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José Pio Martins

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Sociedade

Universo em desencanto e a saúde mental

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Os hikikomori são jovens japoneses que, mesmo morando com a família, permanecem reclusos em seus quartos evitando qualquer interação pessoal, apenas virtual. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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O título deste artigo tomei-o emprestado da história do cantor Tim Maia, que, em 1975, aderiu a uma onda denominada “Cultura Racional”, cuja base eram os livros da seita Universo em Desencanto. O líder dessa seita era Manoel Jacinto Coelho (1901-1991).

Jacinto Coelho passou pelo Exército e trabalhou por anos no Ministério das Relações Exteriores. Sua seita pretendia oferecer uma teoria da formação do mundo, do funcionamento da mente e como as energias elétrica e magnética degeneraram a natureza humana.

A proposta do Universo em Desencanto era o desenvolvimento do raciocínio e a superação das energias negativas pela imunização racional, que seria um processo para levar o ser humano a seu estado natural de racional, puro e limpo.

Durante um tempo, Tim Maia abandonou as drogas e o álcool, vestia-se de branco e cantava canções com temas da doutrina em questão. Mas Tim não permaneceu no movimento. Após se desiludir com o líder, ele abandonou o grupo e voltou a ser o velho Tim. 

Em 2004, no Japão, havia em torno de 1 milhão de jovens com idade entre 16 e 30 anos vivendo reclusos havia muitos meses e até anos

Na fase de discípulo da seita, Tim Maia já falava de problemas que hoje classificamos como casos de saúde mental. Sobre o mesmo tema, topei com uma matéria chocante na revista Veja de 17 de novembro de 2004, sob o título “Multidão de Solitários”, que trazia um assunto intrigante.

Naquele ano, no Japão, havia em torno de 1 milhão de jovens com idade entre 16 e 30 anos vivendo reclusos havia muitos meses e até anos. Esses jovens eram chamados de hikikomori, palavra que significa “recluso” ou “isolado”.

Aqueles jovens moravam com a família; seu quarto costumava ser uma extensão de sua personalidade e seria um “esconderijo” que lhes permitia ficar horas isolados, falando ao telefone, ouvindo música, vendo televisão, surfando na internet ou simplesmente sonhando.

Tais jovens, sustentados pelos pais, dormiam durante o dia, passavam a noite acordados jogando videogame e saíam na madrugada para comprar comida e outros objetos. Seus contatos eram basicamente virtuais. Na literatura médica, esse quadro era doença mental.

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Uma questão sobre esses jovens é que, no Japão, é forte a pressão para que os filhos obtenham sucesso nos estudos, no trabalho e na vida social. Os hikikomori são os que não aguentam a pressão, fogem da competição e se retiram da sociedade.

Em face da cultura japonesa, os pais preferiam esconder esses filhos a expô-los publicamente. No Japão, ter um filho que fica abaixo da média é motivo de vergonha. O psiquiatra Tamaki Saito alertou que, para enfrentar a epidemia de reclusão social, era preciso mais do que redes de apoio aos hikikomori.

“Uma sociedade que abandona os fracos e só valoriza os fortes não é uma sociedade de verdade”, dizia Saito. Esse quadro era e ainda é consequência da sociedade ultracompetitiva em que vencer é a regra. O crescimento dos problemas de saúde mental tornou-se um desafio no mundo inteiro.

Alguns analistas garantem que o enfrentamento dos problemas de saúde mental passa por encontrar formas de compatibilizar a competição com o bem-estar individual e social das pessoas, ao lado de melhorar a rede de proteção social dos menos favorecidos e excluídos do sistema.

“Uma sociedade que abandona os fracos e só valoriza os fortes não é uma sociedade de verdade”

Tamaki Saito, psiquiatra japonês

Tamaki Saito não gosta de falar em “perdedores”, mas sim em “diferentes”, de forma que os menos premiados com dons e talentos tenham o necessário para sobreviver com dignidade e acesso aos meios para se instruir e se qualificar.

Um caso que tem estado nas manchetes da mídia mundial é a Coreia do Sul, um país com 52 milhões de habitantes, desenvolvido pelo critério de renda por pessoa, com economia pujante e infraestrutura social invejável.

Apesar disso, a Coreia está com a baixa média de 0,7 filho por mulher, quando é necessária a média de 2,1 filhos por mulher para que o número de nascimentos seja igual ao número de mortes e a população se estabilize.

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Com essa média de 0,7 filho, em 200 anos a população se extingue. A razão para uma média tão baixa é que as mulheres coreanas não querem mais ter filhos, seja pela posição inferior da mulher no trabalho e na sociedade, como pelo estresse e pelos problemas de saúde mental.

O caso da Coreia é interessante porque se trata de uma nação rica, sem miséria e com baixo índice de pobreza, do que se deduz que as questões de saúde mental vão além do problema econômico.

O cenário mundial mostra que a humanidade evoluiu, atingiu o encanto com o universo, mas no caminho criou várias formas de dor e sofrimento que culminaram com o universo em desencanto. Eis aí um problema que vai estar no centro da vida nas próximas décadas, quiçá séculos.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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