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Na sucessão de trapaças que o governo Lula vem aplicando no Brasil há mais de um ano, e que chama de “realizações”, a última é sem dúvida uma das mais sem-vergonha. Com toda aquela papagaiada que costuma marcar esses momentos, acabam de anunciar um golpe do vigário que já estava sendo armado há muito tempo: medidas para “proteger” os motoboys que fazem entregas em domicílio e “contra as empresas” que prestam esse serviço. Os motoqueiros, segundo o governo, são as vítimas, porque trabalham sem “direitos sociais”. As empresas são as criminosas, porque não pagam esses direitos ao fisco. É tudo errado, do começo ao fim.
Os motoboys não trabalham “sem ter direitos trabalhistas”. Trabalham assim, pura e simplesmente, porque querem trabalhar assim. Como disse um deles tempos atrás, para dar um xeque mate nos gatos gordos que querem se exibir como seus protetores: “Se eu quisesse trabalhar com carteira assinada, iria procurar um emprego com carteira assinada”.
Lula, o ministro do Trabalho e mais o bloco inteiro dos peixes graúdos do governo estão pouco se lixando para os entregadores de encomendas.
É muito simples. Os trabalhadores não acreditam nos benefícios que o Estado lhes promete para um dia futuro. Mas acreditam, com toda a certeza, nos 7,5% de desconto que o governo quer tirar do seu ganho mensal, já – dentro da ideia básica, e muito razoável, de que preferem ganhar mais, e não menos, por seu trabalho. Não querem, em suma, uma medida que vai lhes tirar dinheiro no bolso.
O governo Lula fica doente com essas coisas. Irrita-se, acima de tudo, com os próprios motoqueiros, que “não entendem” a dádiva que estão recebendo dos burocratões de Brasília – na verdade eles se seguram para não dizer, com todas as palavras, que essa gente não tem capacidade para cuidar dos seus próprios direitos, nem a “consciência política” para aceitarem o que Lula quer para eles. É um caso clássico na coleção de vício da esquerda: querem proteger quem não quer ser protegido e impor direitos que não foram solicitados.
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O resultado prático é que tudo o que o Ministério do Trabalho fez nesse seu tempo de governo foi diminuir a renda dos trabalhadores. Tomou-lhes um dia de salário por ano para pagarem de novo o “imposto sindical”. Agora ataca os motoboys com os 7,5% de desconto, calculados sobre o valor do salário-mínimo.
Lula, o ministro do Trabalho e mais o bloco inteiro dos peixes graúdos do governo estão pouco se lixando para os entregadores de encomendas. Nem olham para a cara deles quando recebem suas pizzas – é a empregada que vai buscar, ou o porteiro, ou o segurança. A única coisa que lhes interessa é tomar os 7,5% do ganho do trabalhador – e, muito mais do que isso, os 20% que as plataformas serão obrigadas a recolher. É dinheiro, só dinheiro, e vai tudo para o bucho do governo.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

J.R.Guzzo é jornalista. Começou sua carreira como repórter em 1961, na Última Hora de São Paulo, passou cinco anos depois para o Jornal da Tarde e foi um dos integrantes da equipe fundadora da revista Veja, em 1968. Foi correspondente em Paris e Nova York, cobriu a guerra do Vietnã e esteve na visita pioneira do presidente Richard Nixon à China, em 1972. Foi diretor de redação de Veja durante quinze anos, a partir de 1976, período em que a circulação da revista passou de 175.000 exemplares semanais para mais de 900.000. Nos últimos anos trabalhou como colunista em Veja e Exame. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



