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Leonardo Coutinho

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Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

Diplomacia disfarçada

A diplomacia e a pólvora

  • Leonardo CoutinhoPor Leonardo Coutinho
  • 13/11/2020 19:08
Luis Arce presidente da Bolívia
Nos últimos dias, o chanceler iraniano Yavad Zarif passou por Cuba, Venezuela e Bolívia, onde prestigiou a posse do socialista Luis Arce.| Foto: AFP

O presidente da República, Jair Bolsonaro, causou espanto, foi fonte de chacota, indignação e reações exageradas quando, na reta final de um discurso, referiu-se assim à defesa da Amazônia: “quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”. O presidente disse a frase em referência a uma das propostas de campanha do democrata Joe Biden, que ameaçou aplicar sanções ao Brasil caso o país não pare de destruir a floresta tropical.

Por conta de sua formação militar, Bolsonaro deve ter se lembrado de um conceito que aprendeu nos anos de academia: “a guerra é a continuação da política por outros meios”. A definição foi cunhada pelo general prussiano Carl Von Clausewitz, que escreveu o livro Da Guerra (1832), uma das obras basilares das Ciências Militares e que faz parte da formação militar. Segundo Clausewitz, portanto, a guerra não é a negação da política, mas parte dela.

E depois da fala, veio a espuma que segue tudo o que presidente diz, esteja ele errado ou não.

Enquanto no Brasil alguns forçam a mão para dizer que “declaramos guerra” aos Estados Unidos, um conflito de verdade está sendo arquitetado bem nas franjas do país e quase ninguém tem prestado atenção. Não se trata necessariamente de uma guerra convencional, aquela da pólvora. Nos últimos dias, o chanceler iraniano Yavad Zarif passou por Cuba, Venezuela e Bolívia, onde prestigiou a posse do socialista Luis Arce Catacora, eleito presidente no mês passado. As escalas de Zarif, que antecederam o desembarque em La Paz, não são cortesias casuais.

Zarif é o mensageiro do regime dos aiatolás que tem se esforçado para exportar o caos do Oriente Médio para o continente americano. O Irã é um dos principais atores extrarregionais da crise venezuelana, dando suporte aos chavistas na evasão de sanções petroleiras e na lavagem de dinheiro – seja ele proveniente de atividades formais, seja ele de origem ilícita.

Como um Estado criminalizado, a Venezuela de Maduro não tem seus alicerces erguidos em bases formais da economia, mas no crime. Tráfico de drogas, mineração ilegal e lavagem de dinheiro são as fontes do regime.

Ao longo deste ano, Teerã enviou navios-tanque repletos de gasolina para a Venezuela, ignorando as sanções e desafiando embarcações militares americanas posicionadas no Caribe para combater o tráfico de cocaína que usa a Venezuela como hub, antes de chegar ao México e depois nos Estados Unidos.

Teerã tem feito questão de que o mundo saiba de voos misteriosos que conectam os dois países. As diversas teorias passam pelo envio de ouro venezuelano para o Irã ou até mesmo que os aiatolás estariam enviando insumos para que a Venezuela possa montar mísseis, que serviriam para ameaçar os vizinhos e talvez os Estados Unidos.

Um coquetel de verdades e de ficções que o Irã combina, com muita precisão, para ocultar o fundamental. Desde Hugo Chávez, o Irã nutre um interesse especial pela Venezuela e pelos demais países sob sua influência. Em 2007, o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad esteve em Caracas para recrutar Chávez para execução de uma conspiração nuclear.

Ahmadinejad pediu ajuda a Chávez para comprar os segredos nucleares da Argentina e colocar em funcionamento uma usina paralisada no Irã, que permitiria gerar plutônio, insumo para sonhada arma nuclear dos aiatolás.

Em 2010, quando o Brasil se meteu na patetice de querer costurar um acordo nuclear com o Irã, os inspetores internacionais afirmavam que Teerã tinha em seu poder 1,2 mil quilos de urânio pobremente enriquecido. Em 2015, quando os EUA firmaram um documento com o regime teocrático, os estoques de material radioativo eram de 10 toneladas.

O milagre da multiplicação do urânio se deu com a chegada de Zarif ao comando do Ministro das Relações Exteriores do Irã, em 2013. Vindo da representação iraniana na ONU, ele já se destacava pelos dribles que dava nos inspetores internacionais durante os períodos mais intensos de tentativa de frear as ambições nucleares iranianas.

Há indícios suficientes de que Venezuela e Bolívia podem ter ajudado os iranianos a obter, de forma clandestina esses insumos.

Foi Zarif que arrancou de Cristina Kirchner um acordo que enterraria as investigações do atentado contar a sede da Associação Mutual Israelita de Buenos Aires (Amia), ocorrido em 1994, e também  foi sob sua gestão que o Irã registrou um consulado de fachada em São Paulo.

O consulado fake jamais foi comunicado ao Itamaraty e no local funcionava uma série de empresas de pessoas ligadas ao governo iraniano como agência de viagem e exportadoras. Uma possível fachada para o trânsito de pessoas, valores e mercadorias.

O deslocamento de Zarif em meio a uma pandemia para a posse de Luis Arce na Bolívia não deveria ser tratado como algo trivial ou de reconhecimento de prestígio do presidente andino. O chanceler iraniano veio intensificar as tensões na região.

No final de outubro, o ex-presidente Evo Morales – que vivia no exílio na Argentina – deixou o país para ir à Venezuela em um voo que fez questão que todos soubessem da existência, mas que manteve cercado de mistérios sobre os objetivos.

Pouco depois que o avião que transportou Morales aterrissou no Aeroporto de Maequetía, nos arredores de Caracas, uma outra aeronave, proveniente de Teerã, também chegou no mesmo terminal, de uso exclusivo das autoridades venezuelanas. Evo Morales, auxiliares de Maduro e a delegação iraniana se reuniram.

Zarif está desenhando um plano que ainda não está claro, mas, embora tenha cara de diplomacia, tem cheiro de pólvora – não necessariamente a contém, porém. Sob esse aspecto, ele é um general em campo de batalha. E para entender o tipo de guerra em que ele atua, é preciso esquecer por completo o conceito de que os conflitos se dão exclusivamente sob fogo cruzado.

Basta lembrar que Yang Wanming, o atual embaixador da China no Brasil, quando passou pela Argentina, conseguiu pela diplomacia fincar uma base militar chinesa na Patagônia, disfarçando-a de estação científica. Instalação esta que não permite o acesso de inspetores argentinos sem que tenha sido usado sequer um estalinho de pólvora. A soberania de uma porção do território foi perdida sem o trauma das Malvinas.

As guerras mudaram de forma. Ou a gente aprende logo, ou vai ser tarde demais.

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Comentários [ 16 ]

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    LSB

    14/11/2020 15:56:05

    Excelente matéria!

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    luiz antonio kesselring

    14/11/2020 15:08:28

    por que não cobrar dos USA que pague a dívida que o Vietnan cobra pelos prejuízos pelas toneladas do agente laranja, cancerígeno, jogado criminosamente sobre as matas vietnamitas? Não passaria o papel ridículo perante a comunidade internacional....

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      João Martins Donizete

      14/11/2020 21:18:28

      E o que isso tem a ver com o artigo?

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      14/11/2020 15:54:19

      Cobre dos comunistas!

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    Guilherme Milone Silva

    14/11/2020 14:54:44

    Isso é jornalismo de alto padrão. Relata os fatos e alerta para os desdobramentos mais prováveis. Parabéns

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    Paulo

    14/11/2020 14:04:27

    O mundo deve ter preocupação com a alianca Ira-Bolivia-Venezuela?

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      Bruno Carneiro

      14/11/2020 18:52:16

      Pode inserir nessa aliança a Argentina. Leia o livro do Coutinho "Hugo Chávez, o Espectro".

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  • L

    Luiz

    14/11/2020 13:44:12

    E Trump e o "Bozo" que são os fascistas, né? Temo que já seja tarde demais, né Coutinho?

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    Luiz

    14/11/2020 13:44:12

    E Trump e o "Bozo" que são os fascistas, né? Temo que já seja tarde demais, né Coutinho?

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    Eden Lopes Feldman

    14/11/2020 12:42:54

    Alerta fundamental nesta excelente análise investigativa para entendermos até que ponto a esquerda pode chegar. Informações importantíssimas. Infelizmente Bolsonaro não deveria ter se expressado daquela forma, mas não podemos esquecer a ameaça que o mundo ainda nos traz , reforçado pelo fato de que Biden é o presidente eleito mais alinhado com este lado chamado de socialista do mundo , e realmente vai criar muitos problemas. Para os próprios americanos e para nós. Parabéns ao colunista.

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    Dario de Araújo Dafico

    14/11/2020 10:19:02

    Importantíssimo alerta! Parabéns Leonardo!

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  • M

    Magaly FragaMoreira

    14/11/2020 9:27:32

    Concordo em gênero número e grau. Um pouco de História Geral não faz mal a ninguém.

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    FRANCISCO WELLINGTON FRANCO DE SOUZA

    14/11/2020 8:40:25

    Excelente artigo. Infelizmente, as pessoas hoje só lêem as manchetes dos jornais, não aprofundando o debate. Vivemos sim uma nova "guerra fria", diferente da anterior pelos métodos utilizados pelas potências mundiais e regionais. Só não ver isso quem é alienado ou mal intencionado.

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  • A

    Antônio Carlos

    14/11/2020 2:32:32

    Leonardo, cai na real, o Irã somado a Cuba, Venezuela e Bolívia não representam nada no mundo, qqr pais pé rapado dá de chinelo no traseiro deles e ainda põe na cama para dormir mais cedo e proíbe de assistir a novela. Vai criar teoria da conspiração melhor, pense na Albânia mais Gana e Honduras ........

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      João Martins Donizete

      14/11/2020 21:28:37

      Carlos. O mundo é uma teia. Portanto, os grandes usam os "pequenos" para ganhar e conquistar poder na propalada geopolítica. E não se esqueça que os jornalecos mainstream e aparelhados justamente pela essa conquista da narrativa (e também contra narrativa) não informam e sim apontam exatamente que pensemos que tudo é teoria da conspiração. Também há evidentemente, mas não é o caso aqui apontado. Alias, um primor de artigo.

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      Bruno Carneiro

      14/11/2020 18:54:41

      Vc já leu o livro dele, "Hugo Chávez, o Espectro"? Se não leu, leia. Altamente embasado em documentos oficiais conseguidos por desertores do regime chavista. Sua opinião sobre a "inofensividade" desses países vai mudar rapidinho.

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