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José Fucs

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Narrativa

Flávio Bolsonaro: “fujão” ou “perseguido político”?

Candidato à Presidência deixou o país após reeleição de Lula.
Candidato à Presidência deixou o país após reeleição de Lula. (Foto: Antoni Belchi/EFE)

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Com sua escapada espetacular para os Estados Unidos na calada da noite de terça-feira passada, que deixou o ministro Alexandre de Moraes e a Polícia Federal no vácuo, tentando entender até agora como ele conseguiu passar incólume pelos controles de fronteira, Flávio Bolsonaro se tornou alvo de uma saraivada de críticas de seus adversários e até de alguns de seus aliados.

A onda de reprovação a Flávio – turbinada pelo presidente Lula, pelo PT, por sua tropa de choque e pelos isentões que posam de independentes, mas na hora h fazem o L “pela democracia”, com apoio da mídia amiga e militante – parecia produzida sob medida para desmoralizá-lo perante seu eleitorado, que acabava de lhe conferir quase 60 milhões de votos e tentava digerir o resultado adverso e inesperado nas urnas.

Seus opositores o chamaram de “fujão”, “amarelão”, “pipoqueiro”, “covarde” e que tais. Disseram que a viagem foi “uma fuga patética para os braços de Donald Trump”, presidente dos EUA, que lhe deu guarida, “uma evasão rocambolesca” e que ele “fez seus eleitores de palhaços”.

A narrativa propagada por aí, que varreu os veículos tradicionais de comunicação do país como um tsunami, parecia destinada também a abafar qualquer tentativa de mostrar que sua escapada foi um ato de autodefesa contra a perseguição e os abusos desferidos contra ele (e tantos outros representantes da direita) pelo ministro Alexandre de Moraes e pela Polícia Federal.

Como se sabe, apenas sete minutos depois de anunciado o resultado do pleito pelo TSE, a PF pediu e Xandão prontamente atendeu a demanda do órgão para impedir as viagens de Flávio ao exterior, no âmbito do inquérito sobre o advogado e amigo Willer Tomaz, suspeito de lavar dinheiro para ele.

Numa canetada, sem manifestação prévia da Procuradoria-Geral da República, o ministro o proibiu de deixar o país e autorizou o confisco de seus passaportes, escorado num suposto risco de fuga apontado pela PF, apesar de as investigações ainda estarem em fase preliminar e de até o momento não haver evidências concretas de sua participação num suposto esquema de falcatruas operadas por Tomaz.

De acordo com a defesa de Flávio, o banco Santander negou que ele fosse “usuário master” de contas ligadas a uma empresa de Tomaz. A defesa sustenta também que o risco de fuga apontado pela PF não poderia ser fundamentado em declarações de terceiros – no caso, de Eduardo Bolsonaro, seu irmão, que declarou que ele deveria deixar o Brasil se perdesse a eleição.

Julgamento imparcial

É certo que Flávio terá de pagar por sua conduta, se ficar provado, num julgamento justo e imparcial, que ele realmente agiu de forma fraudulenta para se beneficiar com recursos obtidos e aplicados à margem da lei. Isso vale também para o outro inquérito do qual ele é alvo no STF, relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do seu pai e ex-presidente Jair Bolsonaro, que tem como relator o ministro André Mendonça.

Agora, diante da percepção de que dificilmente teria um julgamento imparcial no caso relatado por Moraes e de que sua prisão era uma questão de tempo, como indicavam as restrições que lhe foram impostas de forma arbitrária pelo ministro, Flávio fez o que provavelmente qualquer cidadão de bom senso faria na sua situação, se tivesse oportunidade para tanto e se o seu futuro dependesse do sadismo de ministros como Moraes: foi embora para os EUA. Lá, ao menos, ele poderá preservar sua liberdade de expressão longe das garras de Moraes emanter sua atuação política, ainda que à distância.

“Eu soube fazer a análise de cenário e entendi onde é que eles chegariam – e rápido, mais rápido do que eu imaginava”, disse Flávio numa live transmitida nas redes sociais na sexta-feira passada, já nos Estados Unidos. Até Garotinho, ex-candidato ao governo do Rio pelo Republicanos e ex-governador do estado (1999-2002) pelo PDT, afirmou, em vídeo divulgado nas redes sociais, que ficou claro que a ordem para retenção de seus passaportes “era pra logo em seguida iniciar um processo para levar Flávio Bolsonaro preso”.

Ignorando, porém, o fato de que o Brasil está sob o jugo de uma togacracia autoritária, que atua em parceria com o governo Lula, e de que Flávio dificilmente seria julgado de forma justa, a turba petista e a esquerda como um todo, apoiada por seus porta-vozes na imprensa, apressou-se em condená-lo por antecipação, como se fosse um fugitivo criminoso, antes mesmo de ele ser julgado. A própria PF esclareceu que Flávio não pode ser considerado “foragido”, porque não havia pedido de prisão contra ele.

“O cidadão que sai escondido do seu país é porque deve alguma coisa”, afirmou Lula. “Quem não deve não teme”, disse um analista político. “Se ele fugiu é porque tem culpa no cartório”, reforçou outro. “Ele se comportou como culpado”, acrescentou um terceiro.

Plena democracia

Embora a esquerda se recuse a admitir que o Brasil não vive há um bom tempo em plena democracia, até por ser a principal beneficiária do atual regime, e conte com o apoio da centro-esquerda de plumagem tucana, da isentolândia e até de representantes da centro-direita, não é preciso ser bolsonarista nem paquita de Flávio para se dar conta disso.

“Reconhecer a perseguição judicial que existe no Brasil não é uma questão de ser de direita ou de esquerda. É uma questão de bom senso. O mundo inteiro já percebeu o que está acontecendo no Brasil”, afirmou o senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR).

No exterior, a máscara do regime já caiu faz tempo. Já ficou claro que há perseguidos políticos no Brasil e que o STF, especialmente Xandão, atua para “demonizar” uma corrente que representa praticamente a metade da população.

Não por acaso a Justiça italiana negou a extradição de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Moraes e ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE. Negou também, numa primeira decisão, a extradição da ex-deputada Carla Zambelli. O mesmo se pode dizer em relação à Justiça espanhola no caso do jornalista Oswaldo Eustáquio.

Agora, com a saída de Flávio do país logo depois da eleição, tal percepção saiu da bolha de Trump e até a esquerda passou a compartilhá-la, como o economista grego Yanis Varoufakis, professor de economia da Universidade de Atenas e ex-ministro das Finanças da Grécia em 2015, durante o governo do socialista Alexis Tsipras.

“O Judiciário não tem o direito de usar poderes para indiciar e perseguir alguém porque eles perderam uma eleição. É vergonhoso, para ser preciso. E também é perigoso para nós, da esquerda, que sabemos o que significa ser banido e caçado por juízes e delegados corruptos”, afirmou Varoufakis em publicação no X. “Temos no Brasil um Judiciário que extrapola as próprias atribuições e habitualmente cruza a linha que deveria separar o Poder Judiciário do político.”

Nos EUA, Bill Maher, que apresenta um famoso talk show na HBO e tem uma ligação histórica com os democratas, apesar de cutucar com seu bom humor tanto conservadores como progressistas, disse estar “perturbado” com a perseguição a Flávio no Brasil. “Não quero ver isso aqui. Um cara perde a eleição e tem de sair do país para não ser preso”, afirmou.

Em editorial publicado na quarta-feira passada, intitulado “Quando juízes se tornam promotores”, até o esquerdista Washington Post questionou a concentração de poderes na Corte e disse que a fuga de Flávio para os EUA logo depois do pleito de 25 de outubro expôs os problemas que afetam a democracia brasileira.

Segundo o jornal, é preocupante que um senador e ex-candidato da oposição à Presidência tenha dúvidas de que será julgado de forma justa no país, embora não seja possível dizer se ele é culpado ou inocente dos crimes pelos quais é investigado. A publicação criticou, ainda, o acúmulo de funções de investigadores, acusadores e julgadores por ministros do STF, em processos relacionados a ataques à democracia e à disseminação de desinformação.

Também em editorial publicado na quarta-feira, o The Wall Street Journal, a bíblia do mercado financeiro americano, afirmou que Flávio tem “bons motivos para acreditar que não conseguirá um julgamento justo” se for acusado por um crime no Brasil.

“A responsabilidade de decidir se cabe processar criminalmente um político federal é do procurador-geral. Mas o ministro Moraes tem o hábito de expandir sua jurisdição quando isso lhe convém politicamente”, disse o jornal, que também colocou em xeque a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Como se vê, a narrativa do regime que procura desmoralizar Flávio Bolsonaro por escapar das garras de Xandão pode até prosperar no país, com a colaboração incondicional da mídia tradicional brasileira. Lá fora, porém, como afirmou Dallagnol, hoje todo mundo já sabe o que está acontecendo no Brasil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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