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A internação em caráter de urgência do ex-presidente Jair Bolsonaro na UTI do hospital DF Star em Brasília, depois de ele passar mal na prisão na sexta-feira, mostrou mais uma vez, para quem ainda tinha alguma dúvida, que a deterioração de seu estado de saúde não é só mimimi de familiares e de apoiadores para livrá-lo do cárcere.
Ao contrário do que parecem acreditar o ministro Alexandre de Moraes, alguns de seus colegas no STF (Supremo Tribunal Federal) e seus adversários políticos, Bolsonaro, que fará 71 anos no dia 21 de março, já deu todos os sinais possíveis, reforçados pela avaliação de seus médicos, de que não está bem. Precisa de cuidados permanentes e especializados, num ambiente adequado, para que sua situação não degenere de forma irreversível.
Quase oito anos depois, ele ainda sofre as sequelas da facada que levou na região do abdômen durante a campanha de 2018, até hoje não esclarecida de forma convincente e cuja veracidade, por incrível que pareça, é questionada até hoje por muitos de opositores. Sua internação emergencial agora, com diagnóstico de broncopneumonia bacteriana bilateral – uma doença que exige a administração de medicamentos pesados que afetam a função renal dos pacientes – é apenas o sinal mais recente, e talvez um dos mais graves, de sua debilidade física.
Desde a decretação de sua prisão domiciliar, em agosto de 2025, ainda antes de seu julgamento, sob a alegação de descumprimento de medidas cautelares, esta já é a sétima vez que o ex-presidente é internado. Só nos primeiros 39 dias de prisão no Complexo da Papuda, em Brasília, para onde foi encaminhado em 16 de janeiro, ele recebeu nada menos que 144 atendimentos médicos, pelas contas do próprio Xandão, que usou os números, ironicamente, para mostrar que Bolsonaro estava bem assistido.
Questão humanitária
Não é necessário ser “adorador do Mito”, como dizem os críticos de seus apoiadores mais aguerridos nas redes sociais, para se dar conta de que se trata de um quadro preocupante, que exige a devida atenção. Nem de que o pedido de sua defesa para que ele cumpra sua pena em prisão domiciliar é uma questão humanitária que deve ir além das paixões políticas.
Qualquer cidadão com um mínimo de sensibilidade e bom senso é capaz de perceber a mesma coisa, independentemente do que pense sobre ele e sobre sua condenação a 27 anos e três meses de prisão, por suposta tentativa de golpe de Estado. Ainda assim e apesar da idade de Bolsonaro, Xandão se nega a atender ao pedido de seus advogados e parece determinado a mantê-lo atrás das grades, mesmo sob o risco palpável de que possa sofrer um mal fatal sob custódia do Estado.
Pode até parecer despropositado e prematuro pensar que o ex-presidente corre risco de vida e discutir o assunto no momento. Nestas horas, é sempre bom acreditar que o melhor vai acontecer, ainda que muitos de seus haters, incluindo jornalistas de grandes veículos de comunicação, torçam pelo pior, por mais sinistro que isso possa ser. Com certeza, muita gente vai celebrar se ele tiver um destino trágico, como ocorreu quando o ativista da direita americana Charlie Kirk foi assassinado em setembro de 2025.
No entanto, mesmo para os cidadãos de bem, que não alimentam desejos macabros nem para seus piores inimigos, não dá para desconsiderar a possibilidade de que ele não resista ao rigor do cárcere, por mais dolorido que isso possa ser para a família e para os apoiadores de Bolsonaro.
É certo que, no campo pessoal, a perda seria irreparável – e nada que se possa dizer em relação a isso vai resolver o problema para eles. Mais uma vez, porém, para não deixar margem a dúvidas, não se trata aqui de ignorar a dor que seu fim traria, mas apenas de procurar avaliar quais poderão ser os efeitos políticos e institucionais se o ex-presidente eventualmente perder a vida na prisão.
Isso já aconteceu com Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, um dos condenados pelos chamados “atos antidemocráticos” de 8 de janeiro, que tinha uma histórico de problemas cardíacos graves e morreu na Papuda em novembro de 2023, porque Moraes “esqueceu” na gaveta um pedido de tratamento domiciliar para ele, mesmo após um parecer favorável da PGR (Procuradoria-Geral da República). E, do jeito que as coisas vão, com a visível deterioração do estado de saúde de Bolsonaro e a determinação de Moraes de mantê-lo na prisão a qualquer custo, não é algo que se possa descartar no seu caso.
Em claro desvirtuamento de suas atribuições, Xandão já anulou até uma sindicância do CFM (Conselho Federal de Medicina), principal órgão regulador e fiscalizador do setor no país, destinada a apurar se o atendimento prestado a Bolsonaro na prisão quando ele teve uma queda da cama e bateu a cabeça, era precário.
Moraes, que alegou “desvio de finalidade” e “uso político” da entidade para atacar o Judiciário, determinou até que o presidente do CFM prestasse esclarecimentos sobre os fundamentos da sindicância. Emitiu ainda uma ordem proibindo a entidade de fazer novas diligências, visitas ou inspeções na cela ou no hospital onde Bolsonaro estivesse sem prévia autorização judicial e estabeleceu multas pesadas, de até R$ 100 mil por dia, se o CFM tentasse prosseguir com a investigação interna.
Sentimento de revolta
Talvez, ao avaliar o pedido de prisão domiciliar de Bolsonaro, diante da fragilidade clínica que ele tem demonstrado, seja prudente levar em consideração algumas questões em vez de deixar o fígado ditar o rumo dos acontecimentos. Não só para preservar sua saúde, mas também para evitar que um sentimento de revolta tome conta de seus familiares e apoiadores mais fiéis, que representam 20% a 30% do eleitorado, de acordo com as pesquisas, se uma tragédia lhe acontecer na prisão.
O que poderá ocorrer se as digitais de Moraes estiverem associadas ao fim de Bolsonaro, com a cumplicidade de alguns de seus colegas no STF? Qual o efeito que isso teria para o próprio Supremo e para a democracia do país? Como isso iria afetar o quadro político e as eleições deste ano ou as próximas? Qual seria a reação internacional diante da morte de um líder da oposição no Brasil, em meio a um embate com o Judiciário e seus adversários políticos?
É difícil responder hoje a estas perguntas. Agora, dá para imaginar com certa segurança algumas consequências caso a tragédia anunciada se transforme em realidade, por força de complicações no estado de saúde de Bolsonaro e da falta de flexibilidade da Justiça para tratar a questão. Provavelmente, tudo ou quase tudo que Xandão e seus colegas da corte tentaram evitar com sua condenação à prisão irá por água abaixo, abrindo espaço para que seu grupo político se fortalecesse ainda mais no país, em meio à disputa que certamente haverá pela sua herança política.
A morte de um líder popular sob pressão, física ou institucional, tem o poder de inverter a narrativa de forma instantânea. Sua imagem de vítima do sistema certamente irá se cristalizar na sociedade. Seu “fantasma” deverá pairar sobre a vida política nacional por anos a fio. De adversário excluído do jogo político, por vias questionadas por seus aliados e até por juristas e analistas independentes, ele irá se tornar um mártir para um contingente considerável dos brasileiros, mesmo que muitos de seus adversários celebrem morbidamente seu fim.
Como no caso da morte do ex-presidente Getúlio Vargas, em 1954, o funeral de Bolsonaro encheria as ruas com milhares, talvez milhões, de apoiadores. Com a diferença de que, no caso de Getúlio, foi um suicídio, pelo qual seus aliados acusam de forma subjetiva seus opositores, enquanto no de Bolsonaro haveria uma vinculação direta a Xandão e a seus pares no STF, como ocorreu com Clezão.
É verdade que, sob pressão da defesa e diante do agravamento visível do quadro do ex-presidente, Moraes tem autorizado, de forma pontual e sempre sob escolta, alguns tratamentos e exames externos. Também determinou que instalassem grades de apoio no box, campainhas de emergência e garantissem a ele sessões contínuas de fisioterapia.
Tais concessões, no entanto, parecem mais uma tentativa de autoblindagem do que uma real preocupação humanitária. São autorizações que chegam a conta-gotas, após longos embates burocráticos, e que não resolvem a questão principal: a permanência de um paciente que sofre de problemas crônicos de saúde num ambiente de isolamento, sem poder receber o apoio e o acompanhamento de seus familiares e de cuidadores profissionais.
No plano externo, provavelmente, a eventual morte de Bolsonaro na prisão poderá reforçar a percepção, já disseminada pelo mundo afora, em especial nos círculos da direita e da centro-direita, de que, no Brasil, a democracia é relativa e a Justiça tem duas réguas – uma, implacável, para os adversários do regime, e outra, complacente, para seus aliados e o atual governo .
Por mais que Xandão, seus colegas do STF, Lula, o PT e seus satélites queiram ver Bolsonaro mofar na prisão, pelo ódio que cultivam a ele, talvez não valha a pena correr o risco de o tiro contra o ex-presidente e seu grupo político sair pela culatra. Ainda que, para eles, a concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente, em decorrência de seu estado de saúde, não se dê por questão humanitária, mas para evitar um mal maior para o próprio Supremo e para a democracia. Se o pior acontecer a Bolsonaro, com sua morte no cárcere, a vitória de Xandão e de sua turma sobre o "mito" acabará sendo sua maior derrota.








