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Vladimir Putin em missa na Catedral de Cristo Salvador em Moscou, em maio de 2021.| Foto: Sergei Guneyev/EFE

Entre seus princípios, o liberalismo professa a valorização e o respeito ao indivíduo e o coloca no centro da existência terrestre, inclusive acima do Estado. A elevação da pessoa humana como centro de tudo exige que as leis de convivência social e a estruturação do Estado (e do governo) se façam para preservar, no indivíduo, a vida, a liberdade, a propriedade, a segurança e o direito à busca da felicidade.

Assim, as estruturas de poder devem ter como fim a garantia do direito ao ser humano para formular livremente seus propósitos de vida em regime de liberdade e certeza que não será constrangido em sua ação, contanto que respeite nos semelhantes os mesmos direitos e obedeça às leis que regulam a vida em comunidade.

Por que o liberalismo colocou o ser humano como centro do mundo? O início remonta a Santo Agostinho (354-430 d.C.), nascido Aurelius Augustinus. Em sua filosofia, ele exalta a crença de que o homem foi criado por Deus, é dotado de corpo e alma, e deve ser valorizado, defendido e tratado com reverência em sua dignidade, de tal forma que qualquer vedação ou punição apenas pode ser imposta em caso de violação, pelo homem, dos direitos e prerrogativas de seus semelhantes.

O comunismo soviético durou 74 anos de sangue e horror fundados no extermínio de 62 milhões de seres humanos. Moscou, como centro do poder soviético, especializou-se em produzir multidões de viúvas e crianças órfãs de pai

Assim, a punição somente pode ser aplicada se ele não dispensar aos outros o mesmo tratamento que recebe das pessoas, das leis, da sociedade e do Estado. Esses pressupostos deram base e condicionantes na formulação das teorias do Direito, da Economia e do Poder, sob o rótulo de “doutrina liberal”. Portanto, o liberalismo inglês, que veio a moldar a democracia e a economia livre, não é a origem inicial da ordem liberal.

Infelizmente, o Estado e o poder se desviaram da concepção liberal centrada no valor do indivíduo. O escritor Armando de La Torre, nascido em 1926 e ainda vivo neste início de 2022, inconformado com os rumos do Estado e dos governos na América Latina, fez o seguinte desabafo: “O poder pode ser comparado a um grande rio. Enquanto se mantém dentro de seus limites é ao mesmo tempo bonito e útil. Mas, quando transborda, torna-se impetuoso e perigoso demais para ser controlado, levando tudo o que encontra em seu caminho, trazendo destruição e desolação aonde quer que vá”.

A história da liberdade e da opressão nos remete ao povo sofrido da Rússia, onde o movimento revolucionário comunista começou em 1905, com base central em Moscou. Em 1917, a revolução bolchevique se instalou no poder, inicialmente na Rússia e, em seguida, incorporando outros países para formar, em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Em 1917, tendo Lênin como primeiro chefe de governo na Rússia, a estrutura de Moscou gerou uma safra de ditadores carniceiros e, desde 1922, com a criação da URSS, o comunismo sobreviveu até 1991. Foram 74 anos de sangue e horror fundados no extermínio de 62 milhões de seres humanos, segundo estatísticas publicadas. Moscou (como centro do poder soviético) especializou-se em produzir multidões de viúvas e crianças órfãs de pai.

Os meios empregados para exterminar pessoas foram pelo menos quatro: assassinatos para impor obediência cega; assassinatos para confiscar terras; mortes pela fome fabricada pelo regime; mortes de soldados enviados à guerra. Não se pode confundir a ditadura e seus líderes com o povo e suas famílias. Os ditadores são os carrascos sanguinários e o povo é a vítima inocente do terror e descaso com o valor da vida humana.

A geografia e a situação das fronteiras russas têm elementos que colocam o país em alta fragilidade

Neste início de 2022, a Rússia iniciou a guerra contra a Ucrânia. A origem desse conflito está no histórico comunista da URSS e nas vulnerabilidades geopolíticas da Rússia. Em todo conflito é importante analisar os dois lados, com conhecimento e sem paixão. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, pode ser acusado de ditador, mas uma coisa é certa: a geografia e a situação das fronteiras russas têm elementos que colocam o país em alta fragilidade.

A fronteira da Rússia a oeste não oferece defesa, pois é composta de planícies que facilitam a entrada de colunas militares e, historicamente, encorajaram repetidos ataques à Rússia. Ali não há barreiras naturais, como montanhas, vales e grandes rios. É nesse cenário que entra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que congrega 30 países, alguns deles fazendo fronteira com a Rússia.

Há dois erros que os líderes não devem cometer: tripudiar sobre os vencidos e ignorar o momento de ceder

Fundada no princípio de instituição militar defensiva, a Otan tem como mandamento que qualquer país-membro que for atacado será defendido por todos os seus filiados. Porém, a Otan tem o direito de instalar bases militares e manter armas nos países-membros. A Rússia se sente ameaçada por ver seus países fronteiriços entrando na Otan (a Ucrânia fez pedido para ingressar na aliança, mas ainda não recebeu aprovação).

Há dois erros que os líderes não devem cometer: tripudiar sobre os vencidos e ignorar o momento de ceder. Com o fim do império soviético, em 1991, a Otan não deu garantias à Rússia de que não colocaria bases militares e armas nos países que com ela fazem fronteira. Agora, os líderes da Otan, com Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido à frente, vêm acusando Putin de ser beligerante e um louco sanguinário.

Ora, quanto mais o adversário é perigoso, menos ele deve ser cutucado. Se há algo que os regimes comunistas fazem sem escrúpulos é exterminar vidas e espalhar sangue, e foi nesse regime que Putin foi criado e educado. Não dá para aceitar a ação de Putin na Ucrânia, mas desconsiderar as fragilidades geopolíticas da Rússia é um erro que ajuda a levar a outro erro. É por aqui que o exame do problema deve começar.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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