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Ainda não dá para a direita comemorar a queda dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), especialmente o segundo, seu maior algoz. Como diz uma velha máxima do futebol, “o jogo só termina quando o juiz apita”. Mas, com o aprofundamento das investigações sobre o Banco Master pela Polícia Federal, que sugerem o envolvimento de ambos em transações nebulosas com a instituição, já dá para dizer que a vitória está bem encaminhada.
No placar da percepção popular, é como se o primeiro tempo da partida tivesse terminado com uma sonora goleada contra a dupla. No segundo tempo, pode até ser que Xandão e Toffoli consigam reverter o resultado. Há precedentes de viradas do gênero na história. No caso deles, porém, parece difícil, muito difícil, isso acontecer. E, mesmo que consigam sobreviver e permanecer no Supremo, vão ganhar perdendo, como se diz por aí.
É certo que a presunção de inocência, o direito de defesa e o respeito aos ritos processuais – negados muitas vezes por Moraes ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a seus aliados mais próximos e aos envolvidos nos chamados “atos antidemocráticos” de 8 de janeiro, com apoio de Toffoli e da maioria de seus pares na corte – têm de ser garantidos aos dois.
Só que até agora sobram acusações vazias de “fake news” e de supostos “ataques” que estariam sendo desferidos contra o STF e seus ministros por seus críticos, mas faltam explicações convincentes sobre as relações duvidosas que eles mantinham com o Master e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do banco, apontadas pelas investigações da Polícia Federal.
A blindagem feita em nome de uma suposta 'defesa da democracia' foi para o vinagre, enquanto a ideia de que o STF 'tem de voltar ao seu quadrado', para o Brasil retornar aos trilhos democráticos, espalhou-se pela sociedade
Xandão ainda não explicou, por exemplo, o contrato de R$ 129 milhões que o Master mantinha com o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci, pela prestação de serviços que até hoje ninguém sabe quais eram. Pairam dúvidas também sobre as mensagens que ele teria trocado com Vorcaro pelo WhatsApp no dia da primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025.
Embora Xandão tenha negado o diálogo por meio de uma nota oficial do STF, a jornalista Malu Gaspar, do Globo, revelou, com base na perícia realizada pela PF no celular de Vorcaro, não só que o destinatário era um contato salvo como “Alexandre de Moraes”, mas também que as mensagens receberam respostas imediatas do número associado ao seu nome.
No caso de Toffoli, ainda há muitos questionamentos em torno da compra de uma participação familiar no Resort Tayayá, no Paraná, por um fundo ligado ao Master, cujo único cotista era o advogado Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, por cerca de R$ 20 milhões, além de repasses adicionais feitos ao empreendimento estimados em R$ 15 milhões.
Autopreservação
Além disso, é preciso considerar que Xandão e Toffoli têm o apoio de alguns de seus colegas do Supremo, como os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino, que costumam recorrer a todos os tipos de manobras processuais para favorecê-los.
Afinal, os eventuais tombos de Moraes e Toffoli vão representar a derrota geral do grupo, composto também por ministros menos vocais, que não levantam a arquibancada, mas prestam solidariedade a eles com seus votos, e abrir um precedente que poderá atingi-los mais à frente. No fim, o que acaba quase sempre prevalecendo é o espírito de corpo e de autopreservação da corte, que tem norteado a atuação dos ministros nos últimos anos.
Até o momento, também não há qualquer sinal de que o senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado, vá tirar da gaveta algum dos inúmeros pedidos de impeachment dos ministros feitos pelos parlamentares e finalmente colocá-los em votação. E não dá para garantir que a próxima legislatura, a ser eleita em outubro, irá levar a cabo o impeachment de ambos, mesmo que seja controlada pela direita e pela centro-direita, como se espera que aconteça, pelo que apontam as pesquisas e os prognósticos de políticos do grupo e até de seus adversários.
Mesmo assim, é possível dizer desde já, independentemente do desfecho dos casos de Xandão e Toffoli, que daqui para a frente nada será como antes. Eles podem não ter sido feridos de morte e talvez até consigam conter a hemorragia, mantendo-se no Supremo. Mas as sequelas deixadas pelo caso do Banco Master provavelmente vão comprometer de forma significativa suas ações e seus movimentos. Poderão comprometer ainda a própria credibilidade do STF como instituição, que, segundo muita gente boa por aí, já está no fundo do poço, se os seus aliados na corte continuarem a protegê-los como têm feito.
Bolha da direita
Talvez a maior evidência de que as quedas de Moraes e Toffoli podem estar próximas seja o fato que as críticas a eles e ao Supremo extrapolaram a bolha da direita, que bradava sozinha até agora contra os abusos da corte e de seus ministros quando o que estava em jogo era o destino de Bolsonaro e de seu grupo político.
Agora, com as decisões controversas que eles tomaram no caso do Master e as revelações sobre um possível envolvimento com Vorcaro em operações financeiras duvidosas e de tráfico de influência em Brasília, o chamado “centro democrático” e a centro-esquerda de plumagem tucana – que “passaram pano” para os “excessos” do Supremo até ontem ou anteontem, com apoio da chamada “imprensa profissional” – estão engrossando as críticas da direita.
Hoje, fora do lulopetismo e dos próprios integrantes do Supremo, os apupos a Xandão, Toffoli e a alguns de seus pares tornaram-se praticamente uma unanimidade. A blindagem feita em nome de uma suposta “defesa da democracia” foi para o vinagre, enquanto a ideia de que o STF “tem de voltar ao seu quadrado”, para o Brasil retornar aos trilhos democráticos, espalhou-se pela sociedade.
As nuvens ficaram tão carregadas que até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e algumas lideranças do PT, de acordo com o noticiário, estariam se dando conta de que, se continuarem abraçados a Xandão, Toffoli e à sua turma vão acabar afundando com eles. Provavelmente, é tarde demais para Lula e sua tropa de choque quererem manter uma distância oportunista dos ministros “amigos”. Mas a informação de que fissuras no consórcio PT-STF estão aparecendo no radar em pleno ano eleitoral é mais uma evidência dos estragos causados pelo escândalo do Master na imagem do Judiciário e do governo.
Mesmo o presidente do STF, Edson Fachin, incomodado com o impacto do caso na reputação do Supremo, decidiu propor a adoção de um código de ética pela instituição, para tentar conter os danos. No entanto, o código de Fachin, que restringiria a participação de ministros nos julgamentos de causas de empresas com as quais eles mantêm relações próximas e nas que envolverem clientes de suas mulheres e de seus parentes, enfrenta a oposição de alguns de seus colegas na corte e até agora não foi adiante.
Neste cenário, a ironia é que, depois de anos sob a artilharia da direita, os dois não estão na berlinda agora por causa das ações da oposição, mas pelos rastros comprometedores que eles próprios parecem ter deixado pelo caminho, como sugerem as investigações da PF sobre suas relações com Vorcaro e com o Master. De um jeito ou de outro, não faltam motivos agora para a direita já estar rindo à toa.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








