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Com a eleição do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, no fim de 2025,o sinal amarelo começou a piscar no Partido Democrata. Mas foi com a recente vitória de vários membros de seu grupo político – o Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) – nas primárias da legenda para escolha de candidatos a deputado federal no pleito de novembro, que acendeu a luz vermelha.
Diante da demonstração de força dada pela extrema-esquerda nas convenções, derrotando incumbentes com longa trajetória no Capitólio, simplesmente não dava mais para ignorar sua ascensão no partido. Nem para atribuí-la a uma suposta “teoria conspiratória” da direita, como acontecia até agora.
De repente, mesmo lideranças da ala moderada dos democratas, que “passavam pano” para os extremistas, passaram a mostrar uma real preocupação com o fenômeno, que representa uma ameaça concreta para o establishment partidário. O avanço do grupo também pode ter um impacto significativo nos rumos a serem trilhados pelos Estados Unidos, se os democratas voltarem ao poder nas eleições presidenciais de 2028 e alcançarem eventualmente a maioria na Câmara e no Senado.
Não adianta dourar a pílula: o aumento da influência da extrema-esquerda no Partido Democrata é provavelmente a maior guinada política e ideológica da sigla desde a ascensão do ex-presidente Bill Clinton e da liberalização da economia abraçada por ele e pelo partido, nos anos 1990. Alguns analistas chegam a dizer até que se trata da maior virada partidária desde a década de 1920 – antes da ascensão de Franklin D. Roosevelt e do crash em Wall Street – quando os sindicatos e a esquerda tinham uma força considerável no país.
Enxurrada de militantes
A rigor, o maior protagonismo do grupo já vinha se insinuando desde a derrota do senador Bernie Sanders, considerado como o grande guru da turma, para Hillary Clinton, na convenção que a indicou como representante da sigla no pleito de 2016.
Depois, ganhou tração com a eleição de meia dúzia de parlamentares da esquerda radical – entre eles, as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York), mais conhecida como AOC, que poderá disputar a nomeação para a Casa Branca em 2028 conforme apoiadores próximos a ela, Ayanna Pressley (Massachusetts), Rashida Tlaib (Michigan)e Ilhan Omar (Minnesota).
Agora, a ascensão do grupo, que representa na prática uma espécie de PSOL americano, por seu radicalismo, suas propostas socializantes e pela truculência da militância, realmente só se consolidou nos últimos anos. Com o crescimento do movimento pró-Palestina após os atentados terroristas do Hamas em Israel e a reação israelense em Gaza, uma enxurrada de militantes identificados com o DSA filiou-se ao partido, com o objetivo de influenciá-lo por dentro.
A indicação e a vitória de Mamdani, que simboliza a estreita relação da extrema-esquerda americana com o islamismo e se tornou a nova face da legenda e uma espécie de modelo para seus aliados, representam talvez o exemplo mais emblemático de como essa invasão mudou a correlação de forças na sigla.
Como aconteceu no Brasil com o antigo MDB no fim dos anos 1980, quando o então governador paulista Orestes Quércia tomou conta da máquina partidária e passou a ditar os destinos da legenda, os militantes do DSA – que se multiplicaram nos últimos anos e já chegam a 120 mil, de acordo com levantamentos recentes – estão assumindo o controle de diretórios democratas pelos Estados Unidos afora e redesenhando de forma significativa a atuação do partido.
Apesar de representarem entre 18% e 25% dos votos nas primárias democratas, as lideranças da facção acabam beneficiadas pela baixa participação dos filiados mais antigos nas convenções, enquanto seus adeptos são bem mais engajados e comparecem em peso para referendar suas candidaturas. Em 2018, antes mesmo da atual onda de filiação de integrantes da extrema-esquerda, a própria Ocasio-Cortez obteve sua primeira vitória numa primária com apenas 17 mil votos, num distrito em que 215 mil eleitores estavam credenciados a votar.
“Bolcheviques” e “mencheviques”
Ainda que boa parte dos parlamentares e dos líderes do Partido Democrata pertença à ala moderada, muitos têm receio de perder votos se baterem de frente com a minoria ruidosa do DSA, formada principalmente por jovens brancos, que vivem em grandes centros urbanos e estão fazendo faculdade ou já concluíram o curso superior. Por isso, acabam silenciando sobre a questão, ao menos em público.
Recentemente, dois deputados democratas romperam publicamente com o DSA e lançaram um manifesto intitulado “Promessa para a América”, no qual rejeitavam a agenda extremista e defendiam o capitalismo, fronteiras seguras e o patriotismo. Apenas oito de seus correligionários na Câmara assinaram o documento, de um total de 212 deputados democratas.
Alguns analistas chamam os integrantes do DSA de “bolcheviques”, em oposição aos “mencheviques”, que formam a ala moderada do Partido Democrata. Os críticos mais contundentes do grupo, que são republicanos ou atuam de forma independente, dizem que seus integrantes procuram vender a ideia de que defendem a implantação de uma social-democracia do tipo escandinava nos EUA ou um tal “socialismo democrático” de contornos difusos, mas na verdade são comunistas. Querem acabar com o sistema capitalista e destruir as instituições americanas e a civilização ocidental usando o Partido Democrata como meio para tentar atingir suas metas.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Gallup em junho de 2025 ilustra bem a transformação ocorrida na mentalidade dos chamados “progressistas” nas últimas décadas. Segundo o levantamento, apenas 36% dos democratas dizem se sentir extremamente ou muito orgulhosos de ser americanos, contra 92% dos republicanos. Em 2001, 87% dos democratas e 92% dos republicanos declaravam ter o mesmo sentimento pela cidadania.
Entre as principais ideias defendidas pelo DSA, apoiadas pela ex-vice-presidente Kamala Harris, que corteja o grupo para possivelmente tentar nova indicação como candidata dos democratas nas eleições de 2028, figuram o fim do colégio eleitoral, a ampliação do número de juízes da Suprema Corte de 9 para 13, para alterar sua composição majoritariamente conservadora, e a transformação de Porto Rico e de Washington em estados com representação parlamentar própria.
Muitas das propostas desse pessoal são tão estapafúrdias que é difícil acreditar que tenham ressonância nos Estados Unidos, onde o capitalismo promoveu a prosperidade geral e a riqueza costumava ser respeitada e admirada como símbolo do esforço e do sucesso individual.
Mercearias estatais
Várias delas, defendidas por boa parte do grupo, são velhas bandeiras da esquerda aqui no Brasil: o aumento da taxação dos ricos, a criação de programas de renda mínima, o fortalecimento dos sindicatos, o atendimento de saúde universal e gratuito e a garantia dos direitos de inquilinos, inclusive com congelamento de preços de aluguéis. Mamdani propõe até a abertura de mercearias estatais para concorrer com as privadas oferecendo preços menores ao consumidor.
Além disso, um contingente considerável do DSA defende a abertura das fronteiras para imigrantes ilegais, o fim da ajuda americana a Israel – uma proposta que, com frequência, serve para encobrir o antissemitismo –, e o fim da polícia e das prisões. Abdul El-Sayed, um candidato muçulmano que disputa a indicação ao Senado pelo estado de Michigan nas primárias democratas, faz campanha dizendo que se opor à adoção da sharia (conjunto de leis islâmicas baseadas nas orientações do Alcorão e nas palavras e ações de Maomé) nos EUA seria um ato de racismo e ódio racial.
Não é por acaso que apoiadores históricos dos democratas, que não compartilham as propostas da extrema-esquerda, contagiadas pelo fundamentalismo muçulmano e pelo radicalismo islâmico, estão botando a boca no trombone e se insurgindo contra o partido. O apresentador e comediante Bill Maher, por exemplo, disse outro dia em seu programa na HBO que seu voto nas eleições de 2028 está em aberto.
“O Trump já falou mil mentiras, mas dizer que o DSA é na verdade um grupo comunista não é uma delas”, afirmou. “O prefeito de Nova York uma vez tuitou as exatas palavras de Karl Marx. Eles não estão nem tentando esconder. O influenciador mais popular do grupo, Hasan Piker, lamenta a queda de dois dos regimes mais sanguinários da história, o da União Soviética e a China de Mao. O Mamdani disse: ‘O objetivo final é confiscar os meios de produção’. Talvez você tenha perdido essa aula na escola, mas isso é comunismo.”
O analista político da CNN e advogado de direitos civis, Van Jones, fez uma publicação no X em meados de julho na mesma linha. “Eu sou um democrata convicto. Estou cansado de ouvir que, para ser progressista, eu agora preciso jurar fidelidade a ideias malucas”, disse. “Se não houvesse polícia ou prisões, se qualquer um na sua vizinhança pudesse fazer o que quisesse, enquanto políticos apoiam grupos de terror, isso representaria progresso para você? Não, representaria um passo atrás. Essas são ideias retrógradas.”
Numa demonstração do racha que atinge o Partido Democrata, o deputado Steve Cohen, do Tennessee, declarou à CNN que deixou de integrar a bancada progressista porque ela se tornou “mais um grupo socialista” e “a maior parte de sua liderança é socialista democrática”. “Eu não me sentia confortável lá.”
Fantasia da direita
Se o fortalecimento da extrema-esquerda na legenda se confirmar, a tendência é de que, em algum momento, “caia a ficha”, como se dizia nos tempos dos orelhões, das forças de centro e de centro-esquerda espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil, e os democratas deixem de ser um exemplo inspirador para os dois grupos, como têm sido nas últimas décadas.
Certamente, o partido também será afetado eleitoralmente pela guinada radical à esquerda, se ela se aprofundar, já que os moderados é que costumam definir as eleições nos EUA. O estrategista democrata James Carville, que atuou na campanha vitoriosa de Bill Clinton à Casa Branca, no entanto, afirma ser improvável que AOC saia vencedora nas primárias do partido.
De acordo com Carville, as nomeações dos democratas à presidência costumam ser definidas pelos negros do sul do país, que têm um perfil mais moderado e resistem a soluções radicais, como ocorreu no caso de Bernie Sanders, há dez anos. Mesmo que, em sua avaliação, “a fantasia da direita” seja de o indicado para disputar a presidência ser um socialista do DSA. Mas, para os republicanos, se vier a Kamala Harris ou o governador da Califórnia, Gavin Newsom, já estará bom demais.

É jornalista desde 1983. Foi repórter especial e colunista do Estadão, editor de Economia e repórter especial da revista Época, editor-chefe da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e editor-executivo da revista Exame. Foi também repórter da Gazeta Mercantil e da Folha. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



