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José Fucs

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O cheiro de naftalina no discurso antiamericano de Zé Dirceu

José Dirceu descarta “Lulinha paz e amor” e reforça críticas a Flávio
José Dirceu rejeita política moderada do PT do "Lulinha paz e amor" e diz que Flávio Bolsonaro é "golpista como o pai". (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

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“O Brasil governado por Flávio Bolsonaro será governado pelo Trump e pelos interesses dos Estados Unidos. O que está em jogo (nesta eleição) é a soberania do Brasil.”

A afirmação de José Dirceu, ex-presidente do PT, ex-ministro da Casa Civil e pré-candidato a deputado federal, feita na semana passada durante a comemoração de seus 80 anos, diz muito sobre qual deve ser o tom da campanha do partido, em especial a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no pleito de outubro.

Não fosse pela menção a Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, a impressão de quem ouve a fala do líder petista seria de que ele tirou uma roupa velha, com cheiro de naftalina, do armário. Ou de que entrou no túnel do tempo e voltou aos anos 1950 e ao início da década de 1960, quando o antiamericanismo, o anti-imperialismo e o nacionalismo recheavam o discurso da esquerda no Brasil e no mundo.

Só faltou Zé Dirceu – que prepara seu retorno à vida política 21 anos após ser condenado no escândalo do mensalão pelo STF (Supremo Tribunal Federal) – bradar o lema “yankees go home”, que amalgamava a turba na época.

Qualquer cidadão comprometido com a democracia e o respeito aos direitos individuais sabe para que lado sopram os ventos da liberdade. Zé Dirceu, Lula, o PT e seus aliados fizeram sua escolha, ao se alinhar com regimes tirânicos e ressuscitar o discurso antiamericano do século passado

Pode parecer piada, mas não é. Infelizmente. Lula já vinha dando a letra de que essa seria a narrativa do PT nas eleições, com suas bravatas “nacionalisteiras”, desde que o presidente americano, Donald Trump, impôs um aumento pesado de tarifas sobre as importações brasileiras, em meados de 2025.

Seu discurso em defesa da tal “soberania nacional” ganhou força também com o cancelamento dos vistos de ministros do STF e de outras autoridades para os EUA e o enquadramento de Alexandre de Moraes e de sua mulher Viviane Barci na Lei Magnitsky – o dispositivo que permite ao governo americano aplicar sanções a estrangeiros envolvidos em graves violações de direitos humanos ou em atos de corrupção.

É incrível, mas em plena era digital e da inteligência artificial, enquanto o mundo se preocupa com semicondutores e hegemonia tecnológica, Zé Dirceu, Lula e sua tropa de choque continuam batendo na mesma tecla de quando eles ainda estavam no berço ou davam seus primeiros passos, no auge da Guerra Fria. Em vez de buscarem a modernização do país de olho no presente e no futuro, querem repaginar o velho getulismo, acorrentando o Brasil a um passado que já deveria ter sido esquecido para sempre.

A estagnação econômica registrada nas últimas décadas pelo país se deve, em boa medida, a essa mentalidade retrógrada, ancorada no protagonismo do Estado nos negócios, no protecionismo que privilegia o “conteúdo nacional” e taxa as blusinhas chinesas, na gastança sem lastro e na taxação ilimitada das empresas e dos empreendedores que geram a riqueza do país.

A ironia é que, sob o pretexto de defender a “soberania” brasileira contra o Trump “malvadão” e os EUA, o nacionalismo pregado por Zé Dirceu, por Lula e pelo PT não hesita em se aliar à China, hoje o principal adversário americano no tabuleiro geopolítico e econômico. Aí, a preocupação com a tal da “soberania” vai para o brejo.

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Tido como grande estrategista político, Zé Dirceu também procurou contrapor as guerras promovidas por Trump ao espírito pacifista dos brasileiros, que, em tese, o Brasil de Lula encarnaria, como paladino da paz e mediador de conflitos globais. Não por acaso, Lula tinha a ambição de ganhar o prêmio Nobel da Paz, como coramento de suas supostas ações pela desarmamento mundial, que ficou para as calendas com sua atuação pífia no plano externo no atual mandato.

Não se trata de ser a favor da guerra ou da paz, como afirmou Dirceu, mas de estar do lado certo da história e de não se aliar a regimes tirânicos pelo mundo afora, como faz Lula. Trata-se de apoiar a captura do ditador da Venezuela Nicolás Maduro pelos EUA e a redemocratização do país, com a libertação de centenas de presos políticos, em vez de chorar pela sua queda e pelo colapso do multilateralismo de conveniência pregado por Lula e pelo PT.

Trata-se também de defender o cerco econômico ao regime comunista cubano, que vivia às custas do petróleo barato da Venezuela, em vez de enviar “ajuda humanitária” ao país para tentar lhe dar uma sobrevida. E de endossar as ações contra a teocracia islâmica do Irã – que há quase 50 anos controla com mão de ferro o país, além de patrocinar o terrorismo internacional e atuar para minar a civilização ocidental – em vez de passar pano para o regime, que matou mais de 40 mil pessoas que protestavam nas ruas pelo fim da tirania dos aiatolás.

Não é preciso ser Flávio Bolsonaro, bolsonarista ou de “extrema direita” para se dar conta de quais são as causas do bem, ainda que elas envolvam ações militares, que devem ser evitadas sempre que possível. E de quem se aproxima do “Eixo do Mal”, sob a embolorada justificativa de defesa da “soberania” do país e da “autodeterminação dos povos”.

Qualquer cidadão comprometido com a democracia e o respeito aos direitos individuais sabe para que lado sopram os ventos da liberdade. Zé Dirceu, Lula, o PT e seus aliados fizeram sua escolha, ao se alinhar com regimes tirânicos e ressuscitar o discurso antiamericano do século passado.

Se o Brasil seguir por esse caminho, a gente corre o risco de descobrir, da pior forma, que a “soberania” que eles pregam vai condenar o país a se manter na vanguarda do atraso, como dizia o filósofo e diplomata José Guilherme Merquior (1941-1991) – e, no fim, quem vai pagar a conta, mais uma vez, somos todos nós.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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