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Até poucos dias atrás, parecia improvável, quase impossível, que ele pudesse deixar de ser um figurante para se tornar um protagonista na disputa ao Palácio do Planalto em 2026. Com uma preferência de apenas 2% a 3% nas diferentes pesquisas eleitorais, tudo indicava que sua participação no pleito seria apenas uma oportunidade para ele dar seu recado e, se possível, ajudar seu partido a aumentar as bancadas no Congresso e nas assembleias legislativas dos estados.
Mas eis que, de repente, Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência pelo Novo, ganhou os holofotes e passou a ser visto como uma opção viável da direita, centro-direita e até do chamado “centro democrático” para enfrentar o presidente Lula, provável candidato à reeleição, na disputa. Principalmente por parte dos eleitores que rejeitam o lulopetismo, mas resistem a apoiar o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL e principal adversário de Lula no momento, de acordo com as pesquisas.
Embora as sondagens ainda não tenham captado o crescimento de Zema, a Polimark–uma plataforma de previsões na qual as pessoas podem apostar em qualquer coisa, inclusive nas eleições brasileiras–já detectou sua escalada. Segundo os dados mais recentes da Polimark, que foi proibida subitamente no país pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) na semana passada e agora só pode ser acessada aqui por meio de VPN (Rede Privada Virtual, na sigla em inglês), Zema deu um salto para 10% das preferências desde que o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), resolveu atuar, ainda que de forma involuntária, como seu “cabo eleitoral”.
Ao apresentar uma queixa-crime contra Zema e pedir ao ministro Alexandre de Moraes para incluí-lo no interminável inquérito das fake news, por causa de uma sátira em vídeo publicada por ele nas redes sociais, Gilmar não apenas o transformou em vítima das arbitraridades do Supremo, hoje rejeitadas pela maior parte da sociedade. Ele o alçou à condição de celebridade, que o pré-candidado do Novo vem explorando com maestria.
O vídeo que deu origem ao embate – no qual os bonecos de Gilmar e do ministro Dias Toffoli aparecem falando sobre a quebra do sigilo bancário e fiscal de Toffoli pela CPI do Crime Organizado – já alcançou até o momento mais de quatro milhões de visualizações no Instagram. Além disso, um levantamento realizado pelo instituto Nexus apontou que, logo depois de Gilmar anunciar sua ação contra Zema, seu nome foi pesquisado mais de duas mil vezes no Google em apenas 24 horas.
Privilégios
Negligenciado e até depreciado por muita gente boa por aí até ontem ou anteontem, Zema mostrou em poucos dias que não foi por acaso que ele conseguiu se eleger por duas vezes governador em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, sem qualquer atuação anterior na política e sem uma estrutura partidária sólida para lhe dar apoio. Numa delas, em 2018, enfrentando o ex-governador e ex-senador tucano Antonio Anastasia, quando obteve 72% dos votos no segundo turno; na outra, em 2022, foi reeleito em primeiro turno com 56% dos votos.
Com um discurso aguerrido contra Lula e o PT, contra o que ele chama de “os intocáveis” do Supremo e contra a “podridão” e os privilégios dos poderosos de Brasília, Zema assumiu o papel de candidato antissistema no pleito de outubro. E, ao defender também a economia de mercado, a gestão responsável das contas públicas, e as privatizações, inclusive da Petrobras e do Banco do Brasil, mostrou que tem potencial para se tornar uma espécie de Javier Milei – o candidato libertário de um partido nanico que fez sua campanha pregando contra “a casta” e se tornou presidente da Argentina– brasileiro.
Cogitado até agora para ser vice de Flávio Bolsonaro, que vem procurando moderar o discurso para conquistar a turma do centro, Zema conseguiu conquistar um espaço próprio com seu discurso antissistema, deixando para trás também, ao que parece, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado.
Como o STF livrou Flávio da condenação no caso da “rachadinha” no Rio de Janeiro, ele “tem o rabo preso”, na visão de alguns analistas, e procura evitar críticas aos ministros. Sem papas na língua, Zema está capitalizando sozinho o sentimento de rejeição à instituição que contagia hoje boa parte da sociedade, favorecendo sua ascensão. É sintomático que integrantes do PL tenham afirmado outro dia que as críticas de Zema ao Supremo enfraquecem seu nome como candidato a vice de Flávio.
“O Flávio encarna a previsibilidade, a negociação permanente e a aceitação tácita das regras políticas impostas pelo establishment político”, disse recentemente em publicaçãono X o general da reserva Paulo Chagas, ex-aliado de Jair Bolsonaro que rompeu com o ex-presidente alegando que ele colocou a defesa de Flávio acima do combate à corrupção. “A candidatura de Flávio não representa risco ao sistema. Ao contrário: é a sua mais eficiente apólice de seguro.”
Brigas familiares
Ainda que Zema tenha se tornado alvo da artilharia do bolsonarismo-raiz, em especial da ala ligada ao deputado Eduardo Bolsonaro, hoje vivendo nos Estados Unidos, ele também se diferencia de Flávio por não enfrentar brigas familiares em torno de sua pré-candidatura. Tampouco é alvo, ao que se sabe, do chamado “fogo amigo” de políticos de seu próprio partido que questionam sua escolha para a disputa, como é o caso do filho 01 de Bolsonaro.
Como governador de Minas, Zema conseguiu acumular algumas realizações importantes que o credenciam para a disputa da Presidência e podem fazer a diferença ao longo da campanha, apesar da oposição sistemática que enfrentou da Assembleia Legislativa, por falta de uma base parlamentar sólida, e de parte dos sindicatos.
Embora Gilmar tenha lhe cobrado gratidão pelo fato de o STF ter suspendido os pagamentos da dívida do estado com a União, ele herdou um estado praticamente quebrado, com um déficit anual estimado em R$ 15 bilhões. Quando assumiu o cargo em 2019, os salários dos servidores eram pagos de forma parcelada e os repasses aos municípios estavam atrasados.
E ele entregou as finanças de Minas numa situação muito melhor do que encontrou, graças ao corte de gastos que realizou.
Colocou os salários em dia, normalizou os repasses constitucionais às prefeituras, diminuiu o número de secretarias praticamente pela metade e extinguiu milhares de cargos comissionados. Quis privatizar a Cemig e a Copasa, as companhias estaduais de energia e de saneamento, mas os deputados não votaram nem mesmo sua proposta para acabar com a necessidade de referendo popular para implementar a medida.
Em seu governo, Minas atingiu a marca histórica de mais de R$ 210 bilhões em investimentos privados e foi o estado que mais rapidamente adotou a Lei de Liberdade Econômica, dispensando alvarás para centenas de atividades de baixo risco e facilitando a vida dos empreendedores. Mesmo sem avançar com a privatização, que reforçaria o caixa do governo, investiu cerca de R$ 5 bilhões na recuperação de 2.500 quilômetros de rodovias estaduais.
Numa atitude rara, raríssima no Brasil, Zema dispensou a entourage de 27 empregados que tinha à sua disposição como governador e ficou com apenas uma funcionária, como lembrou o colunista Rodrigo Constantino em publicação no X. Recusava o próprio salário, pagava o aluguel da própria casa e ia trabalhar de carro próprio. Não empregou um só parente no governo.
No plano político e institucional, ao contrário de muita gente que, por ódio a Bolsonaro e a seu grupo político, passou pano para o arbítrio do STF e agora, com os escândalos do Banco Master e das fraudes do INSS, resolveu colocar a boca no trombone, Zema criticou desde o princípio as arbitrariedades.
Ele foi primeiro governador a se manifestar contra as medidas cautelares impostas ao ex-presidente. Foi também o único governador a ir pessoalmente a Brasília protocolar um pedido de impeachment de Xandão. É, ainda, um defensor declarado da anistia ampla, geral e irrestrita ao ex-presidente e aos condenados a penas draconianas pelos atos do 8 de Janeiro.
Vaquinha
Pesa contra Zema uma declaração dada numa entrevista realizada em 2023,quando ele afirmou que o Nordeste “é vaquinha que produz pouco”. Apesar de sua fala ter sido descontextualizada, já que foi feita quando Zema discorria sobre as injustiças a respeito da arrecadação e da distribuição dos recursos federativos, ela gerou uma comoção de políticos da região e da opinião pública e até hoje é lembrada por seus adversários.
O pré-candidato do Novo também é criticado por ter sancionado uma lei que alterou a cobrança de IPVA que incidia sobre veículos de locadoras no momento da revenda, que seus opositores dizem ter sido feita sob encomenda para beneficiar aliados políticos. Além disso, a lei teve caráter retroativo, anistiando dívidas passadas que estavam pendentes junto ao Fisco do estado.
É difícil dizer hoje se as pesquisas vão confirmar a ascensão de Zema e, em caso positivo, se ele vai continuar a subir na preferência dos eleitores nos próximos meses, a ponto de desbancar Flávio Bolsonaro e se consolidar como principal adversário de Lula. Diante da ação movida por Gilmar e de sua inclusão no inquérito das fake news, também é difícil afirmar se o STF tomará alguma medida que o impeça de ser candidato no pleito de outubro.
O mesmo se pode dizer em relação às críticas feitas a medidas que tomou como governador. De qualquer forma, a escalada apontada pela Polimark em seu favor a partir da iniciativa de Gilmar é um sinal importante de que não há nada definido e de que muita água ainda deverá rolar até as eleições. Como aconteceu com Milei na Argentina, um outsider de centro-direita e liberal como Zema, ligado a um pequeno partido como o Novo, pode acabar se dando bem nas urnas.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








