar parte dos votos da direita e da centro-direita entre os eleitores que resistem a apoiar um candidato do clã Bolsonaro. Leite, ao contrário, dificilmente conquistaria votos dessa turma. Também não tiraria votos da esquerda no presidente Lula, com sua proposta considerada “neoliberal” pelos petistas. Foi até vaiado outro dia ao participar de um evento com Lula no Rio Grande do Sul.
Para o bem ou para o mal, não é isso que os eleitores parecem querer no momento. Nem a direita e a centro-direita, bolsonarista ou não, quer negociar com Lula, o PT e seus aliados. Tampouco o lulopetismo quer conversa com a direita.
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Milei "radical"
Hoje, os liberais estão minguando no mundo todo ou em boa parte dele, inclusive no Brasil. Caberiam numa Kombi ou no máximo num micro-ônibus, embora acreditem que tenham uma força que não têm; que são capazes de lotar a Avenida Paulista de ponta a ponta com seus apoiadores.
O único grande representante dos liberais hoje no poder é o presidente da Argentina Javier Milei, o primeiro mandatário com ideias libertárias a se eleger para a presidência de um país em todos os tempos – ironicamente rechaçado por Leite e seus apoiadores como “radical”.
Neste contexto, não há alternativa para os liberais, os “isentões”, os representantes do chamado “centro democrático” e a centro-esquerda a não ser definir qual é “o mal menor” e aderir a um dos polos do espectro ideológico, para tentar influenciar suas ações como for possível.
Kassab, como um dos políticos mais antenados do país, sabe que os ventos hoje sopram para a direita. A social-democracia pode ter certo apoio na Faria Lima, na academia e nas redações, ainda que minoritário, em comparação com a esquerda e a extrema-esquerda, mas não tem força nas urnas. Não por acaso, o PSDB, que já foi o grande partido de centro-esquerda brasileiro, praticamente desapareceu do mapa político do país.
Perdeu quatro eleições seguidas para o PT, de 2002 a 2014, quando era a única opção à hegemonia petista. Depois, em 2018, aliou-se no segundo turno a Fernando Haddad, candidato do PT ao Planalto quando Lula estava preso na Polícia Federal, em Curitiba. E, em 2022, FHC, “presidente de honra” da sigla, fez o L “pela democracia”, abrindo caminho para que o ex-governador paulista Geraldo Alckmin, que disputou duas eleições presidenciais pelo PSDB contra o PT, virasse o vice de Lula.
É verdade que, em 2022, antes de migrar para o PSD, Eduardo Leite esteve entre as lideranças do PSDB que não declararam apoio a Lula e preferiram engrossar o coro dos “isentões” no segundo turno. Mas, ao ficar em cima do muro, num momento em que qualquer voto era fundamental para impedir a volta do petismo ao poder depois da bandalheira do petrolão, acabou dando a sua contribuição, ainda que por vias indiretas, para a vitória de Lula.
Agora, não dá para negar também que Leite faz parte do grupo que, por ódio a Bolsonaro e a seu grupo político, “passou pano” para os abusos do ministro Alexandre de Moraes e de alguns de seus pares do STF nos últimos anos, em nome de uma alegada “defesa da democracia”.
Ele é contrário à anistia para Bolsonaro e para os condenados pela suposta tentativa de golpe de Estado. E quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquadrou Xandão e sua mulher Viviane Barci de Moraes na Lei Magnitsky, veio a público manifestar sua solidariedade a eles, sob a alegação de que era preciso defender as instituições do país.
Também não se uniu ao grupo de governadores da oposição que criaram o chamado “Consórcio da Paz”, para cooperação na área de segurança pública. Além disso, ainda é favorável à política de cotas no serviço público – que é contestada pela centro-direita e pela direita, que defendem a meritocracia – inclusive para pessoas trans.
Lobby estridente
Apesar de Kassab ter se separado do governador Tarcísio, que declarou apoio a Flávio Bolsonaro nas eleições, e de lançar candidato próprio do PSD à Presidência, seria ilusionismo imaginar que ele iria apoiar um projeto identificado com a centro-esquerda e a social-democracia no pleito de outubro. Ou, como alguns analistas bem cotados por aí chegaram a prever, que ele acabaria por apoiar a reeleição de Lula. Mesmo que Caiado não chegue ao segundo turno, a maioria do PSD provavelmente vai aderir ao frentão que se formará contra Lula em torno do nome da direita ou da centro-direita que disputará com ele o segundo turno do pleito.
Se Leite e seus apoiadores tinham tanta convicção de que “há espaço” para uma candidatura de centro-esquerda ou de falso centro, como se queira, deveriam ter convencido Leite a aceitar a oferta do PSDB, para participar da disputa por sua antiga sigla – proposta que ele rejeitou antes do fechamento da “janela partidária”, em 31 de março.
Se o ex-tucano tivesse aceitado o convite e mudado de partido para concorrer ao Planalto, talvez desta vez ele conseguisse mais do que os 4% obtidos no primeiro turno por Simone Tebet como candidata da “terceira via” em 2022, que depois fez o L e virou ministra do Planejamento em seu governo. Ou talvez, quem sabe, tivesse mais votos do que os 4,8% de Geraldo Alckmin e os minguados 1,2% de Henrique Meirelles e 1% de Marina Silva, em 2018, que depois também acabaram se unindo a Haddad, no segundo turno das eleições.
Kassab, com sua sabedoria e seu pragmatismo político, preferiu não pagar para ver, apesar do lobby estridente dos apoiadores de Leite – e não dá para recriminá-lo por sua decisão. Como uma espécie de Carlo Ancelotti, o técnico italiano da Seleção Brasileira e um dos maiores ganhadores de títulos internacionais em todos os tempos, Kassab sabe que não se escala um Zagallo, que atuava como um falso ponta-esquerda, para jogar de zagueiro num time de direita.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








